Passagem de São Tomé pelo Brasil?

Ao iniciar sua obra cristianizadora no Brasil recém-descoberto, os primeiros missionários ouviram dos índios a surpreendente notícia de que por aqui havia já passado, em tempos remotos, um evangelizador, São Tomé, cuja memória é celebrada no dia 3 de julho. O que diz a respeito a História?

Brasil, 1549. Na esquadra do Governador Geral Dom Duarte da Costa, chegam à Bahia Nóbrega e Anchieta. Poucos dias depois, em carta aos jesuítas de Lisboa, conta o Pe. Nóbrega ter ouvido dos silvícolas referências a um evangelizador que, além de pregar a doutrina cristã, lhes ensinara a colher raízes comestíveis, como a mandioca da qual faziam a farinha.

Quem seria ele?

Pegadas misteriosas na rocha

Os índios davam-lhe o nome de Zomé, ou Sumé. E mostravam aos missionários algumas pegadas suas, gravadas a fundo na rocha bruta. Informa o Pe. Nóbrega em sua carta:

“Dizem eles que São Tomé, a quem chamam Zomé, passou por aqui. Isto lhes foi dito por seus antepassados. E que suas pegadas estão marcadas na extremidade de um rio, as quais eu fui ver para ter mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pegadas muito assinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes o rio cobre quando transborda. Dizem também que quando deixou estas pegadas estava fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abriu o rio e ele passou para a outra parte sem molhar-se; e dali seguiu para a Índia. (…) Dizem também que lhes prometeu voltar outra vez para vê-los”.

Em outra carta, enviada ao provincial da Companhia de Jesus em Lisboa, relata que os índios “têm memória do dilúvio, mas falsamente, porque dizem que se cobrindo a terra de água, uma mulher com seu marido, subiram em um pinheiro, e depois de secadas as águas, desceram, e deles procederam todos os homens e mulheres”.

Escrevendo no mesmo ano ao Dr. Martin de Azpicueta Navarro de Coimbra, ele volta ao assunto: “E também [os índios] têm notícia de São Tomé e de um companheiro seu, e há em uma rocha nesta Bahia umas pisadas que se têm por suas, e outras em São Vicente. Dizem dele que lhes deu o mantimento que eles agora têm, que são raízes de ervas; estão bem com ele, mas de um seu companheiro dizem mal. E não sei a causa, senão, como ouvi dizer, que as flechas que lhe eram atiradas voltavam-se contra os atiradores e os matavam. Espantam-se muito de ver nosso culto divino e a veneração que temos às coisas de Deus”.

Quando gravou assim milagrosamente na rocha as marcas de seus pés, estava o santo Apóstolo “fugindo dos índios que o queriam flechar”. Teria querido ele, num último ato de bondade, deixar para os silvícolas um testemunho que os ajudasse a crer na palavra dos missionários que, séculos depois, viriam trazer-lhes de novo a graça da evangelização?

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Jesuítas promovem romarias

Dando adesão à pia crença de que essas pegadas eram de São Tomé, os zelosos apóstolos jesuítas promoviam romarias ao local. Em carta de 1552, o Pe. Francisco Pires relata uma dessas peregrinações, dirigida pelo então irmão jesuíta Vicente Rodrigues, depois ordenado sacerdote e nomeado superior da Companhia, em São Paulo:

No restante da noite tivemos grandes cumprimentos com o Principal (Cacique) que estava presente. Disseram- nos que morássemos ali e que nós, que sabíamos, os ensinássemos e eles nos fariam uma casa nas pegadas do bem-aventurado Santo. Com eles partimos de manhã (…) Lá chegando era meia maré baixa, e vimos pegadas, que as cobre a maré cheia, que estão em pedra muito dura, e as pegadas assinaladas como de homem que fugindo escorregava, e a pedra cedeu sob seus pés como se fosse barro.

A opinião de um abalizado historiador

Sobre a passagem de São Tomé por terras americanas, escreve o conhecido historiador Rocha Pitta:

“A vinda do glorioso Apóstolo S. Tomé anunciando a doutrina católica, não só no Brasil, mas em toda a América, tem mais razões para se crer que para se duvidar; pois mandando Cristo Senhor Nosso aos seus sagrados Apóstolos pregar o Evangelho a todas as criaturas e por todo o mundo, não consta que algum dos outros viesse a esta região, tantos séculos habitada antes da nossa Redenção; e depois de remidas tantas almas, não deviam ficar mil e quinhentos anos em ignorância invencível da lei da graça; e posto que nas sortes tocasse a este santo Apóstolo a missão da Etiópia e da Índia, e se não fale na América (então por descobrir) não se pode imaginar que faltasse a providência de Deus a estas criaturas com a pregação, que mandara fazer a todas.

De ser o Apóstolo S. Tomé o que no Mundo Novo pregou a doutrina evangélica, há provas grandes, com o testemunho de muitos sinais em ambas as Américas: na castelhana, aquelas duas cruzes que em diferentes lugares acharam os Espanhóis com letras e figuras, que declaravam o próprio nome do Apóstolo, como escrevem Joaquim Brulio, Gregório Garcia, Fernando Pizarro, Justo Lípsio e o Bispo de Chiapa; e na nossa portuguesa América, os sinais do seu báculo e dos seus pés, e a tradição antiga e constante em todos estes gentios, de que era de um homem de largas barbas, a quem com pouca corrupção chamavam no seu idioma Sumé, acrescentando, lhes viera a ensinar coisas da outra vida, e que não sendo deles ouvido, o fizeram ausentar” (História da América Portuguesa, vol. XXX – W.M. Jackson Inc. Editores — 1970).

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho n. 23, novembro 2003.

Fonte: https://gaudiumpress.org/content/passagem-de-sao-tome-pelo-brasil/

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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