O Milenarismo

Uma das primeiras heresias foi o milenarismo, que afirmava, baseado no Apocalipse, que Jesus em pessoa reinaria durante mil anos, juntamente com os justos e que esses então gozariam de mil delícias, para depois se realizar o Juízo Final.

O bispo Papias de Hierápolis (†130) professava essa doutrina, e também Nepos, bispo no Egito, mas os Papas Vítor (189-199) e Zeferino (199-217) a condenaram, e mais tarde o Papa Dâmaso (366-384) também (Rops, Vol. I, p. 282). Foi o chamado “milenarismo grosseiro”, que confundia a bem-aventurança do reino terrestre de Cristo nos prazeres da carne: uso e abuso do matrimônio, da comida e da bebida.

Esta forma foi propalada por gnósticos heréticos neste século II d.C. e foi condenada de forma unânime pelos Padres e Doutores da Igreja. Depois de ter caído em esquecimento a partir do século III, a teoria foi ressuscitada por inovadores religiosos do século XVI. Mas houve também um “milenarismo espiritual” ou mitigado, que considerava que os justos após a primeira ressurreição “já não se casarão nem serão sujeitos à fome ou à dor”, segundo o que diz Jesus (cf. Lc 20,35). Este milenarismo espiritual era doutrina professada por vários Padres e escritores da Igreja: São Justino (†165), Santo Irineu (†202), Tertuliano (†220), Lactâncio (†317),
São Metódio de Olimpo (†311).

Santo Agostinho, depois de lhe ter aderido em seus primeiros escritos, propôs novo modo de entender o Apocalipse [capítulo 20], excluindo o reino milenarista. A sua autoridade fez com que o sistema caísse em descrédito, mas voltou a ser defendido na Idade Média por alguns escritores considerados “iluminados” e fanáticos, e ainda o professavam recentemente alguns estudiosos católicos. Estes reivindicavam para a sua doutrina o nome de Milenismo, a fim de serem devidamente diferenciados do milenarismo crasso, errôneo. (D. Estêvão Bettencourt, 1990, 1995, 1996).

Embora o Magistério da Igreja não tenha formalmente condenado o Milenarismo, lhe é contrário. Em 1944 o Santo Ofício colocou a seguinte questão: “Que pensar do sistema dito Milenarismo mitigado, o qual ensina que o Cristo Senhor, antes do juízo final, há de vir à Terra para reinar visivelmente, quer se admita, quer não, a ressurreição prévia de muitos justos?”

A Santa Sé respondeu em 1944:
“O sistema dito “Milenarismo mitigado” não pode ser ensinado sem perigo para a fé – Systema millennarismi mitigati tuto doceri no potest.” (Acta Apostolicae Sedis 36 (1944)).

De acordo com D. Estêvão Bettencourt, nos artigos citados, a posição clássica da Igreja é a seguinte:

“A primeira ressurreição (cf. Ap 20,5), vem a ser a primeira ressurreição de São João (cf. 5,25); é a batismal. A segunda ressurreição [implicitamente mencionada em Ap 20,13] identifica-se com a ressurreição corporal a que se refere São João (cf. 5,28). Entre a ressurreição batismal, que ocorre em cada batizado, e a ressurreição corporal, o Apóstolo coloca um reino de Cristo milenar sobre a terra, estando Satanás acorrentado. Esse milênio significa o tempo da Igreja [já com mais de 2000 anos!], um tempo de vitória de Cristo sobre o pecado [mil tem um simbolismo de bonança]; Satanás é, conforme Santo Agostinho, um cão acorrentado, que pode ladrar, mas não pode morder senão a quem se lhe chega perto.

“No fim dos mil anos de Apocalipse [cf. 20,7], ou seja, no fim da história da Igreja, dar-se-á o assalto final de Satanás contra os membros da Igreja. Mas o Senhor Jesus virá na sua glória e os mortos ressuscitarão [segunda ressurreição] para o juízo universal. A segunda morte, de que fala Apocalipse [cf. 20,6], é a morte espiritual ou a ruína definitiva do inferno.”

Ouça tambémA segunda vinda de Cristo

O Catecismo da Igreja ensina:
“Esta impostura anticrística já se esboça no mundo
toda vez que se pretende realizar na história a esperança
messiânica que só pode realizar-se para além dela através
do juízo escatológico: mesmo na sua forma mitigada, a
Igreja rejeitou esta falsificação do Reino vindouro sob o
nome de milenarismo, sobretudo sob a forma política de
um messianismo secularizado, “intrinsecamente perverso”
(§676; Pio XI, Encíclica Divinis Redemptoris).

Prof. Felipe Aquino

 

Retirado do Livro: História da Igreja -Idade antiga séculos I a V

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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