A Solidão – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 370 – Ano 1993 – p. 97

 A solidão espanta muitas
vezes as pessoas; provoca tédio e repúdio. Este fenômeno é significativo, pois
dá a ver que o ser humano não foi feito para encontrar em si mesmo a resposta
às suas aspirações mais profundas; foi feito, sim, para outrem.

O Cardeal Josef Ratzinger
comenta o fato:

“A solidão é, sem dúvida,
uma das raízes básicas das quais surge o encontro do homem com Deus. Onde o
homem experimenta a solidão, verifica, ao mesmo tempo, quanto a sua vida
representa um brado pelo tu e quão pouco o homem é apto a ser um puro eu,
encerrado em si mesmo.

A solidão pode manifestar-se
ao homem em profundezas diferentes. Primeiramente ela satisfaz-se com o
encontro de um tu humano.

Mas desdobra-se um processo
paradoxal, descrito por Claudel: cada tu que o homem encontra, revela-se
finalmente como uma promessa irrealizada e irrealizável, porque todo tu, no
fundo, representa de novo uma desilusão; há um ponto em que encontro nenhum é
capaz de vencer a derradeira solidão. E exatamente o achar e o ter-achado
voltam a ser um retorno à solidão, um grito pelo TU real e absoluto” (Introdução
ao Cristianismo, Herder, São Paulo 1970, p. 68).

Em suma, o autor lembra que,
para vencer a solidão, é espontâneo a todo homem procurar outra criatura que
possa compartilhar seus anseios e responder-lhes. A experiência, porém, ensina
que toda criatura é limitada, de modo que as esperanças depositadas no encontro
com um(a) semelhante são, cedo ou tarde, desiludidas. Por mais que repita a
busca de resposta em algum ser humano, o homem se dá sempre por insatisfeito …
E retorna à sua solidão de origem, consciente de que só o Bem Infinito é capaz
de responder aos seus mais nobres desejos. Aflora assim, mais nitidamente do
que nunca, a convicção de que o homem é um brado vivo em demanda do Bem
infinito.

S. Agostinho ilustra esta
procura de Deus: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar,
interroga a beleza do ar, que se dilata e difunde, interroga a beleza do
céu (…), interroga todas essas realidades. Todas te respondem:  “Vê, nós somos belas”. A sua beleza é uma
confissão. Essas coisas belas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, não
sujeito à mudança?” (sermão 241,2).

Possa a Quaresma em curso
propiciar o aprofundamento de tais verdades, principalmente numa fase da história
em que tantas decepções evidenciam ao homem o vazio das bolhas de sabão!

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.