Bento XVI: no dia da minha ordenação me esqueceram na frente da igreja

Segundo o ACI Digital (16/08/2021), o texto a seguir é uma tradução do texto do papa emérito Bento XVI escrito para o 70º aniversário de sua ordenação sacerdotal, celebrado neste 2021. O texto foi publicado no último dia 8 de julho no jornal Trausteiner Tagblatt.

Minhas recordações dos dias da minha ordenação e de minha primeira missa, faz 70 anos, começam em Hufschlag. Na verdade, não era uma cidade de verdade, não havia nem igreja, nem escola, nem polícia, mas havia uma pousada, uma agência do correio e uma estação de trem.

No dia da nossa ordenação sacerdotal, 29 de junho de 1951, muito cedo toda Hufschlag estava esperando a partida de meus pais e da minha irmã. Devia ser cerca de quatro da manhã. Quando o táxi com eles três partiu, Hufschlag se apressou à nossa casa, que decoraram esplendidamente para nos receber. Quando chegamos, por volta das nove, mal se reconhecia. Papai a havia feito repintar e tinha reformado a entrada. De manhã cedo os habitantes de Hufschlag tinham erguido um arco triunfal na entrada do jardim e enfeitado maravilhosamente de plantas a casa inteira. Quando, depois, entramos, à tarde, descobrimos que tudo no interior também tinha sido arrumado. A costureira de nossa mãe e uma amiga estavam esperando e tinham preparado uma ceia maravilhosa.

Nossa chegada a Traustein, por volta das 18hs, foi festiva e belíssima. As ruas estavam cobertas de guirlandas. Meu irmão perguntou se havia uma grande festa em Traustein. O motorista se limitou a responder espantado: “Com certeza!” A massa de gente logo mostrou inequivocamente qual festa se celebrava em Traustein.

Nosso amigo Rupert Berger já tinha chegado e estava esperando com o resto do clero paramentado.

Depois da maravilhosa celebração na igreja de Santo Osvaldo houve um pequeno contratempo. Meus pais e minha irmã já tinham ido na frente para Hufschlag. Era claro para todo mundo que também nós _meu irmão e eu_ precisávamos de um tipo de veículo qualquer para voltar para casa, mas todos pensavam que seríamos levados por um carro oficial. Obviamente não era o caso, e assim nós dois nos vimos sozinhos na frente da igreja paroquial. Tínhamos ficado sabendo que o cortejo festivo iniciado em Hallabruck foi rapidamente interrompido porque perceberam que os dois que se devia acompanhar não estavam.

A mesma tristeza que se abateu sobre nós dois em frente a Santo Osvaldo em Traunstein se estendeu também ao cortejo festivo. A solução chegou de um modo um tanto inesperado: um advogado do tribunal distrital de Traunstein, que minha irmã conhecia como secretária de advogados, passou com seu carrinho particular, nos viu, parou e perguntou se precisávamos de ajuda. Dissemos que sim com alegria. O advogado pediu desculpas pelo seu carrinho pequeno, mas, se pudesse ser de alguma ajuda, estava obviamente feliz em poder ajudar.

Assim chegamos, em um carro inesperadamente pequeno, à multidão à espera, espantada com o veículo completamente informal, mas feliz de ver que o cortejo podia se pôr a caminho.

O dia da nossa primeira missa, 8 de julho de 1951, começou às quatro da manhã com tiros de canhão, coisa não óbvia na Alemanha do imediato pós-guerra. Nosso vizinho de Hufschlag, o representante Lois, tinha estado no campo de concentração durante todo o período nazista e, por isso, recebia compensação econômica. Quase tão importante para ele era o fato de que ter sido o único nesse primeiro pós-guerra a poder receber explosivos, que usava para arrancar árvores velhas do terreno.

Quando veio o dia de nossa primeira missa era chegada hora para esse privilégio do pós-guerra: segundo o uso antigo, as grandes festas, particularmente as visitas dos chefes de Estado, eram abertas com tiros de canhão. Para eles era claro que nossa primeira missa satisfazia os padrões mais elevados. Assim, começou-se o dia com um fragor festivo que acordou a todos e deixou todos felizes.

No dia 8 de julho eu e meu irmão tínhamos celebrado nossa primeira santa missa na igreja de Santo Osvaldo. Tínhamos combinado que às sete da manhã eu celebraria uma missa festiva com os jovens católicos, enquanto meu irmão faria o serviço festivo dominical com a missa cantada às nove em ponto. Pedi ao docente de Freising Alfred Läpple para ser meu pregador. Então interveio nosso pastor Georg Els, que era um pregador famoso e importante.

Sua maneira despreocupada de falar com seus paroquianos de Traunstein seguramente espantou os hóspedes que vinham de fora. Entre outras coisas, disse que as pessoas deviam cantar com mais vigor e não só deixar que um camundongo qualquer emitisse sons do lado do coro.

A festiva primeira missa foi seguida de uma refeição na cantina Sailer e depois da pregação de agradecimento na igreja de Santo Osvaldo, um forte temporal concluiu as festividades.

Fonte: https://www.acidigital.com/noticias/bento-xvi-no-dia-da-minha-ordenacao-me-esqueceram-na-frente-da-igreja-32738

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Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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