Onde encontrar o verdadeiro remédio para a dor?

Muitos fogem da dor, todavia ela é o sinal da alma chamada por Deus. Diante da situação do mundo e da Igreja, não iremos oferecer a Deus nossas dores, dificuldades e provações?

A medicina alcançou, em nossos dias, um sucesso extraordinário, curando doenças antigamente consideradas mortais. Outrora era impensável um transplante de órgãos — coração, fígado, rins —, como hoje é feito com relativa frequência e facilidade. Quantas maravilhas a ciência realizou!

Entretanto, eliminar por inteiro as enfermidades e a dor é impossível. Se não é factível a extirpação dos males físicos, o mesmo acontece, e muito mais, com os espirituais: vemo-nos amiúde rodeados de decepções, dramas, aflições, incertezas, perplexidades, brigas, discórdias que destroçam as famílias…

A vida está cheia de contrariedades e não nos é dado fugir totalmente delas, nem há dinheiro que compre uma completa satisfação nesta Terra. Como reagir, pois, em face da dor?

O homem tem necessidade de sofrer

Pensemos na felicidade do homem no Paraíso. Lá, onde os vegetais e os seres inanimados estavam sob o seu domínio, e os animais lhe obedeciam; admiravelmente equilibrado, ele desfrutava de um prazer enorme, inefável, pleníssimo, porque não existia nada que o fizesse sofrer, mas só motivos de alegria.

Não havia tempestades, o clima era sempre ameno, favorecido por brisas suaves e serenas, e a tranquilidade da natureza era imagem da calma temperamental do homem, adornado pelo dom de integridade, graças ao qual estava livre de todo movimento desordenado de seus apetites sensíveis. Portanto, não conhecia a dor.

Nesta perspectiva, imaginemos que Adão e Eva não tivessem caído, e no Paraíso Terrestre se desenvolvesse uma sociedade em que as pessoas se relacionassem em harmonia, vivendo no gozo perfeito e sem experimentar padecimento algum.

Suponhamos, ainda, que nesse ambiente se introduzisse um indivíduo com pecado original: ele conviveria com os outros sem a menor possibilidade de desentendimento com ninguém, sendo tratado com elegância e consideração, num bem-estar colossal por ser objeto de todo o desvelo, cuidado e carinho. No entanto, embora pareça um absurdo, este homem teria um sofrimento pavoroso… o sofrimento de não sofrer!

A necessidade de exercício e de movimentação de nosso corpo não é senão um reflexo, posto por Deus, de análoga necessidade do espírito em relação à dor.

Quando alguém, por exemplo, quebra um osso do braço e se vê obrigado a imobilizá-lo durante certo tempo, ao retirar o gesso leva um susto por constatar que o braço se encontra emagrecido e flácido. Ser-lhe-á preciso fazer fisioterapia, a fim de que o membro recupere a força.

Também a alma, sem o sofrimento, se torna esquálida, definha e perde o vigor.

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O sentido católico da dor

Erram, portanto, as escolas filosóficas que procuram explicar o sofrimento de maneira diversa da visualização católica, afirmando que ele tem de ser evitado a todo custo ou ser assumido com espírito autodestrutivo.

A única Religião que encara bem a dor é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela mostra quanto a dor é indispensável e deve ser compreendida.

Nós só a entendemos realmente ao olhar para Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz. Ele Se encarnou com o objetivo de reparar o pecado cometido pela humanidade, de restaurar a glória de Deus e a ordem; e quis fazê-lo através dos tormentos de sua Paixão.

Todos nós pecamos em nossos pais Adão e Eva, além de incorrermos em inúmeras faltas atuais durante a vida, atentando contra a glória do Criador. Ora, sabemos que o Sétimo Mandamento não se viola somente ao roubar o dinheiro ou a propriedade de outrem, mas também ao recusar a glória que a Deus pertence. E se, no primeiro caso, para ser perdoada a transgressão se exige a restituição daquilo que se furtou, não é menos imperioso devolver a Deus a glória que o pecado Lhe negou.

É esta, exatamente, a prova à qual Deus submete as criaturas inteligentes, Anjos e homens: a de nunca julgar seus êxitos e conquistas fruto dos próprios esforços, reputando-se a si mesmos fonte das qualidades que lhes foram concedidas, sejam energia, inteligência ou capacidade de trabalho. Antes, temos de reconhecer que os méritos vêm de Deus, pois é Ele quem nos dá tudo, quer no campo natural, quer, sobretudo, no sobrenatural, como disse Nosso Senhor: “sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

Neste sentido, a dor é um meio de mover a alma a restituir o que recebeu e de passarmos bem pela prova, ao deixar patente quanto somos contingentes diante de Deus, fazendo-nos voltar para Ele. Nos sucessos, pelo contrário, é fácil fecharmo-nos em nós e, cegos de autossuficiência, esquecermos o Criador, acabando por nos desligarmos d’Ele.

“A enfermidade e o sofrimento” — assegura o Catecismo — “sempre estiveram entre os problemas mais graves da vida humana. Na doença, o homem experimenta sua impotência, seus limites e sua finitude. […] A enfermidade […] pode tornar a pessoa mais madura, ajudá-la a discernir em sua vida o que não é essencial, para voltar-se àquilo que é essencial. Não raro, a doença provoca uma busca de Deus, um retorno a Ele”.

Ademais, o sofrimento é o melhor purificador de nossas almas, já que, através dele, nos arrependemos de nossas faltas, nos confessamos miseráveis e mendicantes da graça e do perdão divino. “Tomar sua cruz, cada dia, e seguir a Jesus é o caminho mais seguro da penitência”.

O remédio para a dor

Quando permitiu ao demônio atormentar Jó, Deus queria que aquele varão justo crescesse ainda mais na temperança e, portanto, na santidade, para, em seguida, cumulá-lo de méritos e outorgar-lhe em maior grau a participação na vida divina.

Entendemos, então, quanto as tribulações que nos atingem são, no fundo, permitidas por Deus, em vista de uma razão superior.

Ele não pode promover o mal para a nossa alma, e assim age porque nos ama e deseja dar-nos muito mais do que já deu. E porque é bom, ao mesmo tempo que consente as adversidades, Ele nos conforta: “Ele conforta os corações despedaçados, Ele enfaixa suas feridas e as cura” (Sl 146, 1.3).

Tanto Deus a considera um benefício para o homem, que Ele mesmo abraçou a via dolorosa e a escolheu também para sua Mãe.

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Abracemos a dor com os olhos fixos na Cruz de Cristo

Assim devemos aceitar a dor como uma necessidade, e a compreendê-la como um elemento fundamental para o equilíbrio da alma, a fim de ela não mais se apegar às criaturas e chegar à plena união com Deus.

Se nos sentirmos inclinados a pedir-Lhe que faça cessar alguma dor, rezemos com confiança, certos de sermos ouvidos; porém, se recebermos a inspiração de suportar com resignação a adversidade — seja ela uma doença, uma provação ou uma simples dificuldade —, roguemos a Ele que nos dê as forças imprescindíveis para viver com alegria, da qual Ele mesmo deu exemplo, juntamente com sua Santíssima Mãe.

Sobretudo, não cedamos à má tristeza, aquela que produz o desânimo, e mantenhamos no fundo da alma a determinação de cumprir a vontade de Deus; aí, sim, virá a paz.

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos os dias Se imola de forma incruenta no Santo Sacrifício do Altar, que derrame, por intermédio de Nossa Senhora, torrentes de graças sobre nós, a fim de nos convencermos dos benefícios da dor e, assim, a enfrentarmos com elevação de espírito e olhos fixos na sua Cruz.

Mons João Scognamiglio Clá Dias, EP.

Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n.158, fevereiro 2015.

Fonte: https://gaudiumpress.org/content/onde-encontrar-o-verdadeiro-remedio-para-a-dor/

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Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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