Por que vestir paramentos litúrgicos?

“Os olhos são as janelas da alma”, diz um antigo aforismo que nos recorda que somos homens, não anjos. Todo o conhecimento nos vem pelos sentidos. Se fosse possível alguém nascer e viver sem possuir os sentidos de percepção – sem poder ver, ouvir, cheirar, saborear ou tocar -, a sua mente estaria absolutamente em branco, independentemente da boa conformação física que tivesse o seu cérebro. Estaria nele a alma espiritual, mas todos os seus acessos ao conhecimento estariam fechados. Dos sentidos corporais dependem não só os conhecimentos, mas também as emoções e as atitudes interiores. Queremos música suave nos nossos momentos sentimentais e marchas garbosas nos nossos desfiles militares. Queremos luzes difusas no descanso e brilhantes nos divertimentos.

Não nos surpreende, pois, que os acessórios externos tenham importância na nossa vida religiosa e nos nossos atos de culto. Se as insígnias e os barretes dão solenidade a uma cerimônia universitária, e os uniformes e as bandeiras a um desfile militar, e os trajes de etiqueta e os vestidos de gala a um baile de sociedade, não se deve estranhar que um modo especial de vestir fomente em nós o sentido do respeito a Deus no culto que lhe prestamos. Ninguém sabe disto melhor do que o próprio Deus que nos criou. Por isso, no Antigo Testamento, Deus prescreveu expressamente certas vestes que deveriam ser usadas no sacerdócio mosaico. Por isso, a Igreja de Deus, sob essa orientação, prescreveu no Novo Testamento vestes especiais que os sacerdotes devem usar no cumprimento dos seus sagrcor10ados deveres, em especial ao celebrarem o Sacrifício da Missa.

Durante os primeiros trezentos ou quatrocentos anos da história cristã, quando os fiéis se reuniam para a celebração da Eucaristia, o sacerdote usava vestes comuns, uma espécie de toga romana. Quando, até o fins do séculos IV, as tribos bárbaras do Norte conquistaram o Império romano, o estilo da roupa masculina começou a mudar, mas os sacerdotes continuaram a vestir a túnica comprida ao celebrarem a missa. Assim, o mais antigo dos paramentos da missa é a alva (que significa “branca”), essa túnica que o sacerdote põe sobre a batina (o traje eclesiástico que é a sua veste diária). A alva simboliza a pureza de coração e, com ela, o sacerdote expressa a sua renúncia às coisas do mundo, exigida para se oferecer o Cordeiro de Deus. Em tempos antigos, a toga romana era cingida por um cordão ou cinto, que ainda continua a utilizar-se, se é necessário, e conserva o mesmo nome romano: cíngulo. É feito de linho ou lã, e significa a castidade, o domínio dos desejos carnais.

Ao longo do século VIII, tornou-se costume que o sacerdote se dirigisse ao altar com a cabeça coberta com um capuz. Esse capuz foi-se estilizando até se tornar o paramento a que chamamos amito (do latim amictus, que significa “coberto”). É um lenço branco de forma oblonga ou retangular, com compridas fitas cosidas a dois dos seus ângulos. Em algumas ordens religiosas, ainda se usa o amito em forma de capuz sobre a cabeça. Mas, para os demais sacerdotes, o prescrito é utilizá-lo por baixo da alva, quando esta não encobre completamente as vestes comuns que circundam o pescoço. A Igreja fez do amito um símbolo do “capacete de salvação” de que nos fala São Paulo, que protege a cabeça contra os ataques de Satanás.

A segunda peça importante vestida pelo sacerdote, depois da alva ou túnica, é a estola: uma longa faixa de cor, que se coloca sobre os ombros e se deixa pender diante do peito. O uso da estola foi introduzido no século IV, e parecer derivar da roupagem oficial que os juízes romanos vestiam no tribunal. A Igreja adotou-o como símbolo da autoridade sacerdotal. A roupagem do princípio foi evoluindo até adquirir a forma de hoje. Na sua liturgia, a Igreja compara a estola à “roupa de imortalidade” que recobre a alma cristã. Eventualmente, a própria estola pode fazer as vezes da casula. Assim, para o Brasil, a Santa Sé aprovou a possibilidade – se o sacerdote assim o desejar – de se substituir o conjunto alvo e casula por uma túnica ampla, de cor neutra, com uma estola da cor do tempo ou da festa.

O último paramento de que o sacerdote se reveste é a casula. A casula é uma vestidura ampla, comumente com adornos, que pende dos ombros do sacerdote, pela frente e pelas costas. Do fato de envolver o sacerdote derivou o nome latino casula, que significa “casa pequena”. No simbolismo cristão denota o jugo de Cristo, a responsabilidade do celebrante como cristão e como sacerdote. Há dois estilos de casulas: a mais ampla, que pende dos braços aos lados, e se chama gótica; e a atualmente menos usada, recortada nos lados para deixar os braços livres, chamada romana. A casula não é senão uma adaptação da capa que os homens vestiam nos primeiros séculos da história cristã.

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Interessa-nos olhar agora para o celebrante detidamente, quando sai da sacristia já paramentado, pronto para começar a Missa.

Notamos logo que os paramentos exteriores do sacerdote são de cor, uma cor que não é a mesma todos os dias. Há cinco cores que dão variedade à liturgia: o branco, o vermelho, o verde, o roxo (ou violeta) e, eventualmente, o preto. O branco é símbolo da pureza e santidade, e também expressa alegria. É a cor das festas de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem, dos santos que não são mártires, e utiliza-se também na Páscoa. O vermelho é a cor do fogo e do sangue. Significa o fogo ardente do amor, e por isso é a cor usada nas festas do Espírito Santo, que no dia de Pentecostes desceu sobre os Apóstolos em forma de línguas de fogo. É também a cor das festas dos mártires, esses santos que provaram o seu amor a Cristo derramando o seu sangue por Ele. Por maioria de razão, emprega-se no Domingo da Paixão (Ramos) e na Sexta-feira Santa, quando se celebra a morte d’Aquele que é – como dizia Santo Agostinho – a “Cabeça dos Mártires”. O verde é a cor que cobre a terra, quando a natureza desperta do seu letargo invernal. É, por conseguinte, a cor da esperança, e expressa a nossa confiança em alcançar a vida eterna. É a cor que se utiliza nos domingos do Tempo Comum, quando a Missa não é de um santo ou outra festa. A cor roxa evoca a preparação e a paciência e, por isso, é usada nos domingos e dias de semana no Advento e da Quaresma, quando não se comemora outra festa. A cor roxa é ainda utilizada nas Missas de defuntos, que podem ser celebradas também com casula de cor preta.

Podemos aproveitar o ensejo para passar brevemente em revista os principais objetivos sagrados necessários para a celebração da Missa. Entre eles distinguem-se os vasos sagrados: especialmente o cálice e a patena. No cálice, o vinho é consagrado e transforma-se no Sangue de Nosso Senhor, que é oferecido por nós. E a patena – que tem a forma de uma pequena bandeja – o pão converte-se no Corpo de Jesus, que igualmente se oferece ao Pai em sacrifício pelos nossos pecados. Por isso, esses vasos sagrados sempre são de material nobre, sólido e incorruptível. O normal é que sejam metálicos, e, nesse caso, convém que recebam o revestimento de um banho de ouro no seu interior, que estará em contato com o Preciosíssimo Sangue ou o Sagrado Corpo de Cristo. Este banho é logicamente desnecessário quando se trata de um cálice ou de uma patena de ouro. Também pode suprimir-se quando se utilizam outros metais nobres inoxidáveis.

Há também outro vaso sagrado: o cibório, que, como o seu próprio nome indica (ciborium em latim que dizer recipiente do pão), é uma copa que contém as hóstias pequenas com as quais os fiéis comungam. Valem a respeito da sua confecção as mesmas observações que fizemos a propósito do cálice e da patena. Quando o número de comungantes não é muito elevado, pode-se prescindir do cibório, utilizando a própria patena.

Além dos vasos sagrados, são importantes vários outros objetivos para a celebração da Eucaristia. São as toalhas, o corporal, o sanguíneo e a pala, todos eles de pano branco e, finalmente, as velas. As toalhas cobrem o altar. Deve haver pelo menos uma. O corporal é uma peça quadrada de pano branco, que se estende sobre a toalha. Sobre o corporal descansarão – no cálice e na patena – o Corpo e o Sangue de Jesus; daí o seu nome. O Sanguíneo é um pano de linho fino que serve para enxugar o cálice no fim da missa. A pala é um pequeno quadrado de pano rígido, com o qual se pode cobrir o cálice durante a celebração, para impedir que caia poeira ou qualquer impureza no Sangue de Cristo. Sobre as velas que ardem no altar ou diante dele (Cristo, Luz do mundo), basta dizer que se utilizam pelo menos duas. Em dias de festa, são quatro ou seis. Também vemos, no altar ou junto dele, um crucifixo, que recorda constantemente ao sacerdote que está a oferecer o Sacrifício do Calvário.

Retirada do livro: A Fé explicada, Leo J. Trese. Ed.Quadrante.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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