É lícito o uso das imagens sagradas? – EB Parte 1

Revista : “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº:  270 – 
Ano : 1983 –  Pág.  412

 

Em síntese :  A proibição de confeccionar imagens contida
no Antigo Testamento era devida a circunstâncias contingentes da história do
povo de Deus; cercado de nações idólatras, Israel tendia ao culto pagão das
imagens e a concepções de índole mágica que as imagens poderiam fomentar. De
resto, já mesmo no Antigo Testamento o próprio Deus prescreveu a confecção de imagens
como querubins, serpente de bronze, leões do palácio de Salomão, etc.

O mistério da Encarnação do
Filho de Deus mostrou aos homens uma face visível de Deus, que, além do mais,
se quis servir de numerosos elementos sensíveis (imagens, palavras, cenas históricas
…) para comunicar a Boa-Nova.  Os
cristãos foram então compreendendo que, segundo a pedagogia divina, deveriam
passar da contemplação do visível ao invisível. 
As imagens, principalmente os que reproduziam personagens e cenas da
história sagrada, tornaram-se a Bíblia dos iletrados ou analfabetos.

A controvérsia (conoclasta,
inspirada por correntes judaizantes e heréticas nos séculos VIII e IX, terminou
com a reafirmação do culto das Imagens no Concílio de Nicéia II (787).  Tal culto é dito “de veneração” e é válido na
medida em que as imagens representam os santos; não se confunde com adoração.

Os Reformadores protestantes
rejeitaram as imagens por causa dos abusos do fim da Idade Média; Lutero,
porém, se mostrou assaz liberal e tal propósito. Ultimamente entre os luteranos
e atitude inococlasta tem sido submetida a revisão.

As autoridades eclesiásticas
católicas tem promulgado normas para se evitarem abusos e erros teológicos na
confecção e no culto das imagens.

 Comentário:  Não raro levantam-se objeções contra o uso
católico de confeccionar imagens sagradas, visto que estas parecem proibidos
pela Lei de Deus.  Com efeito, diz o
livro do Êxodo:

“Não farás para ti imagens
esculpidas, nem qualquer imagem do que existe no alto dos céus, ou do que
existe embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, por debaixo da
terra.  Não te prostrarás diante delas e
não lhes prestarás culto” (20,4).

 Os fiéis católicos sentem-se
às vezes em apuros para, diante de tal texto, justificar a praxe católica de venerar
imagens.  Eis por que, a seguir,
abordaremos o assunto: 1) percorrendo mais a fundo a Sagrada Escritura, 2)
estudante um pouco a história do Cristianismo e 3) elucidando o sentido que as
imagens têm para o povo católico.

A doutrina bíblica

Distinguiremos duas etapas,
ou seja, a mensagem do Antigo e a do Novo Testamento.

1.1. No Antigo Testamento

1. O Senhor vedou aos
israelitas a confecção de imagens, estátuas, etc., visto que na antigüidade
pré-cristã facilmente se atribuía a esses artefatos um caráter religioso; eram
considerados pelos pagãos como símbolos em que a Divindade estava presente, ou
como a Divindade mesma.  Dada essa
mentalidade dos povos vizinhos de Israel, o uso de imagens acarretava perigo para
a fé monoteísta dos hebreus, que as poderiam ter na mesma conta em que as
tinham os idólatras (coisa que de fato se dava quando os israelitas
transgrediam o preceito do Êxodo; cf. 2Rs 18,4; Ez 8, 3-18).  Justamente para evitar a confecção de
imagens, o Senhor não tomava forma nem figura quando falava a Israel; apenas
fazia notar a sua presença por meio de raios, trovões, etc.  Desta maneira subtraía ao seu povo qualquer
ponto de apoio para fabricar alguma representação de Deus; o próprio Javé se
dignou revelar o motivo da proibição no texto de Dt 4,15, paralelo a Ex 20,4s:

“Estai atentos; já que não
vistes forma nenhuma no dia em
que Javé no Horebe vos falou em meio ao fogo, não
prevariqueis e não façais imagem esculpida a representar o que quer que seja”.

Os Profetas foram assaz
veementes na rejeição das imagens visto que, de fato, Israel tendia à
idolatria; tenham-se em vista os textos de Is 40,18; 44,9-20; Jr 10,2-5…

As razões remotas que
levavam os antigos a adorar imagens, eram muitas vezes de ordem mágica.  Com efeito, julgavam os povos primitivos que
a imagem participava da essência do indivíduo representado; a imagem era
consubstancial com o indivíduo, ou mesmo a imagem era o próprio indivíduo.  Em conseqüência, quem conseguisse fazer a
imagem de um deus, capturava esse deus ou exercia poder e domínio sobre ele;
encerrava a força da divindade dentro do respectivo artefato; poderia então
idpsor da ação poderosa da divindade.

Este fundo de cena,
incompatível com a noção elevada e pura de Deus na revelação bíblica, explica
adequadamente a proibição do uso de imagens no Antigo Testamento.

Como se vê, a proibição de
imagens no Antigo Testamento não implicava oposição entre o visível e o
Invisível,  entre o material e o
espiritual, nem pretendia incutir um culto espiritualizado dirigido diretamente
ao Invisível.  Muito diverso era o
sentido dessa proibição; ela se prendia ao conceito mesmo de Javé e devia
incutir que o Senhor era diferente dos deuses dos outros povos; estes podiam
ser representados e fixados em determinado lugar, porque eram ficções dos
homens; ao contrário, Javé se manifestava livre e soberanamente onde e quando
queria, infinitamente acima das forças e dos seres sensíveis, pois Ele é o
Criador de todos.

2. Não obstante, em certos casos, tomadas as cautelas contra o
perigo de idolatria, o Senhor não somente permitiu, mas até mandou que se
confeccionassem Imagens sagradas, a fim de elevar a piedade de Israel.

a) Foi, por exemplo, o que
se deu na fabricação da Arca da Aliança: por ordem explícita de Javé, Moisés
colocou dois querubins de ouro sobre o Propiciatório da Arca, tendo as asas
voltadas para o alto e as faces dirigidas para a placa sagrada de metal; era
pelo Propiciatório assim configurado que Javé falava ao seu povo; cf. Ex 25,
17-22.  Em vista disto, a Bíblia costuma
dizer que “Javé está assentado sobre querubins”; cf. 1Sm 4,4; 2Sm 6,2; 2Rs
19,15; Sl 79,2; 98,1.

b) No Templo construído por
Salomão, diz o texto sagrado que foram confeccionados querubins de madeira
preciosa para ficar junto à Arca da Aliança (cf. 1Rs, 6,23-28); e mais: as
paredes do Templo foram todas revestidas de imagens de querubins (cf. 1Rs
6,29s).  Tais obras se fizeram, sem
dúvida, com a ordem ou a aprovação do próprio Deus (cf. 1Cr 22, 8-13), que, já
no deserto, “comunicara a Beseleel o seu espírito – espírito de sabedoria,
inteligência e ciência – para realizar toda espécie de obras, para conceber e
executar projetos de obras em ouro, prata e bronze … assim como para talhar a
madeira” (cf. Ex 31, 1-5).  Vê-se assim
com que apreço Deus considerava as esculturas de seu Templo, já mesmo no regime
do Antigo Testamento.

c) Durante a travessia do
deserto, o povo de Israel foi acometido por serpentes cuja mordedura fez
perecer muita gente.  Foi então que o
Senhor Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze e a colocasse
sobre uma haste; todo aquele que, mordido, a contemplasse, seria salvo.  Cf. Nm 21, 4-9.

d) O mar de bronze ou
reservatório de água lustral colocado à entrada do palácio de Salomão era
sustentado por doze bois de metal, dos quais três olhavam para o Norte, três
para o Oeste, três para o Sul e três para o Leste; cf. 1Rs 7, 23-26.

e) Havia também entre os
ornamentos do palácio régio de Salomão figuras de leões, touros e querubins;
cf. 1Rs 7,28s.

Estes textos dão a ver que a
proibição de confeccionar imagens não era absoluta no Antigo Testamento, mas
condicionada por circunstâncias em que vivia o povo de Israel.  A própria Tradição de Israel foi aos poucos
interpretando com certa flexibilidade a proibição do Decálogo.  Tenham-se em vista, por exemplo, certas
sinagogas da Palestina do século III d.C., onde se encontraram afrescos e
figuras humanas.  Seja citada também a
sinagoga de Dura-Europos (à margem do rio Eufrates), na qual estavam
representados Moisés diante da sarça ardente, o sacrifício de Aarão, a saída do
Egito, a visão de Ezequiel.

1.2. No Novo Testamento

Passaram-se os séculos … O
mesmo Senhor que se mantivera invisível, quis tomar corpo humano e viver na
terra; quis assim dirigir-se aos homens mediante uma figura (a do Cristo
Jesus), que, sem dúvida, devia ser impressionante.  Em sua pregação, Jesus houve por bem ilustrar
as realidades transcendentais (o Reino de Deus, a Misericórdia do Pai, o
dinamismo da graça …) mediante imagens inspiradas pelas realidades visíveis;
tal foi o significado das parábolas e alegorias utilizadas pelo Divino Mestre,
que aludiu aos lírios do campo, à figueira, aos pássaros do céu, ao bom pastor,
à videira e a seus ramos, às crianças que brincam na praça pública, à mulher
que perdeu sua moeda, ao administrador infiel, aos operários chamados à vinha

Ademais a evolução das
culturas fez que o ambiente greco-romano fosse menos dado à magia e mais
penetrado pela filosofia do que o dos povos primitivos.  Isto veio permitir melhor compreensão do
alcance da Encarnação do Senhor e das imagens sagradas.

Um pouco de história

Nos primeiros séculos do
Cristianismo, ainda se lêem testemunhos de escritores cristãos, que apontam
mal-entendidos ou abusos por parte dos fiéis no uso das imagens.  Outros mostram-se hesitantes quanto à
validade do uso das imagens.  Tal é, por
exemplo, o testemunho de Minúcio Félix no século III:

“Que imagem poderia eu
confeccionar para representar Deus, dado que o homem mesmo é a imagem de
Deus?”  (Octavius 32, Patr. Latina, ed.
Migne, 3,339a).

“O próprio homem é a imagem
viva de Deus”, eis o argumento que Clemente de Alexandria (+ antes de 215)
repete, acrescentando ainda um adágio 
freqüente na Igreja antiga: “Viste teu irmão, viste teu Deus”
(Stromateis I 19 e II 15, PG 8,812 e 1009).

Todavia os cristãos foram
percebendo que a proibição de fazer imagens no Antigo Testamento tinha o mesmo
papel de pedagogo (condutor de crianças destinado a cumprir as suas funções e
retirar-se) que a Lei de Moisés em geral tinha junto ao povo de Israel.  Por isto o uso das imagens foi-se
implantando.  As gerações cristãs
compreenderam que, segundo  o método da
pedagogia divina, atualizada na Encarnação, deveriam procurar subir ao
Invisível passando pelo visível que Cristo apresentou aos homens; a meditação
das fases da vida de Jesus e a representação artística das mesmas se tornaram
recursos com que o povo fiel procurou aproximar-se do Filho de Deus.

Considerem-se os antigos
cemitérios cristãos (catacumbas), onde se encontram diversos afrescos
geralmente inspirados pelo texto bíblico: 
Noé salvo das águas do dilúvio, os três jovens cantando na fornalha,
Daniel na cova dos leões, os pães e os peixes restantes da multiplicação
efetuada por Jesus, o Peixe (Ichthys), que simbolizava o Cristo..

Nas Igrejas as imagens
tornaram-se a Bíblia dos iletrados, dos simples e das crianças, exercendo
função pedagógica de grande alcance.  É o
que notam alguns escritores cristãos antigos:

“O desenho mudo sabe falar
sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente”  (S. Gregório de Nissa, Panegírico de S.
Teodoro, PG 94, 1248c).

“O que a Bíblia é para os
que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (São João Damasceno, De
imaginibus I 17 PG, 1248c).

O Papa São Gregório Magno (+
604) escrevia a Sereno, bispo de Marselha:

“Tu não devias quebrar o que
foi colocado nas Igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser
venerado.  Uma coisa é adorar uma imagem,
outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces.  O que a Escritura é para aqueles que sabem
ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho
a seguir.  A imagem é o livro daqueles
que não sabem ler”  (epist. XI 13 PL 77,
1128c).

Nos séculos VIII e IX
verificou-se na Igreja a disputa em torno do uso das imagens ou a luta
iconoclasta.  Por influência do judaísmo,
do islamismo, de seitas e de antigas heresias cristológicas, muitos cristãos do
Oriente puseram-se a negar a legitimidade do culto das imagens.  Os imperadores bizantinos tomaram parte na
querela, por motivos políticos mais do que por razões religiosas.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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