Entre o direito de opinião e o preconceito na sociedade do politicamente correto

Há tempos homens e mulheres encontram limitações na vida em sociedade quando precisam lidar com o diferente. Na verdade esse conflito remonta aos primórdios da humanidade. Esse “diferente”, um outro “eu”, em muitas ocasiões é visto como um intruso, um ameaçador, é aquele que incomoda e deve ser posto de lado. Mas diferente também pode ser o modo de pensar, agir e falar daquele que é “semelhante”. Em primeira instância, tudo o que foge do padrão de ser ou fazer de um observador é tido por reprovável ou pelo menos estranho, questionável. Um segundo olhar, porém, pode revelar surpresas e encantamentos. A essa capacidade de ter acesso ao mundo daquele que é distinto de mim, de compreendê-lo sem recriminá-lo chamamos de alteridade, ou seja, a capacidade de se pôr no lugar do outro. Esse conceito antropológico é, de certa forma, uma receita de tolerância para uma convivência pacífica, respeitosa e harmoniosa entre as pessoas.

Toda a história das civilizações é marcada por dor e sofrimento, por violências e discriminações e a maioria delas, com certeza, sem nenhuma fundamentação racional. Trata-se, sim, de antipatia, nojo, desprezo, desconhecimento. Principalmente isto, visto que o desconhecido causa suspeita e, em certo sentido, medo e, dentro desse equilíbrio frágil, surge o preconceito. Embora, também nesse contexto, o preconceito possa ser explicado como um instinto natural de sobrevivência é preciso avaliar até que ponto isso é justificável e aceitável.

Preconceito, antes de tudo, é um agir que se antecipa ao conhecimento. Nós ainda nem tocamos, nem sentimos, nem experimentamos e já temos a certeza de que é ruim. Existe bom censo nisso? É certo que não.

Em seu artigo 1º a Constituição Federal faz referência à dignidade da pessoa humana, que encontra seu sentido no item IV do artigo 3º: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. É lamentável que existam leis para que um indivíduo mantenha certos limites em não infringir a dignidade de outro. Isso demonstra, entre tantas outras coisas, a incapacidade de se educar para a tolerância. Mesmo em pleno século XXI ainda lidamos com as mazelas da discriminação. Provavelmente porque muitos ainda desconhecem, ignoram ou desprezam as tragédias da História – guerras, genocídios, holocaustos, torturas e tantas outras formas de barbárie contra a vida humana. Movimentos neonazistas, racismo, machismo, intolerância religiosa, bullying, autoritarismos, conflitos entre tribos urbanas, homofobia, etnocentrismo, uns mais brandos, outros declaradamente propagadores de uma cultura de morte que discursam sua estupidez e “superioridade” dentro de um contexto social que não admite mais esses modos particulares de vida. Ou o bem é comum, ou não é bem.

O direito de opinião encontra livre acesso no convívio social. Seria reprovável dizer “Como o corpo é meu, eu faço dele o que eu quero” em reposta a uma pergunta do tipo “Sexo antes do casamento é promiscuidade?”. Perceba que nessa pergunta provocativa vai se abrir um leque para opiniões de todos os tipos. Não importa, no contexto do “debate”, os conteúdos das argumentações, desde que a conversa não caminhe para um “embate”, pois aqui a intolerância e o preconceito podem se manifestar. E esse é o grande problema daqueles que lançam questionamentos polêmicos com a finalidade de “colocar em maus lençóis” alguém cuja opinião já é conhecida sobre determinado assunto. Lançam a provocação com a intenção de acusar. Ora, o fato de uma pessoa pensar diferente de mim não me dá o direito de rotulá-la de preconceituosa e vice-versa. Já dizia Voltaire: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

Não podemos cair, porém na inocência de que preconceitos não existem. Convivemos com eles todos os dias. Infelizmente, e essa é uma opinião particular, vivemos na sociedade do politicamente correto. Precisamos tomar muito cuidado com o que dizemos, como se nos tornássemos vigilantes de nossos pensamentos, palavras e sentimentos. Torna-se até mesmo uma neurose obsessiva o fato de não podermos nos expressar com medo de sermos mal interpretados e precisarmos nos “retratar”. Particularmente discordo fortemente desse tipo de atitude. Acredito que seria muito interessante se pudéssemos falar de forma franca e aberta sobre todos os assuntos, com qualquer pessoa em qualquer ocasião, mesmo correndo o risco de sermos vistos como preconceituosos. Entenda bem o que digo, não falo que devemos manifestar e apoiar preconceitos, digo que é pertinente dizer o que realmente pensamos e acreditamos. Parece contraditório, mas não é. Se não agirmos assim parecerá que estaremos sempre em cima do muro, que não temos opinião formada sobre nada e o que é pior, que não podemos tê-la, que não queremos nos expor somente para agradar a gregos e troianos.

A sociedade do politicamente correto deseduca e não presta serviço nenhum à coletividade. Ela pretende formar cidadãos alienados e descomprometidos, pessoas que não se atrevem a refletir e a questionar. Prepara indivíduos à maneira de uma panela de pressão que suporta o conteúdo até o ponto de explodirem e quando isso acontece sabemos bem as consequências.

A alteridade, lembrando, a capacidade de colocar-se no lugar do outro, somente é plenamente desenvolvida quando o indivíduo adquire uma outra qualidade, a capacidade de compadecer-se, ou seja, tomar as dores do outro para si, sentir o que ele sentiu. Um dos grandes problemas de todo um contexto educacional, não só no ambiente escolar, mas sobretudo no dia a dia da vida, é que não damos às pessoas a oportunidade de refletirem sobre suas atitudes, assim elas crescem acreditando que podem fazer o que bem entendem e dizer tudo o que pensam da forma como lhes convêm.

O que afirmo é o seguinte, precisamos dar ao outro a chance do erro, melhor dizendo, é preciso oferecer a oportunidade para que cada pessoa faça uma revisão de seus atos, de sua forma de agir, para que ela própria se convença sobre o bem ou mal que possa ter causado. Esse é um exercício constante e um processo contínuo.

Sei que aqui, muitos leitores já entraram em desespero, dizendo ser um absurdo essa minha forma de pensar, mas continuarei meu raciocínio visto que quero expressar meu direito de opinião.

O desenrolar dos sentimentos dá, tanto para quem ofende, como para aquele que se sente agredido, a chance de refletirem sobre os fatos. Nesse caso um pedido de desculpas e atitudes de reconciliação por ambas as partes seriam de extraordinário aprendizado. A sociedade do politicamente correto gera indivíduos que se privam de expressar o que sentem e quando o sentimento vem à tona o preconceito aflora. Como justifiquei anteriormente, devido a uma incapacidade de se educar para a tolerância e o respeito. Somente quem sofreu a angústia da ofensa sabe o quanto ela é prejudicial e, portanto, jamais deve ser repetida. Essa é a forma mais eficaz de aprendizado. Aqui sim, se houver uma “retratação” ela será consciente, ou seja, o sujeito pensou, pôs-se no lugar do outro, e foi capaz de perceber que seu modo de agir não foi bom. Caso a pessoa não se retrate, duas coisas podem existir: a primeira, ela quis realmente dizer o que disse ou fazer o que fez, está convicta de que não agiu de forma errada, já que examinou sua consciência e concluiu que faria tudo de novo exatamente como dá primeira vez. Existe preconceito nisso? Depende. Não cabe a nós nos colocarmos como juízes da situação. É evidente que nessa condição a pessoa pode responder pelos seus atos e se está disposta “a pagar o preço”, agiu dentro de sua liberdade e consciência. A segunda, mais branda, é porque ainda não adquiriu maturidade o suficiente para reconhecer suas limitações e voltar atrás. Isso pode revelar um orgulho soberbo ou simplesmente medo, timidez, ou vergonha do que os outros poderão pensar. Talvez a pessoa acredite que pedir perdão seja fraqueza, o que é uma trágica ilusão. Pedir perdão é uma grande virtude. Traduz uma alta capacidade de resignação. Aliás, pedir perdão e perdoar são atitudes dos fortes, não são para os fracos ou amadores.

Uma outra forma de aprendizado, se é que se pode dizer assim, infelizmente, é coercitiva, punitiva, por isso mesmo não educa. A pessoa simplesmente cumpre a norma por medo de suas consequências, torna-se um legalista, um seguidor de preceitos e regras, mas não compreendeu de fato por que não pode agir de forma contrária. É evidente que para comportamentos recorrentes de discriminação a lei precisa ser aplicada com todo o rigor. Veja, não é que leis devam punir, na verdade elas nunca deveriam ter sido criadas, e refletindo filosoficamente, elas só existem para corrigir excessos, desvios que quebram o equilíbrio de um bem-comum, de uma paz social que deveria se instalar naturalmente, mas como bem sabemos, não ocorre. Leis existem, porque existem excessos.

Já que errar é algo esperado dentro da natureza humana, nada mais justo e necessário que dar às pessoas a oportunidade de refletirem sobre seus atos para que assim percebam que o mal é mau. Essa percepção, porém, precisa passar pelo crivo da dignidade humana. Dentro desse cenário onde atuam a alteridade, a compaixão e a reflexão, o preconceito perde força e o ser-humano encontra largo espaço para se desenvolver como pessoa, sendo mediador de conflitos, exercendo com consciência e convicção sua cidadania agindo e dizendo coisas numa direção que ao certo saberemos que não são ofensivas. Para tanto, a humanidade ainda precisa trilhar um longo caminho.

É certo, há uma linha muito tênue entre o direito de opinião e o preconceito, mas um abismo entre a legalidade e a alteridade. A cada dia vamos aprendendo um pouco das duas coisas. E você, leitor(a), o que pensa de tudo isso?

Marcílio Dias de Oliveira Júnior
Aluno de Sociologia da Unip – Universidade Paulista – Polo Lorena SP

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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