Mostruário de palavras amáveis

palavras-gentileza“A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6,45)… Que tipo de palavras tem estado em sua boca e em seu coração?

• Palavras de interesse

As nossas palavras sempre mostram o coração. Como dizia Jesus, a boca fala daquilo de que o coração está cheio (Lc 6,45). Se valorizamos os outros, se – como cristãos que desejam viver de amor – queremos bem aos demais, isso vai se notar:

— no modo de cumprimentá-los, não formal, nem com um sorriso forçado, mas com olhar e gestos afetuosos e interessados;

— no que lhes perguntamos, pois isso manifesta que as coisas deles nos interessam: família, trabalho, saúde…;

— no respeito com que ouvimos atentamente as suas opiniões, mesmo que divirjam das nossas;

— no acompanhamento frequente de situações difíceis e dolorosas, manifestando interesse sobre o modo como evoluem, e oferecendo orações e o auxílio cabível.

• Palavras de afeto

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Palavras afetuosas ditas sem exagero, com naturalidade sincera, sem gestos exagerados e com substância do amor. Sempre lembrarei as lágrimas de uma mulher que sentiu seu coração partir-se no dia em que o marido, após muitos anos, começou a cumprimentá-la friamente, sem o diminutivo carinhoso que antes lhe era habitual.

Convença-se de que não há nenhuma situação, agradável ou constrangedora, em que não possamos fazer surgir do bom tesouro do coração (Lc 6,45) uma palavra afável, confortadora e construtiva.

• Palavras de desculpa

Pode haver carinho mais autêntico do que pedir perdão com uma sinceridade tocante? Na vida, não só a educação, mas o coração, deveria mover-nos a pedir desculpas – sem comédias nem dramas – por cada um dos nossos erros, esquecimentos e indelicadezas. “Desculpe, por favor, esqueci”, “Falei o que não devia”, “Sinto muito”, “Foi erro meu”, etc.

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• Palavras de estímulo

Que falta nos fazem! Muitas pessoas que se querem bem não percebem quando um filho, o marido ou a mulher, um colega, um empregado, precisam de uma palavra de ânimo, de incentivo. Não uma frase feita, mas um verdadeiro estímulo que, se vier do coração, chegará ao outro coração.

Imagine como deve ter reagido a mulher adúltera, já a ponto de ser apedrejada – porque diziam: Moisés mandou na lei apedrejar tais mulheres (Jo 8,5) –, quando Jesus, após afugentar, envergonhados, os que tinham as pedras nas mãos, disse-lhe, olhando-a com confiança:

Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar (Jo 8,11), confio em que de agora em diante viverás honestamente!

E Zaqueu? Aquele publicano pouco honesto, desprezado, que inesperadamente vê Jesus que se dirige a ele, ao avistá-lo encarapitado num sicômoro, espécie de figueira, e lhe diz (para escândalo dos “fariseus”): Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa (Lc 19,5). Essa confiança de Jesus fez Zaqueu converter-se e mudar de vida.

• Palavras de gratidão

A pessoa que recebe reconhecimento, gratidão, fica bem disposta, e é mais fácil que nela despertem desejos de ser melhor.

Nós não devemos ir atrás de reconhecimento e recompensa quando cumprimos o dever ou fazemos o bem, como ensina Jesus (cf. Mt 6,1). Mas o amor nos deve levar a agradecer todo bem que recebemos de Deus e dos outros. Jesus ficou triste quando percebeu que, dos dez leprosos que curou, só um tinha voltado para lhe dar graças (Lc 17,17-18).

«Obrigado – diz Chevrot – é uma pequena palavra alegre, é a palavra mágica que introduz no lar a delicadeza, a boa ordem e a serenidade» (As pequenas virtudes do lar, p. 22).

• Palavras dignas

Às vezes, parece que a linguagem, nos diversos ambientes, está se deteriorando depressa, não só pela pobreza gramatical, mas sobretudo pela admissão massiva da grosseria e da fala chula. É como se muitos achassem bonita uma cultura de chiqueiro e lupanar.

Todos concordamos em que as palavras atenciosas e delicadas – sem artifício nem barroquismo – criam um clima amável e dão alegria ao convívio. Quando as palavras despencam na baixeza, também se deteriora o trato mútuo, e afunda o sentido moral e a fineza da consciência.

• Negativas amáveis

Há pessoas que não sabem dizer não, e assim complicam a vida própria e a alheia. Porque às vezes é necessário dizer não. Além da negativa enérgica perante o que ofende a Deus e mancha a consciência, há outras negativas necessárias em relação a coisas boas em si mesmas, mas que – tendo em conta o tempo e as circunstâncias do momento – podem causar uma desordem, um abandono do dever ou um prejuízo a outros.

É o caso, por exemplo, de convites ou compromissos – mesmo relativos a matérias boas e até religiosas – que, se aceitos, impediriam de cumprir devidamente deveres familiares ou profissionais importantes. É expressivo um velho ditado hispânico: «A mulher que pela Igreja deixa a panela queimar, tem a metade de anjo, do diabo a outra metade». É claro que isso não pode ser alegado como desculpa esfarrapada para fugir de tarefas apostólicas ou caritativas que, se tivéssemos mais ordem e espírito de sacrifício, seriam perfeitamente compatíveis com os demais deveres.

O importante é saber dizer não de modo amável.

Lembro o caso daquele padre octogenário, meu amigo, que quando uma pessoa ia pedir-lhe confissão na hora exata em que já se encaminhava paramentado para o altar a fim de rezar a Missa, não respondia asperamente.

Sorria e dizia, em tom afetuoso: “Claro! Com todo o prazer! Veja. Agorinha estou indo rezar a Missa, mas logo, logo, ao terminar, vou atender com todo prazer a senhora nesse confessionário ao lado”.

• Palavras que trazem Deus

São as mais “amáveis”, desde que não se trate de um “sermão” inoportuno. Serão boas e amáveis se brotarem de um afeto conhecido e sentido pela pessoa que ouve, se forem ditas na hora certa e não intempestivamente, e ainda se corresponderem a um exemplo pessoal que cativa. Então, sim, é imensamente amável procurar despertar nos outros – em confidência, a sós – a sede de Deus, o desejo de conhecer a sua Palavra, o propósito de orar, de ler um livro de formação cristão, de participar da Santa Missa e de um grupo de espiritualidade, de procurar um orientador espiritual, etc.

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• Palavras sem voz

tornar_a_vida_amavelNão estou me referindo aos e-mails, WhatsApps, “torpedos” ou cartas, que afinal são palavras com voz escrita. Refiro-me a outro tipo de linguagem. Quantas coisas podem ser ditas com a expressão facial, com um olhar, um sorriso, um gesto!

Todas essas formas de comunicar-nos, muito vivas, são facas de dois gumes. Podem “dizer” coisas horríveis(de ódio, de desprezo, de nojo, de repúdio) ou coisas amáveis (de amor, de pena, de serenidade, etc.).

Vale a pena pensar numa dessas formas de linguagem sem palavras que, no dizer dos estrangeiros que nos visitam, é caracteristicamente brasileira, graças a Deus: o sorriso aberto. Peço a Deus que o nosso povo não o perca nunca, apesar de que não faltam os que querem promover – ideológica e praticamente – o ódio, a discórdia e as lutas entre irmãos.

Lembre-se sempre do que dizia, e praticava, um santo dos nossos dias – São Josemaria –, que, por sinal, ficou cativado pelo nosso país (não é ufania, é verdade):«Não esqueças que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes» (Sulco, n. 57).

Que olhar amável, que sorriso, que gesto de bondade recebem de você os que o encontram todos os dias?

Retirado do livro: “Tornar a Vida Amável”. Padre Francisco Faus. Ed. Cléofas e Cultor de Livros.

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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