E o Nudismo? – EB

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 456, Ano
2000, Pág. 232

Em síntese:
Os debates contemporâneos versam outrossim sobre a criação de áreas em que o
nudismo (ou naturalismo) seja legítimo. A propósito deve-se dizer que pode
haver indicações de higiene em favor do nudismo, como atesta a história de
alguns povos. Todavia o nudismo debatido no Brasil tem caráter mais liberal.
Tal como vem preconizado, é provocador de instintos e paixões, que mais podem
ferir a dignidade humana do que a enobrecer.

Nos tempos
atuais vai crescendo a campanha em favor do nudis­mo ou despojamento do corpo
humano em público, seja de maneira es­porádica, seja de maneira habitual. As
razões evocadas em favor dessa prática se tornam, por Vezes, sedutoras: apelam
para a liberação do ho­mem moderno em relação aos tabus antigos, para razões
higiênicas, psicológicas, pedagógicas, etc.

Em
conseqüência, procuraremos abaixo reproduzir algo da problemática lançada por
correntes nudistas; ao que se acrescentarão algumas reflexões de bom senso e de
consciência cristã.

1. Nudismo
e progresso

Os fautores
do nudismo em nossos dias apelam tanto para motivos filosófico-científicos como
para a história antiga.

Vejamos,
pois, sucessivamente uns e outros argumentos.

1.1.
Naturalismo e nudismo

O nudismo
pode ser considerado como expressão de uma tendên­cia mais ampla dita
“naturalismo”.

1. O
naturalismo é uma atividade do espírito humano que aspira a seguir em tudo a
natureza ou a realidade visível ainda não manipulada pelo homem. Exclui
positivamente, ou ao menos pretende ignorar, os valores de ordem transcendente.

O
naturalismo gerou um certo tipo de comportamento social que apela para a
medicina e a higiene e pretende reagir contra o artificialismo da sociedade
urbanística a mecanizada. Apregoa um teor de vida cada vez mais simples; a
natureza seria a grande “médica” (tese de Hipócrates); daí a necessidade de
viver cada vez mais segundo seus ditames. A conseqüência é que se hão de evitar
alimentos demasiado delicados ou artificiais rebuscados, em favor de um regime
sóbrio à base de produtos naturais ou mesmo simplesmente vegetais;
preferir-se-ão vestes poucas e leves, que não deformem o físico da pessoa. O
naturismo preconiza, de maneira geral, a profilaxia contra as doenças (ou seja,
dietas, exercícios físicos, horários sistemáticos…) a fim de evitar o recurso
a farmácia e remédios para estados morbosos. Os nomes mais representativos
dessa corrente são Sebastião Kneipp, Birker Brenner, Paul Carton. Em 1931
fundou-se em Milão a União Naturística italiana (U.N.I.), com a sua revista
“L’idea naturista”.

O naturismo
assim compreendido, dizem, está longe de favorecer no homem a vida animal
meramente instintiva. Tem, antes, em vista promover o desenvolvimento
harmonioso da pessoa humana em seus diversos planos (corpóreo, afetivo, espiritual).

É, porém,
sob a hégide do naturismo que tende a se colocar o nudismo, tentando realçar
afinidade com aquele, embora na verdade conduza a resultados totalmente opostos
ao naturismo.

2. O nudismo
é um sistema de doutrinas e práticas que tem por fim difundir a nudez como se
esta fosse meio oportuno para atender a necessidades físicas e morais do gênero
humano.

Vários são
os princípios filosóficos ou científicos para os quais apela o naturismo:

– a filosofia
de Jean-Jacques Rousseau (+ 1778), segundo a qual a natureza humana por si é
moralmente boa e reta. A educação e as convenções estabelecidas pelos homens a
deformariam. Por conseguinte, segundo 
tais premissas,  é necessário
despojar-se de todo costume ou de toda regra de vida imposta pelos homens;
entre esses costumes convencionais, estaria (segundo a interpretação dos
discípulos de Rousseau) o de trajar-se;

– certas correntes
psicológicas, segundo as quais a libertação dos instintos sexuais é fator de
equilíbrio ou reencontro do equilíbrio da personalidade. A veste, sendo
indiretamente um coibitivo ou sedativo desses instintos, deveria
conseqüentemente ser abolida;

– reação contra
certo pessimismo no tocante ao corpo e ao sexo. Esse pessimismo, em épocas
passadas, pode realmente ter suscitado atitudes artificiais e deformantes do
vestuário; dificultou a aceitação da sexu­alidade própria do homem e da mulher.
Em conseqüência, há quem preten­da combater os tabus do sexo, recorrendo mesmo
ao acinte e à afronta;

– a onda de
erotismo moderno vem suscitando um clima de sugestionamento psicológico tal que
muitas pessoas dificilmente compreendem o pudor e a modéstia de porte e o
conseqüente uso da veste. Esta pode aparecer como parede ou barreira entre os
homens.

Eis as
principais premissas doutrinárias sobre as quais se baseia o nudismo
contemporâneo.

Este pode
apelar também para precedentes históricos, dos quais abaixo enunciaremos
alguns.

1.2.  Fale a história

Os
historiadores apontam fenômenos de nudismo no decorrer dos séculos. Tenham-se
em vista os seguintes:

Certos
povos primitivos, tribos de índios das zonas tropicais geralmente na sua fase
de declínio físico, psíquico e numérico, cediam ao nudismo.

Na história
das religiões, verifica-se que alguns cultos religiosos incentivavam a “nudez
sacra” no Egito, na Grécia, no próximo Oriente, na Índia, no México, e no Peru
antigos; tal nudez era justificada por “estórias” mitológicas ou pelo culto dos
deuses da fecundidade; em honra de espíritos superiores praticavam-se danças
sagradas com despojamento de vestes.

Em certas
populações primitivas, as mulheres costumavam pros­trar-se desnudas por terra a
fim de ser favorecidas em sua fecundidade por forças ctônicas, ou seja, per
forças mágicas semidivinas, emanadas do solo.

Entre
monges hinduístas e budistas, a nudez tem sido cultivada a título de ascese,
mortificação e pobreza; é tida com expressão de desprendimento e
insensibilidade. No monaquismo  cristão
dos séculos IV/V, houve também monges (em número exíguo) que abraçaram a nudez
parcial ou mesmo total no intuito de se despojarem e tornarem pobres,  tentando assim reproduzir o que chamariam “o
estado paradisíaco inicial”. Todavia esses ascetas cristãos não fizeram escola;
ao contrário, foram considerados como exóticos; são heróis de amor a Deus, cuja
consciência me­rece ser respeitada, sem que por isto seu comportamento deva ser
imitado.

Entre os
árabes antigos, a nudez religiosa era justificada pelo desejo de preservar a
pessoa da sujeira física e moral que adere a toda veste.

Em suma,
vários foram os motivos de índole ou supersticiosa ou contestável que
inspiraram a nudez através dos séculos.

Nos tempos
atuais, já não são as razões religiosas, mas, sim, indicações de saúde, procura
do gozo e de determinado tipo de arte (note-se o striptease na dança) que
inspiram práticas de nudismo, as quais tendem a se impor em onda crescente.

A partir de
1920, o nudismo conheceu notável difusão, primeiramente na Alemanha; depois, na
França e nos países anglo-saxônicos, onde se constituíram grupos destinados a
propagá-lo e praticá-lo, como o “Pelagianer-Bund”  o “Lichtfreunde” de Berlim, e o dos Irmãos
Durville na França.

Vejamos
agora o que pensar a propósito.

2.  A voz da consciência

 Procederemos por partes.

2.1.  Fora de consideração

Não vem ao
caso, neste estudo, a nudez exigida por abalizadas razões higiênicas ou
médicas. Nada há que opor ao desnudamento do corpo por ocasião do banho (mesmo
do banho de sol, se necessário), contanto que se evite promiscuidade de
pessoas, sexos e idades; em tais ocasiões, a preservação ou o fomento da saúde,
não a ostentação ou o acinte são os critérios a ser adotados. Todavia mesmo nos
casos de tratamento higiênico o pudor e a discrição merecem ser observados de
modo a se guardarem os limites da decência e da dignidade.

Uma pessoa
normal ou psiquicamente sadia deve adquirir no trato do seu corpo uma liberdade
ou superioridade equilibrada. Não há razão para se perturbar, desde que seja
movida por ditames moralmente válidos e por sobriedade.

2.2.  Em foco

O que vem a
consideração nestas páginas, é a nudez tida como expressão de progresso mental
e moral ou como reação contra o espírito exageradamente tímido dos antigos.

A essa tese
do nudismo liberal ou libertino podem-se fazer algu­mas observações:

1) O corpo
humano é criatura de Deus; traz em si os vestígios da sabedoria do Criador
(tenham-se em vista as estruturas do olho, do ouvido, do pulmão…); a rigor,
não se pode dizer que a natureza corpórea do homem tenha “partes desonestas”.
Compreende-se que hoje em dia mesmo os cristãos mais dignos e respeitáveis não
aceitem o dualismo pessimista que inspirou certos comportamentos de outrora no
setor da sexualidade; é com mais tranqüilidade e naturalidade que se encara tal
assunto; chega-se mesmo a favorecer (com razão) a educação sexual dos jovens dentro
dos limites e do ritmo oportunos.

Acontece,
porém, que, dentro do ser humano (que é afetivo e racional, ao mesmo tempo), a
afetividade nem sempre obedece à razão; as tendências instintivas não se
submetem docilmente aos ditames da inteligência. Daí a necessidade de se evitar
a excitação sensual a instintiva que resulta do desnudamento do corpo; a nudez
pode provocar atos desatinados, que a pessoa há de lamentar, porque a aviltam
ou bestializam.

2) Mais
ainda: a Escritura Sagrada tem sobre o assunto importante lição. Ela ensina que
Deus constituiu os primeiros pais em estado de amizade e filiação divina (tal é
a chamada “justiça original”). Nota que então estavam nus, mas não sentiam
rubor por isto (cf. Gn 2, 25); possuindo a amizade e a graça de Deus,
desfrutavam de harmonia em si mesmos ou em seus instintos. Os primeiros homens,
porém, pecaram, não se mantendo na fidelidade a Deus. Uma das conseqüências
deste ato de rebelião é assim descrita pelo texto sagrado: “Abriram-se os olhos
aos dois e, reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às
outras e colocaram-nas como se fossem cinturões à volta de seus rins” (Gn 3, 7).

Não vem ao
caso examinar aqui os pormenores desta cena bíblica (em que terá consistido o
pecado? onde se deu? quando…?). Apenas convém frisar que não há fundamento
bíblico para se dizer que foi pecado sexual. Mas o que importa, é depreender
este aspecto da mensagem: o homem sente rubor de sua nudez em conseqüência do
pecado, ao passo que antes deste não o sentia.

Por quê?

– O pecado
despojou o homem de algo, ou seja, da amizade e da graça de Deus, que o
tornavam harmonioso. Para encobrir esse despojamento e evitar as manifestações
de sua desarmonia, o homem passou a usar veste. Assim a S. Escritura intenciona
propor o significado da veste ou da roupa do homem; esta se tornou necessária
para evitar que a pobreza ou a fraqueza interior do homem se exteriorizem em
atos desarmoniosos.

As páginas
bíblicas do Antigo Testamento mencionam mais de uma vez a nudez como sinal da
degradação que possa afetar alguém em conseqüência do pecado.

Assim Noé,
embriagado e desnudo, passa vexames (cf. Gn 9, 21).

Diz o profeta
à filha (ou ao povo) de Edom: “A ti também chegará o cálice e, embriagada,
descobrirás a tua nudez!” (Lamentações 5, 21).

Cf. Jr 13,
26;  Is 3, 17; 20, 4; Hab 2, 15; Lm 4,
21…

O primeiro
homem mesmo, conforme Gn 3, 10, responde ao Senhor: “Tive medo porque estou
nu”. O pecado fez que o homem perdesse a consciência de que pertence a Deus; a
nudez o surpreende como um espelho que já não reflete a imagem do Criador.
Deus, porém, não afasta os primeiros homens pecadores sem os ter revestido de
túnicas de pele (Gn 3, 21). Evidentemente trata-se aqui de metáfora. A veste
dada por Deus não extingue o despojamento e a desarmonia que o homem após o
pecado experimenta e experimentará; mas essa veste simbólica significa que o
homem continua a ser chamado à dignidade de filho de Deus (revestido da graça
santificante), dignidade que o primeiro 
pecado ameaçou. Na visão bíblica, portanto, a veste veio a ser o sinal
de que, de um lado, o homem está interiormente desnudado (destituído de
harmonia, pois é portador de concupiscência desordenada), mas, de outro lado,
ele conserva a possibilidade de voltar à glória perdida.

3) Pelos
motivos atrás indicados compreende-se que numa autêntica visão cristã não se
pode justificar o nudismo.

Este supõe
a tese filosófica de J. J. Rousseau segundo a qual a natureza humana é por si
propensa ao bem moral e isenta de tendências desregradas. Ora, tal proposição
não se concilia nem com a experiência nem com a concepção cristã do homem. A
veste tem um significado e uma função sugeridos ou mesmo exigidos pelas
presentes condições do ser humano. Ela exprime a realidade íntima da pessoa:
esta é, como foi dito, alguém que padece desordem inferior, mas tende a se
reestruturar segundo os ditames  da sã
inteligência e da fé.

A recusa
sistemática de veste redunda em excitação da concupiscência desordenada. Tende
a favorecer a vida instintiva do homem, não levando em consideração o fato de
que nem tudo que a sensualidade pede é apto a construir uma autêntica
personalidade. Esta, como dissemos, se rege, antes do mais, pela razão e pela
fé; concebe um ideal condizente com sua dignidade e, em vista disto, deve saber
evitar tudo que a desvie para uma vida meramente erótica ou hedonística.

4) É
possível que a prática do nudismo concorra para dissipar a curiosidade sexual e
os tabus concernentes à sexualidade. Todavia ficará sempre no homem a tendência
impulsiva e irracional, para a qual a nudez há de ser sempre um aguilhão.
Jamais se conceberá um ser  humano que
não tenha impulsos sexuais e que não se veja exposto a sucumbir-lhes
independentemente dos propósitos de sua razão; o desnudamento, portanto, será
sempre um excitante para o instinto.

5) As
razões pretensamente higiênicas alegadas em favor do nudismo não se impõem à
evidência: não há dúvida de que o sadio metabolismo do organismo rejeita
roupagem desnecessariamente pesada e modas ou artifícios deformantes; exige
também contato com o sol. Todavia a prática de helioterapia, fora exceções, não
requer total desnudamento. – Em qualquer hipótese, a saúde física e mental da
pessoa humana só pode ser beneficiada pela observância do pudor. Por mais
evoluído ou civilizado que se torne o homem, ele jamais poderá dispensar
autodomínio, temperança, força de vontade…; ora, estas qualidades têm o
nudismo um antídoto e um contra-testemunho, como encontram num vestuário sóbrio
e digno o seu fomento e a sua expressão autêntica.

6)
Observam, de resto, os estudiosos que a extinção, ao menos parcial, do
interesse e da curiosidade sexuais (caso ela fosse obtida pelo nudismo) poderia
acarretar frieza e diminuição das disposições necessárias para a realização
conjugal; em conseqüência, as pessoas interessadas poderiam ser induzidas a
procurar novos e requintados estímulos para a vida sexual, chegando mesmo a
práticas aberrantes neste setor.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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