Que tal aprender a ouvir e a falar com Deus?

“Eu não sei falar com facilidade…” (Ex 6,30)

É fundamental para o cristão, para manter aquecida a sua vida espiritual, que, além da vivência sacramental, alimente a alma, continuamente, com o exercício da meditação. É por meio dela que Deus nos fala, nos santifica, nos ensina os seus caminhos e nos mostra a sua vontade. Sem isto, o cristão pode cair no perigoso ativismo, esquecendo o que Jesus disse:

“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,4-5).

É no silêncio e na aridez do deserto que Deus nos fala e cumpre as suas promessas. Nesta jornada de 40 anos, Ele purificou o Seu povo, o arrancou de toda idolatria para que pudesse desfrutar da Terra Prometida.

Dom Henrique Soares da Costa, Bispo de Palmares/PE, escreveu um livro chamado “A Caminho da Terra Prometida”, um percurso espiritual com o livro do Êxodo, o qual nos apresenta uma série substancial de meditações baseadas nesta caminhada do Povo de Deus pelos 40 anos do deserto em busca da Terra Prometida. Mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), essa caminhada é também a nossa em busca da pátria celeste.

Compartilhamos a seguir uma das belas meditações desse seu novo livro:

Reze o Salmo 119/118,41-48

Como lectio divina, leia com os olhos e os ouvidos do coração

Êxodo 6

1. “É por intervenção de mão poderosa que faraó os fará partir, e por mão poderosa os expulsará do seu país” (v. 1). Note bem, meu Amigo, que o início da missão de Moisés junto ao faraó foi um completo fracasso: Ele zombou do Santo, ele desprezou Moisés, ele chamou os israelitas de preguiçosos, ele aumentou a carga sobre o povo… E tudo ficou impune, tudo ficou por isso mesmo; o Senhor nada fez! O Altíssimo deixa claro a Moisés que somente pela Sua mão o povo poderá sair da treva da perdição do Egito. A salvação é e será sempre obra do Senhor, dom gratuito e amoroso!

a) Nem sempre Moisés vai compreender isto! Ele tem a tendência de olhar para si, para suas possibilidades e capacidades e não para o Senhor: “Quem sou eu para ir ao faraó?” (cf. 3,11); E insiste: “Eu não sou um homem de falar… Eu não sei falar com facilidade… Eu não sei falar com facilidade…” (4,10; 6,12; 6,30).

Sempre o mesmo lamento, sempre o mesmo erro: olhar para si mesmo, para o próprio umbigo e não para o Senhor, Aquele de braço estendido e mão poderosa!

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Êxodo: uma experiência de fé

b) Na sua vida, você procura crescer na fé e na consciência que o Senhor é um Deus próximo, um Deus presente, um Deus que age? Conta realmente com o Senhor? Crê na Sua providência? Será que, secretamente, inconscientemente até, não coloca sua confiança em você e na sua própria medida?

c) Recorde as palavras do Salmo; reze-as:

“Se o Senhor não constrói a casa,
em vão labutam os construtores;
se o Senhor não guarda a cidade,
em vão vigiam os guardas.

É inútil que madrugueis,
e que atraseis o vosso deitar
para comer o pão com duros trabalhos
ao Seu amado Ele o dá enquanto dorme!” (Sl 127/126,1s)

2. Releia com atenção o que o Senhor diz nos vv. 2-9. Observe bem e admire:

a) O Senhor como que Se apresenta de novo a Moisés: “Eu sou o Senhor!”. Por que faz isto? Porque sempre será preciso agir assim conosco, tão propensos a esquecer, a fechar o coração! Como temos o coração velhaco e inconstante! Hoje, o Altíssimo nos parece tão presente, tão próximo; logo depois, tão ausente, tão desconhecido, tão distante… O Senhor nos recorda sempre, de novo, Quem Ele é, o Seu amor, a Sua fidelidade, o Seu compromisso para com os Seus fiéis… “Fica atento a ti mesmo para que não esqueças o Senhor teu Deus, e não deixes de cumprir Seus mandamentos! Não vás dizer em teu coração: ‘Foi a minha força e o poder das minhas mãos que me proporcionaram estas riquezas’. Lembra-te do Senhor teu Deus, pois é Ele quem te concede força para te enriqueceres, mantendo a Aliança que jurou a teus pais, como hoje se vê!” (Dt 8,11.17s).

b) Observe que Ele não Se apresenta teoricamente, como para satisfazer nossa curiosidade, mas Se apresenta, explica o Seu Nome, mostrando-Se como o Deus fiel, próximo, salvador: Ele é Aquele que apareceu aos patriarcas, fez aliança com eles para lhes dar a terra prometida, agora promete arrancar e resgatar o Seu povo e introduzi-lo em Canaã: “E vós sabereis que Eu sou o Senhor vosso Deus!” (v. 7).

Nunca se esqueça, Amigo e Irmão: o conhecimento de Deus não é teórico; é experimental, dá-se caminhando com Ele e diante Dele: “Caminha Comigo, anda na Minha presença, então saberás quem Eu sou!”.

Observe ainda que o Santo vai Se revelando aos poucos, progressivamente, como uma pessoa se revela a outra. Isto acontece deste modo porque se trata de um conhecimento vivo, interpessoal, coração a coração, vida a vida!

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c) Como se adquire um conhecimento assim? Rezando, escutando Sua Santa Palavra, recebendo os Seus sacramentos e procurando cumprir a Sua Santa vontade. Este é o caminho! Não deixa de ser impressionante tantos que se mostram devotos, piedosos e, no entanto, na vida prática fazem do seu modo, sem verdadeira obediência ao Senhor! E não esqueça, Irmão: a obediência dá trabalho, é dolorosa, exige conversão, exige mortificação, exige o sacrifício da nossa vontade, do nosso entendimento, dos nossos sentidos. E sacrifício aqui não no sentido de aniquilamento do nosso ser, mas de oferta de amor e de louvor ao Senhor! Lembre-se que em Jesus, nosso Senhor, obediência amorosa e sacrifício obediente se unem na cruz gerando vida e salvação para a humanidade. Irmão, Irmão! Não se pode conhecer verdadeiramente o Senhor sem conversão, não se pode experimentar o Senhor sem, de verdade, abrir espaço para Ele na nossa vida: para o Deus vivo e verdadeiro, amoroso e atuante, Aquele que sempre deseja nos libertar do Egito para nos fazer subir, subir de nossas estreitezas, de nossas escravidões, de nossos vícios, de nossos pecados…!

d) Cuidado, pois, para não reduzir o Deus vivo e verdadeiro a um conceito, a uma teoria, a uma ideia! Ele é o Senhor, mas somente será o meu Senhor se for, de fato, o Senhor da minha vida, que inspira, norteia e define as minhas escolhas e os meus atos! Caso contrário, o meu Deus não passa de um ídolo tolo e vazio!

Procure responder pensando na sua vida concreta: o Senhor tem sido realmente o seu Deus?

3. Uma ideia forte neste capítulo é aquela de aliança. Trata-se de um pacto que Deus fez com os patriarcas e agora fará com todo o povo de Israel: “Tomar-vos-ei por Meu povo, e serei o vosso Deus!” (v. 7). Aqui, o Senhor promete ser o Deus de Israel, todo para Israel, e Israel deverá compromete-se a ser todo para o Senhor. No Cântico dos Cânticos, esta aliança é expressa com uma belíssima imagem de amor conjugal: “Meu Amado é meu e eu sou Dele” (2,16) ou, ainda, “Eu sou do meu Amado e meu Amado é meu” (6,3). Eis a aliança entre Deus e Israel: de amor, de exclusividade, de entrega, de fidelidade! Séculos depois, o profeta Jeremias recordará esta aliança a Israel tentado pela infidelidade:

“Assim disse o Senhor: ‘O que encontraram os vossos pais em Mim de injusto, para que se afastassem de Mim e corressem atrás do vazio, tornando-se eles mesmos vazios? Eles não perguntaram:

Onde está o Senhor que nos fez sair da terra do Egito? Os sacerdotes não perguntaram: Onde está o Senhor? Meu povo trocou a sua Glória pelo que não vale nada!’ (2,5s.8).

a) Esta Aliança cumpriu-se de modo pleno no sangue derramado amorosamente pelo nosso Salvador, Esposo bendito da Igreja, novo Israel. Do sangue bendito da nova e eterna Aliança nasceu a Igreja, a amada Esposa do Amado (cf. Mt 26,27s). A Aliança foi selada para sempre; nela nós entramos pelo nascimento no Espírito do Batismo, nela amadurecemos no Espírito pela Crisma e dela nos alimentamos pela Eucaristia, alimento espirituado, cheio de Espírito divino! Lembre: aliança selada não em simples palavras ou belos sentimentos, mas na fidelidade, na entrega total e amorosa do Senhor, que espera de nós uma entrega efetiva e concreta, na carne da nossa vida.

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b) Leia Romanos 12,1-2: Este é o culto, esta é a liturgia, esta é a vida daquele que é membro do Povo da nova e eterna Aliança! Este deve ser o nosso constante programa de vida! Reze:

Senhor meu Deus, arranca-me do Egito de minhas trevas;
não deixes que elas me prendam em minha própria escuridão,
e eu saberei que Tu és o Senhor!

Livra-me, ó Salvador, de minhas autossuficiências,
faz-me reconhecer Tua graça que me sustenta,
e eu verei que Tu és o Senhor, único Deus verdadeiro!

Mostra-me o Teu Rosto quando nuvens escuras e carregadas
esconderem de mim a luz da Tua Glória,
fazendo vacilar minha fé…
E mesmo na dor, no pranto e na peleja, eu Te louvarei
E bendirei o Teu santo Nome!

Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó,
Deus que chamaste Moisés,
Deus que fizeste de Israel Teu primogênito,
Deus presente,
Deus atuante,
Deus potente,
Deus silencioso,
Deus fiel,
Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
arranca-me do Egito,
salva novamente a Tua Igreja Santa e católica
e tem piedade de mim, pecador!

Retirado do livro: “A Caminho da Terra Prometida”. Dom Henrique Soares da Costa. Ed. Cléofas.

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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