Fé e razão

Atualmente, muitos são os que acreditam em um divórcio irreconciliável entre as ciências filosóficas e a doutrina da Revelação, e consequentemente, uma dupla verdade: aquela apreendida pelos sentidos ou experimental e a da fé. A estes, entretanto, Pio IX, em sua encíclica Qui pluribus, denomina “incautos e inexperientes”, pois são enganados pelas afirmações ilógicas dos inimigos do nome cristão, que não hesitam em arrogar a si o título de filósofos (D 2775).

Mas, então, em que consiste a verdadeira filosofia? No estudo dos fenômenos? No estudo do homem como simples objeto? A razão humana estaria, desta forma, reduzida a funções meramente práticas e instrumentais? Há um caminho certo para a filosofia?

Se, etimologicamente, o termo filosofia vem do grego e significa amigo da sabedoria ou amigo do conhecimento, poderíamos dizer que filósofo é todo aquele que deseja conhecer; em outras palavras: todo o gênero humano, pois todos nós buscamos o conhecimento desde a infância. Uma criança ainda em seus primeiros meses de vida: se lhe mostram um brinquedo ela não se contenta apenas em vê-lo, mas deseja também pegá-lo, agitá-lo, mordê-lo, etc., pois a avidez pelo saber já se manifesta em seu intelecto. Ao crescer um pouco mais, é chegada a “idade dos porquês”, em que ela se indaga o porquê de tudo o que existe ao seu redor, como por exemplo: por que ao apertar o interruptor a luz se acende? Depois, ela iniciará seus estudos em um colégio, posteriormente em uma universidade, e irá crescendo e adquirindo experiência na “escola da vida”.

Esse desejo de conhecer cada vez mais, numa especulação racional contínua, foi a causa – sobretudo na antiga Grécia – de alguns começarem a dedicar-se de maneira especial à busca da verdade: são os que receberam o nome de filósofos. Primeiramente, seus estudos procuravam solucionar questões cosmológicas, chegando a conclusões muitas vezes infudadas, como a origem do mundo através do azar, da água, do fogo, ou até dos números. Posteriormente, interessaram-se por problemas antropológicos: o que é felicidade? Ou o que é a alma humana? Mas, tampouco, tiveram grande êxito.

Com a encarnação do Verbo, Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, trouxe ao mundo uma nova doutrina: a Boa Nova do Evangelho. Ele, que é o lumen veritatis, apresentou o caminho desta verdade, que é Ele mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Alguns séculos depois, a Escolástica levou a história da filosofia ao seu ápice, unindo a especulação da razão com a luz da fé.

Os que seguiram este Caminho chegaram com sucesso a muitas respostas para as investigações até então feitas. Pode-se comprovar isso nos Concílios, nas obras dos Padres e dos Doutores da Igreja, bem como nos documentos do Magistério Eclesiástico. Como entende a filosofia cristã, à Luz da Revelação, o aparecimento do homem:

Na sua bondade e com a sua onipotente virtude, não para aumentar a sua beatitude nem para adquirir perfeição, mas para manifestá-las através dos bens que concede às suas criaturas, somente este verdadeiro Deus tem, com a mais livre das decisões, desde o inicio dos tempos, criado do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, os anjos e o mundo, e depois a criatura humana, como partícipe de ambas, constituída de alma e corpo (PIO IX. Dei Filius, no.9).

Ou qual a fonte da alegria do homem: “Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que Te servem por puro amor: essa alegria és Tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em Ti, de Ti e por Ti” (SANTO AGOSTINHO. Confissões, L. X, c.22)

Porém, muitos rejeitaram os ensinamentos do Homem-Deus e, por isso, não puderam encontrar-se com a verdade: “não […] alcancei o sentido [da vida], parecendo-me tudo uma piada” (SARTRE, 1986, p.32 apud LLANO CIFUENTES, 2009, p.114). Ou baniram o Criador do Universo, por teorias errôneas, desligadas das verdades de fé: “Assim como o universo teve um começo, nós podemos supor que teve um criador. Mas se o universo está realmente autocontido, não tendo limite ou borda, sem qualquer princípio ou fim, existindo simplesmente, que lugar teria então um criador?” (HAWKING, 1988, p.140-141 apud BANDET, 2009, p.72). Excluindo os ensinamentos do Divino Mestre de suas especulações, eles negam o que para os que possuem a graça batismal é tão evidente, como afirma o Pe. François Bandet (2009, p.77):

O nosso universo está organizado com a precisão de um relojoeiro, e para afirmar que tudo isto não é senão fruto do acaso e do destino, como fazem os darwinistas, seria como dizer que a Torre Eiffel, com os seus milhares de porcas e parafusos, teria sido montada ao acaso. Ridículo…

Seria insensatez crer que a filosofia deva rejeitar o que Deus em sua infinita clemência se dignou manifestar aos homens. Nossa razão e capacidade intelectual não são senão uma participação em Deus. Para esta questão, nos chama a atenção Mons. João Sconamiglio Clá Dias (2009, p.17-18):

Não se pode conceber, portanto, uma vida intelectual em divórcio com a conduta em meio aos afazeres de nossa existência terrena. Quem é batizado e conhecedor da Revelação terá por ideal viver conforme o real divino e religioso, tal qual adverte o apóstolo: “Isto, pois, digo e vos rogo no Senhor: que não andeis mais como os Gentios, que andam na vaidade dos seus pensamentos, os quais têm o entendimento obscurecido, e estão afastados da vida de Deus pela ignorância que há neles, por causa da cegueira de seu coração” (Ef 4, 17-19).

É importante esclarecer que se pode e deve fazer uso das ciências, sem desprezar o que se conhece pela fé, pois “a razão, ao separar-se das questões últimas, se fez […] incompetente para decifrar os enigmas da vida, os enigmas do bem e do mal, da morte e da imortalidade” (RATZINGER, 2005, p.182, tradução nossa). Tanto a luz da fé, quanto a luz da razão, procede da mesma fonte, autora da Revelação e criadora do intelecto humano, de maneira que, os princípios religiosos devem iluminar e guiar o raciocínio, e este proteger e defender a fé cristã; entretanto, sem jamais tentar sobrepor-se a ela, dado que nunca poderá demonstrá-la e compreender todos os seus mistérios. A este respeito, vejamos o que nos aconselha Santo Hilário (De la Trinidad. L.II, c.10 apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.C.G., L.I, c.VIII, tradução nossa):

Comece por acreditar nestas coisas, medite-as e persevere; sem dúvida, jamais chegarás a elas, eu o sei, mas felicito-te por te teres aproximado. Pois, quem busca com fervor o infinito, mesmo se por acaso não chegar ao fim, avança sempre. Todavia, não te intrometas no mistério, nem mergulhes no arcano da verdade sem limites, presumindo compreender a suma da inteligência. Procure entender que há coisas incompreensíveis.

Assim, concluímos que após a vinda de Nosso senhor Jesus Cristo a esta Terra, a humanidade foi lavada por Seu sangue, e o que antes era impossível para a natureza humana, tornou-se possível pela graça. Magnífico exemplo disto se verifica na história da filosofia, pois o que ao homem antigo exigia uma vida inteira de esforço – muitas vezes em vão – aos que se voltam para Ele com veneração é concedido por um dom de Deus. Portanto, é necessário que a filosofia tome a fé como seu guia para alcançar a verdade.

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Por Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira
Fonte: Gaudium Press

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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