Fé e Razão – EB (Parte 2)

Assim, a Filosofia Cristã
contém dois aspectos: um subjetivo, que consiste na purificação da razão por
parte da fé.  Esta, enquanto virtude teologal,
liberta a razão da presunção – uma típica tentação a que os filósofos
facilmente estão sujeitos.  Já S. Paulo e
os Padres da Igreja, e mais recentemente filósofos, como Pascal e Klerkegaard,
a estigmatizaram.  Com a humildade, o filósofo
adquire também a coragem para enfrentar algumas questões que dificilmente
poderia resolver sem ter em consideração os dados recebidos da Revelação.  Basta pensar, por exemplo, nos problemas do
mal e do sofrimento, na identidade pessoal de Deus e na questão acerca do
sentido da vida, ou, mais diretamente, na pergunta metafísica radical:  “Por que existe o ser?”

Temos, depois, o aspecto
objetivo, que diz respeito aos conteúdos: a Revelação propõe claramente algumas
verdades que, embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente
nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria.  Colocam-se, neste horizonte, questões como o
conceito de um Deus pessoal, livre e criador, que tanta importância teve para o
progresso do pensamento filosófico e, de modo particular, para a filosofia do
ser.  Pertence ao mesmo âmbito a
realidade do pecado, tal como é vista pela luz da fé, e que ajuda a filosofia a
enquadrar adequadamente o problema do mal. 
Também a concepção da pessoa como ser espiritual é uma originalidade
peculiar da fé: o anúncio cristão da dignidade, igualdade e liberdade dos
homens influi seguramente sobre a reflexão filosófica, realizada pelos filósofos
modernos.  Nos tempos mais recentes,
pode-se mencionar a descoberta da importância que tem, também para a filosofia,
o acontecimento histórico, centro da revelação cristã.  Não foi por acaso que aquele se tornou cerne
de uma filosofia da história, que se apresenta como um novo capítulo da busca
humana da Verdade.

Entre os elementos objetivos
da filosofia cristã, inclui-se também a necessidade de explorar a racionalidade
de algumas verdades expressas pela Sagrada Escritura, tais como a possibilidade
de uma vocação sobrenatural do homem, e também o próprio pecado original.  São tarefas que induzem a razão a reconhecer
que existe a verdade e o racional, muito para além dos limites estreitos onde
ela seria tentada a encerrar-se.  Estas
temáticas ampliam, de fato, o âmbito do racional.

Ao refletirem sobre estes
conteúdos, os filósofos não se tornaram teólogos, já que não procuraram
compreender e ilustrar as verdades da fé a partir da Revelação; continuaram a
trabalhar no seu próprio terreno e com a sua metodologia puramente racional,
mas alargando a sua investigação a novos âmbitos da verdade.  Pode-se dizer que, sem este influxo
estimulante da palavra de Deus, boa parte da filosofia moderna e contemporânea
não existiria.  O dado mantém toda a sua
relevância, mesmo diante da constatação decepcionante de não poucos pensadores
destes últimos séculos que abandonaram a ortodoxia cristã”.

Disto isto, o Santo Padre
passa a enunciar algumas exigências que a Palavra de Deus coloca hoje ao
pensamento filosófico.

Exigências e Tarefas
atuais  (nº 80-100)

Entre estas exigências, está
a de que a Filosofia tenha um alcance autenticamente metafísico, isto é, capaz
de transcender os dados empíricos para chegar a algo de absoluto, definitivo e
básico.  É preciso realizar a passagem do
fenômeno ao fundamento.  Não é possível
ficar apenas na experiência ou na descrição do fenômeno, como faz o pensamento
positivista de Augusto Comte.  Um sistema
filosófico que rejeitasse qualquer abertura metafísica, seria inadequado para
servir à compreensão das verdades da fé. 
Pois a Palavra de Deus alude continuamente a realidades que ultrapassam
a experiência.  Por isto a Metafísica vem
a ser uma intermediária privilegiada na pesquisa teológica:

“84.  A importância da instância metafísica
torna-se ainda mais evidente, quando se considera o progresso atual das ciências
hermenêuticas e das diferentes análises da linguagem.   Os resultados alcançados por estes estudos
podem ser muito úteis para a compreensão da fé, enquanto manifestam a estrutura
do nosso pensar e falar, e o sentido presente na linguagem.  Existem, porém, especialistas destas ciências
que tendem, nas suas pesquisas, a deter-se no modo como se compreende e exprime
a realidade, prescindindo de verificar a possibilidade de a razão descobrir a
essência da mesma.  Como não individuar
neste comportamento uma confirmação da crise de confiança, que a nossa época
está a atravessar, acerca das capacidades da razão?  Além disso, quando estas teses, baseando-se
em convicções apriorísticas, tendem a ofuscar os conteúdos da fé ou a negar a
sua validade universal, então não só humilham a razão, mas colocam-se por si
mesmas fora de jogo.  De fato, a fé
pressupõe claramente que a linguagem humana seja capaz de exprimir de modo
universal – embora em ternos analógicos, mas nem por isso menos significativos –
a realidade divina e transcendente.  Se
assim não fosse, a palavra de Deus, que é sempre palavra divina em linguagem
humana, não seria capaz de exprimir coisa alguma sobre Deus.  A interpretação desta Palavra não pode
remeter-nos apenas de uma interpretação para outra, sem nos fazer chegar a uma
afirmação absolutamente verdadeira; caso contrário, não haveria revelação de
Deus, mas ó a expressão de noções humanas sobre Ele e sobre aquilo que
presumivelmente Ele pensa de nós”.

A necessidade de se cultivar
a Metafísica faz-se imperiosa também pelo fato de que algumas correntes do
pensamento moderno tendem a se infiltrar na Teologia, esvaziando o seu autêntico
conteúdo.  Tais são:

– ecleticismo, que justapõe
noções e teses isoladas de escolas diferentes, sem se preocupar com a sua coerência
e conexão sistemática.  Assim a pessoa
fica impossibilitada de discernir entre o que haja de verdadeiro e o que haja
de falso ou inadequado num sistema.  Cf.
nº 86;

– historicismo, que
relativiza a verdade, pois só considera a mutabilidade dos fatos e das idéias
através dos tempos. Cf. nº 87;

– modernismo, que guarda o
vocabulário clássico, mas, pretendendo torná-lo mais compreensível ao homem
moderno, muda ou esvazia o seu significado originário.  Cf. nº 87.

– cientificismo, que só
valoriza as teses das ciências positivas, e menospreza o conhecimento religioso
e o saber ético; estes seriam do domínio da imaginação ou do irracional.  A conseqüência desta posição é que tudo
quanto se pode realizar no plano da tecnologia é admissível no plano da
Moral.  Cf. nº 88;

– pragmatismo, que tudo
julga em função da sua utilidade ou de suas aplicações práticas, excluindo o
recurso a reflexões abstratas e avaliações éticas.  Estas concepções têm tido muita voga na política:
há certas formas de democracia que julgam a viabilidade ética de determinado
comportamento com base apenas no voto da maioria parlamentar; a vida humana é
valorizada tão somente pela sua capacidade de produzir e servir; donde se
seguem a legalização do aborto e da eutanásia. 
Cf. nº 89;

– niilismo, que é a negação
de qualquer verdade objetiva e a destruição da dignidade humana; a pessoa é
assim levada ao desespero da solidão. 
Cf. nº 90.

Aqui se coloca uma referência
à expressão “pós-modernidade” com que alguns pensadores designam a nossa época.  Tal locução é ambígua, podendo significar
tanto algo de positivo como algo de negativo. 
Todavia, para alguns filósofos, tal vocábulo quer dizer que “o tempo das
certezas está irremediavelmente ultrapassado, de modo que o homem deveria viver
numa horizonte de total ausência de sentido, sob o signo do provisório e do efêmero;
estariam extintas até mesmo as certezas da fé. 
Cf. nº 91.

É de notar, aliás, que “o
fato de se reconhecer uma verdade universalmente válida não é, de forma alguma,
fonte de intolerância:  pelo contrário, é
condição necessária para um diálogo sincero e autêntico entre as pessoas” (nº
92).  Só mediante esta condição se pode
travar um diálogo inter-religioso produtivo e fecundo.

Conclusão  (nº 
100-108)

Na Conclusão de seu alentado
e precioso trabalho, João Paulo II adverte que, “Insistindo sobre a importância
a as autênticas dimensões do pensamento filosófico, a Igreja promove a defesa
da dignidade humana e, simultaneamente, o anúncio da mensagem evangélica.  Ora, para estas tarefas, não existe, hoje,
preparação mais urgente do que esta: levar os homens à descoberta da sua
capacidade de conhecer a verdade e do seu anseio pelo sentido último e
definitivo da existência. À luz destas exigências profundas, inscritas por Deus
na natureza humana, aparece mais claro também o significado humano e
humanizante da palavra de Deus.  Graças à
mediação de um filosofia que se tornou também verdadeira sabedoria, o homem
contemporâneo chegará a reconhecer que será tanto mais homem quanto mais se
abrir a Cristo, acreditando no Evangelho” 
(nº 102).

Em consequência o Papa nota
que a Filosofia é o único terreno comum em que se podem encontrar cristãos e
ateus.  Daí a necessidade de que os filósofos
cristãos se empenhem por criar uma reflexão sensata e compreensível mesmo para
quem não tenha a graça da fé.  Este
terreno comum de diálogo é especialmente fecundo em nossos dias, quando muitos
problemas urgentes da humanidade – o da ecologia, o da paz, o da convivência
das raças… – pedem a colaboração de crentes e não crentes, que se devem unir
para renovar a face da história do gênero humano.

O Papa termina com um apelo
aos teólogos, aos formadores de seminaristas, aos filósofos e professores de
Filosofia, em suma, a todos, para quem “se debrucem profundamente sobre o
homem, que Cristo salvou no mistério do seu amor, e sobre a sua busca constante
de verdade e de sentido. Iludindo-o, vários sistemas filosóficos convenceram-no
de que ele é senhor absoluto de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre
o seu destino e o seu futuro, confiando apenas em si próprio e nas suas
forças.  Ora esta nunca poderá ser a
grandeza do homem.  Para a sua realização,
será determinante apenas a opção de viver na verdade, construindo a própria
casa à sombra da Sabedoria e nela habitando. 
Só neste horizonte da verdade poderá compreender, com toda a clareza, a
sua liberdade e a sua vocação ao amor e ao conhecimento de Deus como suprema
realização de si mesmo”  (nº 107).

Ao encerrar a Encíclica, o
Santo Padre aponta a Virgem Ssma. como Sede da Sabedoria e modelo de vida
sapiencial.

“Que a Sede da Sabedoria
seja o porto seguro para quantos consagram a sua vida à procura da
Sabedoria.  O caminho para a Sabedoria,
fim último e autêntico de todo verdadeiro saber, possa ver-se livre de qualquer
obstáculo por intercessão daquela que, depois de gerar a Verdade e tê-La
conservado no seu coração, a comunicou para sempre à humanidade inteira”  (nº 108).

Terminada esta breve
resenha, não se pode deixar de observar que o documento em foco interpela não
somente os Bispos (a quem se dirige explicitamente em seu exórdio), mas também
todos os filhos da Igreja e, mais, todo ser humano que se entregue a uma reflexão
sobre o sentido da vida e do próprio homem.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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