Visões e Revelações – por D. Aloisio Lorscheider

Íntegra da carta circular
escrita por Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Aparecida-SP, sobre a
crescente propagação de visões e revelações no mundo atual.

Prezados arquidiocesanos,
paz e bem!

Aparecem sempre de novo,
também entre nós, pessoas que dizem terem tido visões. Muitas pessoas correm
atrás desses videntes como se eles fossem o evangelho vivo. Para que todos
conheçam o que a Igreja Católica pensa sobre isso, dirijo-vos esta Carta
Circular. O meu objetivo é orientá-los a fim de que não sejam, como diz São
Paulo, arrastados por qualquer vento de doutrina, ludibriados por esses videntes
e por eles, com astúcia, induzidos ao erro (cf. Efésios, 4,14). Vocês não são
mais crianças, deixando-se levar de cá para lá como joguetes, entregues ao
sabor das ondas (Ef 4,14).

Tanto no Antigo Testamento
quanto no Novo fala-se de visões e revelações. Era o tempo em que Deus revelava, por
meio dos profetas, e dos apóstolos a sua vontade a seu povo, e por meio deste
povo, a nós. Com a morte, porém, do último apóstolo este período foi encerrado.
Não haverá mais nova revelação pública. Só podemos aprofundar e explicitar
sempre mais o que Deus revelou e o que, por obra do Espírito, foi escrito na
Palavra de Deus e complementada por uma sadia Tradição, a Tradição
divino-apostólica. Além da palavra escrita existe uma tradição
divino-apostólica. O próprio São Paulo se refere a esta tradição quando
escreve: “De fato, eu vos transmiti, antes tudo, o que eu mesmo tinha
recebido…” (1Cor 15,3). Isto significa que não podemos nem devemos
esperar mais em nossos dias novas revelações, às quais devemos prestar fé divina.

Pode haver, isto sim, alguma
visão e revelação particular. Esta porém nunca poderá nem deverá ser aceita por
fé divina. Ao máximo pode dar-lhe fé humana. Mas, mesmo para darmos fé humana,
necessitamos da máxima prudência e discrição.

Há critérios para julgar a
autenticidade ou não destas visões e revelações. Esses critérios são vários,
desde as pessoas que se dizem favorecidas até o objeto das visões e revelações
e os efeitos produzidos por elas.

Basta ver os critérios
quanto às pessoas. São pessoas equilibradas ou neuróticas, histéricas? São
pessoas de bom senso, de juízo reto, ou de imaginação exaltada, junto a uma
excessiva sensibilidade? É pessoa sadia ou pessoa doente? É pessoa sincera, ou
gosta de chamar atenção sobre si, gosta de inventar? É pessoa calma ou
apaixonada? Além do mais, é pessoa humilde ou é pessoa que gosta de se exibir,
de contar a toda a gente os seus favores espirituais?

Só com esses critérios vocês
já podem ver que estes videntes que andam por aí contando vantagem não merecem a
mínima fé. Sempre que entra a exibição, falta a humildade; se quer chamar a
atenção sobre si, já podemos concluir que o vidente é um enganador, um
mentiroso, um falso vidente. Nem Lúcia, nem Jacinta, nem Francisco, nem
Bernadete, nem o índio Diego andaram por aí, pelo mundo afora, contando as
visões que tiveram e as revelações que receberam. Muito pelo contrário.
Bernadete fechou-se no convento; o mesmo aconteceu com irmã Lúcia (já que
Francisco e Jacinta já haviam falecido). Com o índio Diego, nem sabemos como
terminou sua vida.

Se um vidente anda pois por
aí contando as suas visões, já é sinal suficiente de que é um falso vidente.
Isto vale também para as tais aparições de Nossa Senhora de Medjugorje.

Quero igualmente chamar a
atenção sobre o Movimento Sacerdotal Mariano. Não é que reprovo este movimento,
mas reprovo sim o modo como está muitas vezes sendo feito. Todas estas
elocuções divinas ou marianas causam suspeita. A impressão que fica é que elas
valem para muita gente mais do que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Além do mais, Maria Santíssima quando esteve aqui no mundo falou tão pouco.
Será que se arrependeu e agora está falando pelos cotovelos?

Tudo isto se torna ridículo.
Por mais piedosas e emocionantes que sejam estas elocuções, não são nem por
isto palavra de Deus, palavra da salvação. É preciso o máximo cuidado com todo
este tipo de propaganda. O próprio São João da Cruz, que ninguém coloca sob
suspeita, afirma que o desejo de visões e revelações tira a pureza da fé,
desenvolve uma curiosidade perigosa que é fonte de ilusões, embaraça o espírito
com vãs imaginações, denota muitas vezes falta de humildade e submissão à
vontade de Deus Nosso Senhor que, pela revelação, terminada com a morte do
último Apóstolo, já nos deu tudo quanto nos é necessário para nos conduzir ao
céu. O próprio São João da Cruz insurge-se com força contra os orientadores
imprudentes que favorecem o desejo e a propagação de visões e revelações. Elas
não edificam a fé nem fortalecem as pessoas na fé. Perde-se apenas muito tempo
em longas conversas inúteis.

Meus queridos
arquidiocesanos da Arquidiocese de Aparecida, por tudo que escrevi vocês já
percebem que não devem gastar inutilmente dinheiro correndo atrás destas
ilusões. São puras ilusões. E os dedicados ao Movimento Sacerdotal Mariano
sejam prudentes em seu apostolado. Trabalhar pela santificação do clero é bom e
necessário. Mas nunca fazê-lo baseado em visões ou revelações mais do que
duvidosas. Todos devemos nos orientar pelo que a Igreja, no seu legítimo magistério,
nos diz, e não por esses videntes ambulantes, acompanhados até de padres, que,
vez ou outra, andam por aí.

Diz São Paulo e o Vaticano
2º o reafirma que nós, os bispos, não devemos apagar o Espírito, nem desprezar
os dons de profecia, mas examinar tudo e guardar o que for bom (cf. 1Tes.5,9).
Pois bem, é o que eu quis fazer com esta Carta Circular. Cuidado com os falsos
profetas! Cuidado com os falsos videntes! Sobretudo estes videntes
ambulantes…
ano: 1998

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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