O que disseram os historiadores sobre Lutero

Não é fácil estudar a controvertida figura de Lutero; para clarear este entendimento, apresentamos algumas citações de grandes estudiosos sobre Martinho Lutero, além das citações do próprio reformador:

PADRE FERNAND MOURRET (†1938), historiador francês, em O
Renascimento e a Reforma:

“Para Lutero o desespero significava, principalmente, o sentimento depressivo de uma insuficiência moral e a evidência de não encontrar- -se em estado de conservar a castidade. Um voto arrancado por medo insuperável não pode ser considerado como válido, por faltar uma condição absolutamente necessária: a liberdade de espírito e a deliberação.

Qualquer diretor discreto se o houvesse assim recordado a Lutero, a dispensa do voto havia podido obter facilmente em caso de dúvida. Mas o jovem estudante, vítima de uma cega obstinação, se empenhou em fazer uma homenagem ao suposto chamamento do alto. No entanto, ele não havia nascido para a reclusão. A vida do religioso exige disposições muito diferentes daquelas poderosamente dotadas de uma sensibilidade
sem freio, entregue aos caprichos da imaginação e da própria vontade. Nada conhecedor da vida religiosa e de suas exigências, teve fomentado em tais condições uma vocação que reclama a renúncia, a obediência e os sacrifícios necessários para conservar a vida comum com os irmãos.

Lutero não conseguia adquirir a virtude da esperança. “Minha vida constitui um martírio!”, exclamava. E era tal o espanto que lhe produzia o juízo de Deus que os cabelos se arrepiavam sobre sua cabeça e se estremecia nde terror quando diante dele se falava no convento da morte ou da vida futura. A Roma do Renascimento mostrou a seus olhos os abusos religiosos e morais que eram o joio do mundo naquela época. Dolorosas
experiências desvendaram ante ele a corrupção que reinava nos bancos do Tiber, e este descobrimento lhe produziu funda e amarga depressão.

Ao queimar aquela Bula, prendeu na Cristandade o mais formidável incêndio que tenha presenciado a história da Igreja.

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JACQUES BOUSSUET, Bispo e teólogo (†1704), em sua obra História das variações do protestantismo: “Renunciando a vencer, mas não a ser santo, Lutero quis transformar
seu caso em verdade teológica e seu estado em lei universal.

Em vez de combater a falsa santidade pelas obras, atacou Lutero o verdadeiro valor das boas obras, que constituem o prêmio da vida religiosa. A Igreja tem exaltado sempre a liberdade e a vontade humana. Tem
ensinado que Deus quer a salvação de todos os homens (1Tm 2,4). Para ele oferecer as criaturas à graça necessária a que elas devem livremente cooperar. Ademais e segundo o ensinamento católico, a graça santificante
do batismo converte o homem em filho de Deus; mas a inclinação ao mal subsiste, sem culpa para o homem, se este não consente o pecado. A concupiscência se acalma pelos meios da graça de que a Igreja dispõe.
Quem quer que se deixe arrastar pelo pecado mortal pode ter a esperança certa, em virtude dos méritos da morte de Jesus Cristo, de recobrar o estado de graça; mas deve submeter-se a penitência com firme vontade de endereçar sua vida, isto é, com propósito de emenda. De nenhum modo, pode bastar a fé somente na aplicação dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo. A graça atual ajuda a quem quer converter-se e preservar.

Nós sabemos que, mediante a colaboração de nossa vontade e da graça divina pode livrar-nos do pecado mortal; Lutero, em troca, desconhecendo e negando a possibilidade desta colaboração, renunciou em buscar sua salvação por meio de penitências e boas obras. Decidiu, pois, livrar-se de uma vez por todas dos tormentos de sua consciência, confiando na salvação eterna mediante sua fé em Cristo. Dali sua conhecida frase: ‘Peca sem temor, peca forte, mas crê ainda com mais força.’”

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Eu não admito, escreve Lutero, que minha doutrina seja julgada pelos homens, nem pelos anjos, e aquele que se negar a recebê-la jamais poderá chegar a salvar-se. Advertindo Lutero a confusão de ideias e crenças que existia na Alemanha, dizia lamentando-se: “Este não admite o batismo, aquele nega a Eucaristia, outro põe um mundo entre este tempo e o juízo final, e alguns até ensinam que Cristo não é Deus, uns dizem uma coisa, outros outra, e há tantas opiniões como princípios.

Deve beber, jogar, rir mais e mais forte, e cometer algum pecado para desafiar e depreciar o demônio, e já que não posso rezar em tal estado, ao menos posso amaldiçoar, e em vez de exclamar: “Santificado seja teu
nome” é necessário repetir: “Maldito e condenado seja o nome dos papistas”. “Perguntas-me por que bebo tão abundantemente escrevia Lutero a um amigo, por que falo tão alegremente e por que ando a comemorar
com tanta frequência? Pois te digo que é para troçar o demônio, que estava empenhado em me atormentar.”

DEÃO W. R. INGE, de São Paulo em Londres, protestante:
Lutero foi um reformador, não era nem filósofo e nem teólogo. Foi um reacionário de vários modos, e os Humanistas, que a princípio tinham esperanças nele, não tardaram a descobrir que muito pouca simpatia poderia haver entre si. Exaltando a fé e rebaixando as boas obras, e usando a “Fé”, com as suas associações intelectuais, ele deu mais importância a corrigir a crença do que nem mesmo os católicos o haviam feito. Ele
não quis estender a tolerância aos anabatistas e a outros sectários, e em princípio não fez objeção à perseguição. A sua atitude diante da Revoltados Camponeses fica sendo uma mancha na sua carreira… Todo o futuro da obra de sua vida parecia depender da bem sucedida defesa da sua autoridade pelos príncipes. Finalmente, a despeito do caráter fortemente ético do seu ensino, houve no seu trato das questões sexuais uma grosseria
que repercutiu desfavoravelmente sobre à moral do povo alemão (Protestantism, p. 28; apud A Reforma Protestante, Vozes em defesa da fé, n. 13, Ed. Vozes, 1959).

D. P. SMITH, biógrafo de Lutero, no seu livro Luther, p. 321, escreveu sobre os pensamentos que Lutero publicou em 1541, em Conversa de Mesa:
Fere o moderno leitor de nada menos do que o pasmo, quase de horror, descobrir a conversa particular do grande moralista com seus comensais e filhos, as suas aulas a estudantes, até mesmo os seus sermões,
densamente permeados de palavras, expressões e histórias confinadas até hoje em dia aos frequentadores dos mais baixos botequins” (op. cit. Vozes, p. 20). Nesta obra há expressões e sentimentos indecorosos e lascivos.
Bullinger, o reformador protestante suíço, escreveu a respeito de Lutero: “Ai! É claro como a luz do dia e inegável que ninguém jamais escreveu mais vulgar, mais grosseira, mais indecorosamente, em assuntos de fé, e de modéstia cristã, e em todos os assuntos sérios, do que Lutero. Há escritos de Lutero tão sujos, tão imundos, tão vulgares e grosseiros, que não seriam desculpados num pastor de porcos mais do que num pastor de almas.” Pregando em Wittenberg, depois de deixar a Igreja Católica, Lutero disse: “Se Moisés tentar intimidar-vos com os seus estúpidos Dez Mandamentos, dizei-lhe imediatamente: “Suma-se daqui para os judeus!” (p. 22). Parece ter esquecido que Jesus recomendou ao jovem do Evangelho, viver os Dez Mandamentos de Moisés para se salvar (cf. Mt 19,16s).

Da mesma forma Zwínglio, reformador protestante, que pregou em Zürich (Suíça), falando do livro de Lutero Contra Hans Worst, queixava-se “da vil linguagem desse sujo panfleto”. Quase todos os biógrafos de Lutero admitem que sua linguagem fora sempre grosseira e vulgar, imprudente e impetuosa. Lutero não suportava contradição. Não tolerava rival. E muitos adversos à Igreja viram nele uma emancipação da autoridade da Igreja e de toda restrição moral. HALLAM, o historiador protestante, reflete o juízo de todos os entendidos imparciais, quando escreve:

“Um dogmatismo ilimitado, repousando, praticamente, numa absoluta confiança na infalibilidade do seu juízo, permeia os seus escritos; nenhuma condescendência é mostrada, nenhuma pausa é concedida ao
hesitante; tudo quanto se ergue no caminho das suas decisões, os padres da Igreja, os homens de escola e os filósofos, os cânones e os concílios, tudo é varrido numa torrente de impetuosa declamação; e, como, segundo
Lutero, tudo o que se contém na Escritura é fácil de entender, e só pode ser entendido no sentido dele, todo desvio da doutrina incorre o anátema da perdição. Que os zwinglianos, tanto como toda a Igreja de Roma, e
os anabalistas, por causa dos seus dogmas foram excluídos da salvação, isto é mais do que insinuado em numerosas passagens dos escritos de Lutero” (Literature of Europe, Vol. I, p. 372).

De maneira semelhante o historiador protestante Edward M. Hulme, falando de Lutero, e dos seus colegas, diz:
“Os reformadores vieram a considerar a intolerância uma lei de autopreservação. Lutero anatematizou todo aquele cuja crença divergisse da dele. “Aquele que não crê na minha doutrina”, disse ele uma vez, “está seguro de ser condenado” (The Protestant Revolution and the Catholic Reformation in Continental Europe, Century, N. Y., 1915, p. 363).

 

Prof. Felipe Aquino

Trechos retirados do Livro: História da Igreja – Idade Moderna e Contemporânea

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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