A humildade de Jesus na Eucaristia

Esta reflexão foi baseada nas obras São Pedro Julião Eymard, sobre a Sagrada Eucaristia.

Jesus esconde a sua Glória na Eucaristia para que o brilho de sua Majestade, como o rosto brilhante de Moisés, não ofusque a nossa vista impedindo-nos de chegar a Ele. Tudo para podermos nos achegar a Ele sem medo.

Jesus desce até ao nada na Hóstia para que desçamos com Ele e sintamos profundamente o que Ele disse: “vinde a Mim… aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.

Jesus nos ama tão radicalmente na Eucaristia que se submete a nós em tudo. Ele desce do Céu tão logo o sacerdote pronuncia as palavras da Consagração. Ele obedeceu silencioso os seus carrascos e está pronto novamente para receber o beijo dos novos Judas, por amor a nós.

Na Eucaristia perpetua-se a Paixão do Senhor; ali Ele a vê renovada diariamente. Muitas vezes Ele é traído pela apostasia, crucificado pelo vício, flagelado pelas ingratidões e pecados; e, muitas vezes Jesus renova o seu Calvário nos corações que o recebem em pecado mortal ou com indiferença. O Rei da Glória se rebaixa ao mais baixo degrau da humildade para deixar-nos o seu exemplo.

Este estado humilde e escondido de Jesus anima a nossa fraqueza, nos dá coragem de falar-lhe sem receio e contemplá-lo. Ele se esconde para que a Sua Glória não nos atemorize. Se nem mesmo conseguimos olhar o Sol do meio dia, quando mais poderíamos contemplar a Glória do Rei do Universo? Deus é um fogo consumidor, como disse Moisés.

Jesus se esconde na Hóstia para que os bons, mas também os maus, se aproximem dele. Quem de nós não temeria, por seus pecados, chegar-se a seus pés. Quem sabe só os orgulhosos teriam a ousadia de se aproximar Dele. Então, escondido, Ele não assusta ninguém, pois quer socorrer a todos. A glória assusta, amedronta, ensoberbece, mas não converte. Os judeus, aos pés do Monte Sinai fumegante tornaram-se idólatras, adoraram o bezerro de ouro diante da glória de Deus. Os Apóstolos, diante de Jesus transfigurado, perderam um pouco dos sentidos e da lógica. É melhor que Jesus permaneça humilde e velado; assim poderemos aproximar-nos Dele, sem medo e sem ser repelido; e poder, então, desfrutar do seu Amor.

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Na Eucaristia Jesus se fez o último dos pobres para poder estender a mão ao menor de todos e dizer “Sou teu irmão”. Como o pobre Ele não tem honra, não tem defesa, tem poucos amigos e, para muitos, é um estranho, um desconhecido. E não foi o Tabor que converteu o mundo, foi o Calvário. O amor se manifesta e opera, não pela glória, mas pela bondade e humildade.

O amor se manifesta em bondade e humilhação, escondendo-se, aniquilando-se; rejeita a glória e os aplausos, oculta-se e desce. Assim fez Jesus ao encarnar-se; assim Ele fez na gruta de Belém, no silêncio de Nazaré, na tentação do deserto, no Calvário, na Eucaristia. O aniquilamento é o traço característico da vida de Jesus também na Eucaristia. Ali ele recebe a todos, pobres e ricos, simpáticos e antipáticos, bêbados e drogados, cultos e analfabetos, limpos e sujos, sem reclamar de ninguém.

Jesus é tão frágil na Eucaristia que basta consumir a Hóstia, ou dissolvê-la em água, ou ser estragada pelo tempo, para que o Sacramento se desfaça.

Ele que em vida foi tão belo – “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44,3), tem a sua Beleza toda escondida.

Ainda mais, Ele que é a Vida, e que dá a vida e o movimento para todos os seres, condena-se a permanecer inerte, sem ação, “prisioneiro dos nossos sacrários”, e se reduz ao ponto de estar inteiro no menor fragmento da Hóstia.

Quanto aniquilamento amoroso que nos faz corar de vergonha diante de nossas exibições, aparências, exigências, julgamentos, condenações …

Jamais Ele se defende ao ser insultado e nunca revida quando é escarnecido. Isto não porque não pode, é por que não quer. Ele poderia do seu silêncio fulminar os sacrílegos que os arrastam para as missas negras ou o recebem sem “distinguir o seu Corpo e o seu Sangue”. Ele continua a repetir as palavras que disse a Pedro ao ser preso no Horto da Agonia: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente doze legiões de anjo?” (Mt 26,53). “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me der?” (Jo 18,11).

Na Eucaristia Jesus continua a beber o cálice que o Pai lhe deu, muito além da sua exigência. Bastava o Calvário para salvar-nos, mas Ele quis chegar ao “Calvário” do Sacrário, por nós.

Fico pensando nas Hóstias que se perdem, por acidente ou abandono; quando apodrecem, os vermes a invadem e expulsam Jesus, pois Ele só permanece nas espécies enquanto elas estão intactas. Isto faz-nos lembrar as palavras do Profeta sobre Jesus: “Não sou mais um homem, porém um verme!” (Sl 21,7).

De fato Jesus desceu ao último degrau da criação na Eucaristia, pois, por não poder perder a substância própria, Ele se reveste exteriormente das simples espécies do pão e do vinho; é um enorme rebaixamento.

Aniquilando a sua Glória na Eucaristia Ele está como que nos dizer: “Sede humildes!”. Mas o aniquilamento de Jesus é positivo, produz frutos de salvação e dá glória a Deus. A humildade perfeita é a que devolve todo o bem a Deus, como a Virgem Maria. “Ele fez maravilhas em mim, Santo é o Seu Nome”. (Lc 1,49).

Ser humilde é reconhecer que sem Deus não somos nada e não podemos nada. Quanto mais subimos na graça, mais descemos na humildade. É com humildade que se deve exercer o poder.

Das lições de Jesus eucarístico, a mais forte parece a que nos ensina a esconder dos homens os nossos padecimentos, para que não se apiedem de nós e nos louvem, o que seria um grande mal. Ele nos ensina a ocultar os bons atos e não receber louvores merecidos. Importa antes mostrar apenas a parte fraca das nossas obras.

Quanto mais nos rebaixamos, mais Jesus Cristo cresce, como disse João Batista: “importa que Ele cresça e eu desapareça” (Jo 3,30).

Jesus é modelo de humildade na Eucaristia; não sente a menor indignação com quem o despreza, o injuria, ou o abandona; de todos se compadece porque a todos quer salvar e socorrer; antes se entristece pelo pobre estado dos pecadores. Esta é a humildade dos que desejam ajudá-lo a salvar almas.

Jesus é manso; não se irrita. Nós, ao contrário, irritamo-nos muitas vezes, por pensamentos e julgamos apressadamente as pessoas sob a nossa ótica pessoal, e muitas vezes abatemos a quem se opõe a nós.

Estamos ainda longe da mansidão do Cordeiro imolado e sacramentado. Somos traídos pelo amor-próprio, que só vê os próprios interesses. Felizmente Jesus não julga-nos senão segundo a Sua mansidão e misericórdia. Ele que é a Verdade, esperou a hora do Pai, e honra-o pelo silêncio e humildade. Essa mansidão continua na Eucaristia.

Pelo amor. Quanto mais amamos Jesus eucarístico, mais seremos semelhantes a Ele. O seu amor destruirá o nosso amor-próprio, a razão de toda a nossa cólera, raiva, impaciência, mau humor, violência, aspereza com as pessoas, sensualidade, orgulho, desejo de se mostrar, de ser honrado, etc.

Prof. Felipe Aquino

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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