Encontram quase intacta antiga pintura mariana de igreja incendiada na Califórnia

De acordo com o site ACI, a Arquidiocese de Los Angeles (Estados Unidos) informou há alguns dias que uma pintura histórica de Nossa Senhora das Dores se salvou de ser queimada após o incêndio de uma igreja missionária na Califórnia, ocorrido há mais de três meses.

A igreja da Missão São Gabriel Arcanjo, fundada por San Junípero Serra em 1771, foi queimada em 11 de julho, deixando o telhado e o interior do prédio destruídos. Embora as causas do incidente ainda sejam desconhecidas, o caso está sendo investigado como incêndio criminoso.

Em setembro, trabalhadores encontraram uma das duas pinturas históricas de Nossa Senhora das Dores da Igreja da Missão de São Gabriel debaixo de uma viga transversal queimada. A imagem, que representa a Virgem Maria em uma paisagem sombria e escura, está intacta e apresenta apenas pequenos danos e, segundo informam, foi a única obra de arte remanescente na igreja que sobreviveu ao incêndio.

A outra pintura da mesma invocação mariana, que está ligada a um suposto acontecimento milagroso, está a salvo há vários meses, pois fazia parte das obras de arte que foram retiradas do templo para iniciar uma obra de restauro. O projeto estava programado para ser concluído antes do jubileu de 250 anos da Missão de São Gabriel, a ser celebrado em setembro de 2021.

De acordo com Angelus News, devido à magnitude do incêndio, foram necessários 50 bombeiros para apagá-lo. A restauração da igreja ainda está em fase de remoção dos escombros, e acredita-se que uma reconstrução completa levaria pelo menos um ano. Até o momento, graças a generosas doações, a Arquidiocese de Los Angeles arrecadou cerca de 200 mil dólares para ajudar a reconstruir a igreja.

Recentemente, o Museu de Arte do Condado de Los Angeles realizou um inventário das obras de arte da Missão de São Gabriel indicando que a pintura mariana resgatada do incêndio seria do século XVIII, embora a data exata do afresco e a identidade do pintor ainda sejam desconhecidas.

A outra pintura de Nossa Senhora das Dores, denominada “La Dolorosa”, que protege a Missão de São Gabriel, está associada a um suposto acontecimento milagroso ocorrido por volta do ano de 1771, quando por intercessão da Virgem Maria foi possível salvar o Missão da destruição.

Naquela época, soldados espanhóis que residiam na área ocasionalmente provocavam sérios conflitos contra a população indígena Tongva. Por exemplo, em uma ocasião, um soldado espanhol estuprou duas mulheres indígenas.

Por sua vez, os missionários católicos espanhóis muitas vezes não compartilhavam os mesmos objetivos, táticas e valores que os militares espanhóis, como é o caso dos franciscanos que fundaram a Missão de São Gabriel. Eles queriam se dissociar dos soldados e então decidiram mudar a missão para outro local a cerca de cinco quilômetros de distância.

O sacerdote franciscano São Junípero Serra (1713-1784) protestou contra os delitos dos soldados e escreveu ao vice-rei espanhol que “uma praga de males” havia desatado em São Gabriel.

Infelizmente, os missionários pouco puderam fazer para deter as más ações dos soldados. A comunidade indígena Tongva, indignada com os abusos dos soldados, a certa altura também enfrentou a Missão de São Gabriel e foi então que ocorreu o evento milagroso.

“Os missionários saíram com um estandarte de Nossa Senhora das Dores e o desdobraram, e os nativos [Tongva] foram literalmente pacificados naquele instante. Há muito tempo, isso foi interpretado como um milagre para essa comunidade”, disse o arqueólogo e professor da Universidade Estadual da Califórnia, na Baía de Monterey, Dr. Rubén Mendoza, à CNA – agência em inglês do Grupo ACI – no início deste ano.

Segundo uma biografia de São Junípero Serra, assim que a comunidade de Tongva viu a imagem de Nossa Senhora das Dores, “largaram seus arcos e flechas, e os dois chefes correram para colocar aos pés da Rainha Soberana as contas que carregavam ao redor de seus pescoços para mostrar sua grande estima”.

Acredita-se que a intercessão de Nossa Senhora das Dores por meio da pintura tenha salvado a Missão de São Gabriel na época, disse Mendoza. Com o tempo, a igreja se tornou uma das missões mais bem-sucedidas e produtivas da Califórnia e, em 1781, formaria o centro da cidade de Los Angeles.

Diva Zumaya, especialista em arte do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, acredita que a pintura exibida para os Tongvas foi pintada muitas vezes anos após sua criação.

Muitas das outras peças de arte que a Missão de São Gabriel resguarda foram criadas pelo povo Tongva, e entre elas está um conjunto de Via-Sacra. Muitas dessas peças, incluindo uma imagem da crucificação na décima segunda estação, mostram Cristo e a Virgem Maria como indígenas californianos.

Para Anthony Morales, chefe tribal do povo indígena da Missão de São Gabrielino e paroquiano de São Gabriel, os danos causados ​​à igreja pelo incêndio foram mais do que materiais.

“Essas são minhas raízes”, expressou com tristeza Morales a Angelus News, enquanto inspecionava a cena horas depois de o incêndio ter sido controlado.

“Esta é a minha igreja. Todos os meus ancestrais estão enterrados no cemitério ao lado. Seis mil de meus ancestrais estão enterrados neste local, e esta é a igreja que eles construíram. É muito devastador”.

Viajando a pé por quase todos os lugares e praticando várias formas de automortificação, São Junípero Serra fundou igrejas missionárias ao longo do litoral. Para ser exato, foram as primeiras nove das 21 missões que existem no que hoje é a Califórnia, muitas das quais formariam o núcleo do que hoje são as maiores cidades do estado. O Papa Francisco canonizou São Junípero Serra em 2015, durante uma visita aos Estados Unidos.

Os espanhóis ensinaram aos nativos novas técnicas agrícolas, instruíram-nos na fé e realizaram milhares de batismos. São Junípero defendeu os direitos dos povos indígenas a ponto de redigir uma “declaração de direitos” de 33 pontos para os nativos americanos que viviam nos assentamentos da missão. Além disso, acompanhou outro missionário da Califórnia à Cidade do México para apresentar o documento ao vice-rei.

Este ano, as estátuas de São Junípero foram alvo de manifestações em toda a Califórnia. Muitas dessas imagens foram derrubadas ou destruídas por manifestantes em “protesto” contra o passado colonial da Califórnia.

Há poucos dias, um grupo de ativistas em San Rafael, Califórnia, desfigurou uma estátua de São Junípero Serra em uma propriedade privada. Os agressores o vandalizaram com spray vermelho antes de arrancá-la de suas fundações.

Em 19 de junho, cerca de 100 pessoas derrubaram uma estátua de São Junípero no Golden Gate Park, em São Francisco, e no mesmo dia outra estátua do santo foi demolida em Los Angeles.

Em 4 de julho, os manifestantes derrubaram e desfiguraram uma estátua do santo em Sacramento. Esse fato fez com que, no dia seguinte ao ataque, um católico local instalasse no pedestal vazio da estátua um altar improvisado dedicado a São Junípero e também conduzisse outros católicos na limpeza da tinta espalhada no local.

Algumas instituições da Califórnia, como a Universidade de San Diego, guardaram suas estátuas de São Junípero Serra para protegê-las desses ataques. A Missão de São Gabriel foi uma das missões que, pouco antes do incêndio, guardou as imagens de São Junípero que custodiava.

Publicado originalmente em CNA. Traduzido e adaptado por Natalia Zimbrão.

Fonte: https://www.acidigital.com/noticias/encontram-quase-intacta-antiga-pintura-mariana-de-igreja-incendiada-na-california-28057

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Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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