Festa de Nossa Senhora da Piedade

matrizlorenaA Diocese de Lorena/SP, e outra dioceses, celebram hoje a Festa de sua excelsa Padroeira, no mesmo dia da Solenidade de Nossa Senhora Assunta ao Céu. Ambas as comemorações trazem um significado especial. A Virgem Maria sofreu ao pé da Cruz de Jesus a sua “compaixão” indescritível, e por isso também teve os méritos da Sua Assunção gloriosa.

Que poderia descrever todo o sofrimento da Virgem Maria ao ver seu Filho morrer na cruz, coberto de sangue, flagelado em todo o seu corpo, tendo a divina cabeça coroada de espinhos, Ele que é o Rei dos rei e Senhor dos senhores? Como descrever a dor daquela que recebeu nos seus braços o seu divino Filho, desfigurado, aniquilado, destruído radicalmente! O profeta Isaias o descreveu como Aquele que: “Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores… como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas” (Is 53,3-5).

A Virgem Maria certamente não entendia todas as razões de todo aquele sofrimento e aniquilamento do Seu Filho amado, mas, certamente, na fé que não duvida dos planos de Deus, tudo aceitava, mesmo debaixo de lágrimas. O Evangelista São João diz que Ela estava ali, “aos pés da Cruz”, e “de pé” (stabat), sem desespero, sem revolta, perdoando os algozes de Seu Amado, oferecendo-O por cada um de nós. E Jesus fez Dela a Mãe de cada um daqueles que Ele redimia com o Seu Sangue: “Mulher, eis ai o teu filho” (João 19,26).

Cumpria-se ali no Calvário para a Virgem Imaculada, a consumação de suas Sete Dores, e de modo especial o que o velho profeta Simeão lhe tinha anunciado naquela profecia enigmática e assustadora, quando Ela apresentou o Menino Jesus no Templo: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2,34-35).

A Senhora da Piedade foi representada belamente por Michel Ângelo, em um monobloco de mármore, com Jesus aniquilado e morto nos seus braços. Talvez seja a obra de arte mais bela da humanidade e mais significativa. O Filho Divino descansa nos braços da Mãe depois de cumprir a Sua missão redentora da humanidade: “Consumatum est!”

Será que alguma mulher neste mundo teve mais motivo para estar aflita do que a Virgem Maria aos pés da Cruz de Jesus? Porque ela soube superar na fé a agonia do Calvário, tornou-se para nós a “Consoladora dos Aflitos”.

No Calvário Maria vê Jesus ser crucificado, vê o sangue jorrar de Suas mãos e pés, a cruz ser levantada e participa da agonia indescritível de Seu amado Filho, até a morte. É o golpe mais cruel e mais profundo da espada predita por Simeão. Quem poderia sofrer um martírio maior que este? Maria assiste a todo o requinte da malvadeza humana contra Jesus; Suas feridas abertas, a horrível tetania, febre ardente, sede horrível… Ela não morreu naquela hora porque a onipotência de Deus a sustentava “de pé aos pés da cruz” (Jo 19,25). A Nova Eva, a verdadeira Mãe dos viventes oferecia na “árvore da cruz” o fruto de seu ventre, para destruir o pecado daquela que ousou comer do fruto da “árvore proibida”.

No Calvário todo o martírio de Jesus tornou-se também martírio de Maria. Tudo aquilo era necessário para salvar o mundo, para pagar ao Pai o débito do homem culpado. Bastaria uma gota do Seu sangue divino para salvar o homem, mas o homem não teria sentido a grandeza de sua culpa.

Cada mãe que sofre deve sofrer como Maria, na fé, sabendo que suas lágrimas serão transformadas em salvação. Meditando as dores da Virgem, cada um de nós encontra alívio para as suas dores. Com Cristo ela rezou pelos que O crucificavam, e os perdoou. Aos pés da Cruz recebia de Jesus toda a humanidade que ali era salva do inferno. Da primeira vez, para salvar o Filho da morte, ela aceitou fugir com Ele para o exílio do Egito, agora, para salvar a humanidade do inferno, ela consente na morte do Filho. Mas só Deus sabe quanto custou esse consentimento.

Disse o Papa Pio XII na Encíclica Mystici Corporis de Pio XII, em 29 de junho de 1943: “Foi ela, a Imaculada, isenta de toda a mancha original ou atual, sempre intimamente unida com seu Filho, que, como outra Eva, juntamente com o holocausto dos seus direitos maternos e do seu materno amor, ofereceu-o no Gólgota ao Eterno Pai por todos os filhos de Adão, manchados pela sua queda miserável; de modo que a que era, fisicamente, Mãe da nossa divina cabeça foi, com novo título de dor e de glória, feita espiritualmente Mãe de todos os seus membros. Ela, finalmente, suportando com ânimo forte, e absolutamente confiante nas imensas dores, verdadeira Rainha dos mártires, mais que todos os fiéis, “completou o que falta à paixão de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24) e assistiu o corpo místico de Cristo, nascido do Coração rasgado do Salvador, com o mesmo amor e solicitude materna com que amamentou e acalentou, no berço, o menino Deus”.

Ninguém, depois de Jesus, sofreu mais que Maria. Ela teria sofrido menos se pudesse morrer com seu Filho; mas para que seu martírio fosse completo, foi preciso que visse Jesus agonizar crucificado, levantado por três longas horas entre o céu e a terra. Foi preciso que ela o visse gemer, morrer… e ela vivesse. Ela sofreu a Com-paixão!

S. Bernardo disse que “Ela é mártir e mais que mártir”. Jamais um coração humano poderia suportar dor tão grande e continuar vivo.

No dia da Apresentação do Menino Jesus no Templo, ela ofereceu a Deus o “sacrifício da manhã”, no Calvário ofereceu o “sacrifício da tarde”, sacrifício que se renovará todos os dias sobre o altar até o Senhor voltar na sua glória, para aplicar a cada alma as graças necessárias para a salvação merecidas por ele sobre a cruz.

Maria não é sacerdote no sentido ordinário da palavra, mas é vítima com o seu Filho, e, como disse João Paulo II: “foi a que mais cooperou com a obra da Redenção”. Sua cooperação não aumenta o valor nem a eficácia do sacrifício de Jesus, cujos méritos infinitos são mais que suficientes para o resgate da humanidade das mãos do demônio; mas traz a parte de sacrifício e de reparação que a humanidade deve acrescentar como prova de boa vontade; não podendo salvar-se a si mesma, deve “completar na carne a paixão de Cristo no seu corpo que é a Igreja” (cf. Cl 1, 24).

Por vontade de Deus, cada cristão deve ser redentor. É Jesus quem salva o homem, mas com a condição de que ao lado da reparação infinita o homem coloque a sua pequena reparação pessoal, fruto de seu arrependimento e do seu amor a Deus.

Ninguém se santifica sem sofrer; não é preciso que procuremos o sofrimento, basta apenas aceitá-lo na fé quando ele vier; saibamos suportá-lo de maneira digna e meritória, silenciosamente, como Maria, certo de que ele nos salvará e poderá salvar outros. O sofrimento adquire o valor que lhe dá quem o sofre. Por isso, só o cristão sabe sofrer. Que a Virgem do Calvário nos console e fortaleça em nossas agonias. Que Ela abençoe a nossa Diocese e o nosso Brasil.

Prof. Felipe Aquino

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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