Papa no Iraque: Somos chamados a mudar a história com a força humilde do amor

Segundo o ACI (06/03/2021), no segundo dia de sua viagem ao Iraque, neste sábado, 6 de março, o Papa Francisco celebrou pela primeira vez uma Missa de rito caldeu, na qual convidou a mudar a história “com a força humilde do amor”.

A histórica Eucaristia, que aconteceu na Catedral Caldeia de São José, em Bagdá, seguiu a forma da “Missa de São Tomé” e foi concelebrada pelo Patriarca da Babilônia dos Caldeus, Cardeal Louis Raphaël Sako, o Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, o prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, Cardeal Leonardo Sandri, o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Cardeal Miguel Ángel Ayuso, o grão-mestre da Ordem do Santo Sepulcro, Cardeal Fernando Filoni, e o Arcebispo latino de Bagdá, Dom Jean Sleiman.

A maior parte dos cristãos no Iraque é de rito caldeu. A Igreja Caldeia é uma Igreja Católica Oriental que está em plena comunhão com Roma.

Foi a segunda vez que o Santo Padre celebrou uma Missa em rito católico oriental. A primeira vez foi em 2 de junho de 2019, durante sua viagem à Romênia, onde presidiu a “Divina Liturgia” no rito bizantino romeno com a beatificação de sete bispos greco-católicos mártires.

Cerca de 180 pessoas participaram desta Eucaristia devido às restrições sanitárias imposta pela Covid-19. Entre elas estavam diferentes autoridades civis, lideradas pelo presidente iraquiano Barham Ahmed Salih Qassim, muçulmano do ramo sunita. Outras pessoas acompanharam a Missa do lado de fora da igreja diante de um telão colocado do lado de fora.

Entre algumas das diferenças significativas do rito romano, cabe destacar que a cadeira do celebrante principal (o Papa) foi colocada em um lado do altar (e não no centro).

Depois da procissão, o Patriarca iniciou a Missa conduzindo o Glória em Caldeu e depois o coro entoou o Salmo 36 em caldeu. A primeira e a segunda leituras foram lidas em árabe, enquanto o Evangelho foi cantado. No rito romano, durante o tempo da Quaresma, não se canta o Aleluia, mas nesta Missa no rito caldeu o Aleluia foi cantado.

A homilia foi proferida em italiano pelo Papa e traduzida para o árabe pelo sacerdote que trabalha na Secretaria de Estado e é seu intérprete nesta viagem.

Em sua pregação, o Santo Padre encorajou a imitar “a sabedoria de Jesus, encarnada nas Bem-aventuranças”, que “pede o testemunho e oferece a recompensa, contida nas promessas divinas”.

O Papa convidou a perguntar-se: “Como reajo eu às situações funestas?”. E explicou “à vista das adversidades, apresentam-se sempre duas tentações. A primeira é a fuga: fugir, virar as costas, desinteressar-se. A segunda é reagir, como irritados, com a força”.

“Assim aconteceu com os discípulos no Getsêmani: no alvoroço geral, vários fugiram e Pedro puxou da espada. Mas nem a fuga nem a espada resolveram coisa alguma. Ao contrário, Jesus mudou a história. Como? Com a força humilde do amor, com o seu paciente testemunho. O mesmo somos nós chamados a fazer; assim Deus realiza as suas promessas”, disse o Papa.

Ao comentar um trecho do Livro da Sabedoria, o Pontífice recordou que “a sabedoria foi cultivada nestas terras desde tempos muito antigos. Desde sempre, a sua busca tem fascinado o homem; mas, frequentemente, quem possui mais recursos pode adquirir mais conhecimentos e ter mais oportunidades, ao passo que quantos têm menos são excluídos”.

“Entretanto o livro da Sabedoria surpreende-nos, ao inverter a perspectiva. Nele se diz que ‘o pequeno encontrará misericórdia, mas os poderosos serão examinados com rigor’ (Sab 6, 6). Para o mundo, quem tem menos é descartado e quem tem mais é privilegiado; para Deus, não: quem tem mais poder é sujeito a um exame rigoroso, enquanto os últimos são os privilegiados de Deus”, advertiu.

Em seguida, o Santo Padre destacou que “Jesus, a Sabedoria em pessoa, completa esta inversão no Evangelho: não num momento qualquer, mas no início do primeiro discurso, com as Bem-aventuranças. A inversão é total: os pobres, os que choram, os perseguidos são declarados bem-aventurados”.

“Querida irmã, querido irmão, talvez olhes para as tuas mãos e te pareçam vazias, talvez sintas insinuar-se no coração a desconfiança e penses que a vida é injusta contigo. Se tal suceder, não temas! As Bem-aventuranças são para ti, para ti que estás na aflição, com fome e sede de justiça, perseguido. O Senhor promete que o teu nome está escrito no seu coração, nos Céus”, afirmou o Papa.

Nesse sentido, o Pontífice exclamou: “E hoje agradeço-Lhe convosco e por vós, porque aqui, onde na antiguidade surgiu a sabedoria, nestes tempos se levantaram tantas testemunhas, muitas vezes transcuradas nos noticiários mas preciosas aos olhos de Deus; testemunhas que, vivendo as Bem-aventuranças, ajudam Deus a realizar as suas promessas de paz”.

“A proposta de Jesus é sapiente, porque o amor, que é o coração das Bem-aventuranças, embora pareça frágil aos olhos do mundo, na realidade vence. Na cruz, provou ser mais forte do que o pecado; no sepulcro, derrotou a morte. Foi este mesmo amor que tornou os mártires vitoriosos na provação… E houve tantos no último século! Mais do que nos anteriores “, acrescentou.

No entanto, o Santo Padre reconheceu que “bem-aventurados, para o mundo, são os ricos, os poderosos, os famosos! Vale quem tem, quem pode, quem conta! Para Deus, não: não é maior quem tem, mas quem é pobre em espírito; não quem pode tudo sobre os outros, mas quem é manso com todos; não quem é aclamado pelas multidões, mas quem é misericordioso com o irmão”.

Por isso, o Papa sublinhou que a chave para viver as bem-aventuranças não consiste em fazer “coisas extraordinárias, empreendimentos acima das nossas capacidades”, mas sim em dar “o testemunho diário”.

“Bem-aventurado é quem vive com mansidão, quem pratica a misericórdia no lugar onde se encontra, quem mantém o coração puro lá onde vive. Para se tornar bem-aventurado, não é preciso ser herói de vez em quando, mas testemunha todos os dias. O testemunho é o caminho para encarnar a sabedoria de Jesus. É assim que se muda o mundo: não com o poder nem com a força, mas com as Bem-aventuranças. Pois foi assim que fez Jesus, vivendo até ao fim aquilo que dissera ao início. Tudo se resume em testemunhar o amor de Jesus”, assinalou o Papa.

Neste sentido, o Santo Padre destacou que a paciência “é a primeira qualidade do amor, porque o amor não se indigna, mas sempre recomeça. Não se abate, mas relança; não desanima, mas permanece criativo. Perante o mal, não se rende, não se resigna”.

E acrescentou que “quem ama não se fecha em si mesmo, quando as coisas correm mal, mas responde ao mal com o bem, lembrando-se da sabedoria vitoriosa da cruz. Assim procede a testemunha de Deus: não é passiva, fatalista, não vive à mercê das circunstâncias, do instinto e do momento, mas mostra-se sempre esperançosa, pois está fundada no amor que ‘tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta’”.

“Às vezes, queridos irmãos e irmãs, podemos sentir-nos incapazes, inúteis. Não lhe demos crédito, pois Deus quer fazer maravilhas precisamente através das nossas fraquezas. Ele gosta de proceder assim e, nesta tarde, repetiu oito vezes ţūb’ā [bem-aventurados] para nos fazer compreender que, com Ele, o somos realmente. É certo que somos provados, muitas vezes caímos, mas não devemos esquecer que, com Jesus, somos bem-aventurados. Tudo aquilo que o mundo nos tira, não é nada em comparação ao amor terno e paciente com que o Senhor cumpre as suas promessas”, concluiu o Papa.

Depois da homilia do Santo Padre, a assembleia permaneceu por um momento em silêncio orante, a oração dos fiéis foi lida por diferentes pessoas em vários idiomas.

No ofertório, o altar foi incensado pelo Papa e depois um diácono incensou o Pontífice. O Credo foi recitado em árabe e o rito de paz foi seguido por um canto de paz.

Após a Consagração, o coro cantou uma invocação ao Espírito Santo. Antes da distribuição da Comunhão, realizou-se: um rito penitencial com canto que concluiu com a oração de absolvição pronunciada pelo Papa; a oração do Pai-Nosso cantada e outra canção invocando a paz.

Antes de encerrar a Missa, o Patriarca da Babilônia dos Caldeus, Cardeal Louis Raphaël Sako, agradeceu ao Papa em nome dos cristãos e de todos os iraquianos “por sua corajosa visita” que, em sua opinião, “encorajar os iraquianos a superar o passado doloroso, com vista à reconciliação nacional, à cura das feridas, à coesão e cooperação para o crescimento, a paz e a estabilidade, simplesmente porque são irmãos e cidadãos diferentes da terra de Abraão, e porque o Iraque é a sua casa comum”.

“Para nós, cristãos, esta visita é uma oportunidade para fazer uma peregrinação às nossas primeiras raízes, para uma conversão e para manter a nossa identidade iraquiana e cristã”, pois a presença como cristãos no Iraque e no Oriente “não é por acaso nem por emigrar, mas por um plano divino”, disse o Cardeal Sako, que acrescentou: “temos uma vocação e uma missão a que não podemos renunciar, apesar das dificuldades”.

Por fim, ocorreu a troca de presentes. O Papa presenteou um cálice a esta igreja e o Patriarca Sako deu uma cruz ao Pontífice.

Após a bênção do Papa, a cerimônia foi encerrada com a canção “Jesus Christ you aremay life” – em inglês e árabe –, canção composta por Mons Marco Frisina para a JMJ de 2000 em Roma.

Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Natalia Zimbrão.

Fonte: http://www.acidigital.com/noticias/papa-no-iraque-somos-chamados-a-mudar-a-historia-com-a-forca-humilde-do-amor-81416

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Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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