Anjos e Demônios – Por Dan Brown

O autor, já conhecido por seu best seller “O Código da Vinci”, apresenta mais um romance ainda hostil à Igreja. Esta é tida como inimiga da ciência; opõe-se-lhe então uma sociedade secreta dita dos illuminati (iluminados), que procura destruir a Cidade do Vaticano durante um conclave destinado a eleger novo Papa. O simbologista Roberto Langdon e a pesquisadora Vittoria Vetra tentam evitar que isto aconteça, procurando a sede dos iluminados em Roma; passam por experiências sinistras, mas conseguem isentar de destruição o Vaticano. Da parte da Igreja, faz-se ouvir uma voz de conciliação com a ciência. O romance termina mencionando uma série de portentos, que não condizem com o resto do livro, redigido em tom racionalista e relativista.

Dan Brown tornou-se famoso pelo romance “O Código da Vinci”, em que se mostrou hostil a Igreja. Volta a público com mais uma obra ou romance que agride a Igreja. A seguir, será exposto sumariamente o conteúdo de “Anjos e Demônios”, ao que se seguirá breve comentário.

1. O conteúdo do livro

A tese posta em discussão no livro é a pretensa incompatibilidade entre ciência e fé. A Igreja seria dita progresso científico e, por isto, combatida por uma sociedade secreta dita “dos illiminati”, que trama um plano para destruir a Cidade do Vaticano por ocasião de um conclave: os “illuminati” terão produzido a antimatéria, substância altamente explosiva e a terão escondido na basílica de São Pedro. Dois cientistas – Roberto Landgon e Vittoria Vetra – se empenham por descobrir o explosivo antes da meia-noite (hora prevista para a explosão); após duras peripécias, conseguem evitar o desastre. O romance termina referindo vários portentos, que não condizem com o tom racionalista e relativista do livro. Para temperar o rigor do conflito, Dan Brown apresenta, no decorrer da obra, vozes de personagens da Igreja amigas da ciência e do progresso; entre estas, acha-se a voz do camerlengo do conclave, figura de padre reto e austero.

Robert e Vittoria, que procuram desmascarar a sociedade secreta, não são cristãos, mas panteístas, como sugere o diálogo abaixo:

“A ciência me diz que Deus tem de existir. Minha mente me diz que nunca vou compreender Deus, e meu coração me diz que não fui feita para isto”; afirma Vittoria. “Isto é que é concisão”, pensou ele (Robert).

– “Então, acredita que Deus é fato, mas que nunca o compreenderemos”…

Langdon deu uma risadinha.

– “A Mãe Terra.

– Gaea. O planeta é um organismo. Todos nós somos células com diferentes finalidades. No entanto, somos entrelaçados. Servindo uns aos outros. Servindo ao todo” (p. 100).

Quanto aos iluminados. Dan Brown assim concebe a sua origem:

“- Desde o começo da história – explicou Langdon-, sempre existiu uma profunda brecha entre ciência e religião. Cientistas como Copérnico, que não tinham papas na língua…

-Foram assassinados – interrompeu Kohler. – Assassinados pela Igreja por revelar verdades científicas. A religião sempre perseguiu a ciência.

– Sim, mas por volta de 1500, um grupo de homens em Roma revidou e lutou contra a Igreja. Alguns dos homens mais esclarecidos da Itália – físicos, matemáticos, astrônomos – começaram a promover encontros secretos para discutir suas preocupações sobre os ensinamentos errados difundidos pela Igreja. Temiam que o monopólio da “verdade” pela Igreja ameaçasse a difusão dos conhecimentos acadêmicos pelo mundo afora. Fundaram o primeiro think tank científico do mundo, chamando a si mesmos de “os esclarecidos”.

– Os illuminati.

– Evidentemente, os illuminati eram calçados impiedosamente pela Igreja Católica. Somente através de ritos extremamente sigilosos é que os cientistas se mantinham seguros. Os rumores se espalharam pelo submundo acadêmico e a fraternidade dos illuminati cresceu, incluindo cientistas de toda a Europa. Eles encontravam-se regularmente em Roma em um refúgio ultra-secreto a que chamavam de “Igreja da iluminação”.

Kohler tossiu e remexeu-se na cadeira.

– Muitos dos illuminati – Langdon prosseguiu – queriam combater a tirania da Igreja com atos de violência, mas seu membro mais reverenciado persuadiu-os a não agir assim. Era um pacifista e um dos mais famosos cientistas da História”.

Langdon estava certo de que Kohler reconheceria o nome. Até os que não pertenciam ao mundo científico conheciam o malfadado astrônomo que fora preso e quase executado pela Igreja por ter declarado que o Sol, e não a Terra, era o centro do sistema solar. Embora seus dados fossem irrefutáveis, o astrônomo fora severamente punido por insinuar que Deus não instalara a humanidade no centro de seu universo.

– Seu nome era Galileu Galilei – disse Langdon” (pp. 36s).

“- Os Illuminati eram sobreviventes. Quando fugiram de Roma, viajaram por toda a Europa procurando um lugar seguro para se reagruparem. Foram acolhidos por uma outra sociedade secreta, uma fraternidade de ricos pedreiros bávaros chamados franco maçons.

– Os maçons? Espantou-se Kohler” (p. 40).

A respeito da problemática assim abordada, tenha-se em vista a encíclica “Fé e Razão” de João Paulo II,

Pergunta-se agora:

2. Que dizer?

Consideraremos os três seguintes pontos:

2.1. Os Iluminados

Os historiadores ignoram uma sociedade secreta que, a partir de aproximadamente 1500, tenha combatido a Igreja em nome da ciência e com o título de “iluminados”. O que conhecem é uma sociedade homônima fundada no século XVIII por Adam Weishaupt (1748-1830). Educado em escola de jesuítas, mas influenciado por seu avô, livre pensador, Weishaupt se impregnou de concepções racionalistas, que o levaram à maçonaria. Insatisfeito com o que aí encontrou, resolveu fundar sua sociedade secreta própria em Ingolstadt (Baviera) a 1º de maio de 1776; seria mais audaciosa do que a Maçonaria na procura de reforma moral e política dos seus membros e da sociedade; foi o que valeu, para os associados, o título de “Perfectíveis”, posteriormente trocado pelo de Ordem dos iluminados.

Mais claramente falando, o objetivo da Ordem era destruir a autoridade legítima, tanto a do pai de família como a do Estado. Pode-se crer que Weishaupt tinha em mira substituir a Igreja. O processo de recrutamento era severo; como professor que era, Weishaupt exigia dos candidatos dissertações filosóficas e os compelia a uma confissão completa da sua vida passada; cada novato recebia um patrono escolhido entre os grandes pensadores do passado. A iniciação compreendia três etapas: a dos noviços ou pequenos iluminados, a dos cavaleiros escoceses e a dos pertencentes aos grande mistérios.

Em 1777 Weishaupt ingressou na Maçonaria com a intenção de submetê-la ao programa da Ordem dos Iluminados.

As pretensões de Weishaupt irritaram o governo bávaro dirigido pelo chanceler Knigge. Em 1785 Weishaupt foi deposto da cátedra universitária que ocupava. Um dos seus discípulos chamado Lanz morreu fulminado por um raio; em seus bolsos encontraram-se documentos que comprometiam o portador e seus confrades. Outros documentos foram ainda descobertos que depunham contra o patriotismo dos iluminados, de modo que Weishaupt teve de abandonar a Baviera. A Ordem assim abandonada não tardou a se extinguir; o governante Carlos Teodoro da Baviera decretou o fechamento da mesma aos 22 de junho de 1784. Ainda no século XVIII houve tentativas de restaurá-la, mas sem resultado.

Ora Dan Brown transpõe para o século XVI a sociedade secreta fundada na Baviera e simpatizante com a Maçonaria no século XVIII. O leitor desavisado poderá crer que o escritor alude a fatos históricos sem mais – o que seria um mal-entendido. Ver (con)fusão às pp. 21 e 91.

É falsa outrossim ou destituída de toda documentação básica a seguinte notícia propagada por D. Brown à p. 38 do seu livro:

A Igreja terá capturado e interrogado quatro cientistas iluminados; tê-los-á marcado a fogo no peito com o símbolo da cruz. Em seguida, os seus corpos terão sido brutalmente assassinados e lançados os seus cadáveres às ruas de Roma como advertência a quem pensasse em candidatar-se à Ordem dos iluminados. O leitor saberá que versa aí em pleno romance e não em historiografia séria.

2.2. Fé e Razão

Dan Brown atribui ao padre camerlengo válidas considerações sobre o binômio acima, pondo em foco a superação do problema ou da antítese entre fé e razão:

“- A ciência pode ter aliviado os sofrimentos das doenças e dos trabalhos enfadonhos e fatigantes, pode ter proporcionado uma série de aparelhos engenhosos para nossa convivência e distração, mas deixou-nos em um mundo sem deslumbramento. Nosso crepúsculos foram reduzidos a comprimentos de ondas e freqüências. As complexidades do universo foram desmembradas em equações matemáticas. Até o nosso amor-próprio de seres humanos foi destruído. A ciência proclama que o planeta Terra e seus habitantes são um cisco insignificante no grande plano. Um acidente cósmico – e aqui o camerlengo fez uma pausa. – Até a tecnologia que promete nos unir, ao contrário, só nos divide. Cada um de nós está hoje eletronicamente conectado ao globo inteiro e, entretanto, todos nos sentimos sós. Somos bombardeados pela violência, pela divisão, pela desintegração e pela traição. O ceticismo passou a ser uma virtude. O cinismo e a exigência de provas para tudo converteram-se em pensamento esclarecido. Alguém ainda se admira que as pessoas hoje se sintam mais deprimidas e derrotadas do que em qualquer outra ocasião da história do homem? Será que existe alguma coisa que a ciência considere sagrada? A ciência até se atreve a reorganizar nossa DNA. Despedaça o mundo de Deus em parcelas cada vez menores em busca de significados e só encontra mais perguntas.

– A velha guerra entre a ciência e a religião está encerrada – disse o camerlengo. – Vocês venceram. Mas não venceram honestamente. Não venceram fornecendo respostas. Venceram redirecionando nossa sociedade de modo tão radical que as verdades que outrora víamos como diretrizes agora parecem inaplicáveis. A religião não tem capacidade para acompanhar isto. O crescimento científico é exponencial. Alimenta-se de si mesmo como um vírus. Cada novo avanço abre caminho para outros novos avanços. A humanidade levou milhares de anos para evoluir da roda para o carro. E apenas décadas do carro para o espaço. Atualmente, calculamos. O abismo entre nós se aprofunda sem parar e, à medida que a religião vai ficando para trás, as pessoas se vêem em um vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. Vamos OVNIS frequentamos médiuns, buscamos contato com os espíritos. Experiências extracorpóreas, e uso do poder mental. Todas estas idéias excêntricas têm um verniz científico, mas são descaradamente irracionais. São grito desesperado da alma moderna solitária e atormentada, deformada por seu próprio esclarecimento e por sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha à tecnologia” (pp. 315ss).

2.3. Igreja

A Igreja é tida como mestra de dogmas supersticiosos, recebidos do paganismo na época de Constantino Imperador (+ 337). Os Cardeais que morrem durante o conclave são despojados de seus trajes e marcados a fogo sobre a pele; cada um desses prelados é assinalado no peito com o nome de um dos quatro elementos “constitutivos de toda a realidade: Ar, Fogo, Água, Terra”. Seria esta caracterização uma forma de atribuir ignorância à Igreja.

Na verdade, a Igreja não é contrária ao progresso da ciência. Ela teve e tem entre os seus clérigos e leigos grande cultores da ciência. O que importa à Igreja é que a ciência não se desligue da consciência ética; esteja a serviço do homem e não ponha o homem a seu serviço. Chama a atenção o final do romance; salva-se de uma explosão a basílica de São Pedro; salvam-se da morte os protagonistas do romance (os cientistas Robert e Vittoria, o padre camerlengo) em uma série de episódios portentosos (graças de Deus), que destoam da índole racionalista e relativista do romance.

Mais ainda: o livro tem como última cena um convite ao “amor” feito por Vittoria Vetra a Roberto Langdon. Isto fica longo do fio condutor do romance e deixa o leitor um tanto desapontado; seria para desejar que a temática central do livro fosse abordada de maneira concisa e lúcida.

Em suma, “Anjos e Demônios” é mais um romance policial de leitura atraente cheia de suspenses, mas é também um ataque gratuito e caricatural à figura da Igreja, Mãe e Mestra benemérita.

Revista: “Pergunte e Responderemos”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 512 – Ano 2005 – p. 83

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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