A humildade de coração

humilityO reino de Deus no céu é uma família, e na família, entre o Pai e a Mãe, só há lugar para os filhos!

A humildade de espírito é um começo. A verdadeira humildade é a do coração.

A humildade de coração consiste em aceitar pela vontade o conhecimento que a razão nos dá da nossa miséria absoluta.

Parece fácil ao homem, que conhece o seu nada, aceitá-lo pela vontade.

Os anjos rebeldes, contudo, não puderam acostumar-se com a ideia de prestar obediência a Deus: queriam ser iguais a Ele. E Eva, a primeira mulher, desejava também ser semelhante a Deus e conhecer, como Ele, o bem e o mal.

E, desde aquele tempo, quem não aspira, à sua maneira, ser independente de Deus, ao menos em alguma coisa?apraticadahumildade

A humildade de coação é oposta ao orgulho da vontade.

O orgulhoso não aceita a ideia do seu nada; revolta-se contra Deus. Às vezes, a revolta é declarada, tem por fim destronar Deus, o Rei soberano, e colocar-se no seu lugar. É o pecado mortal negando a Deus o direito de ser o último fim de toda criatura.

Outras vezes, a revolta só é esboçada, é um ato de insubordinação em presença de Deus em coisas secundárias, murmuração contra o Todo-Poderoso, uma crítica ou, pelo menos, um dar de ombros. É o pecado venial.

O coração humilde não se revolta contra Deus. Aceita o nada de seu estado. Longe de se afligir, experimenta um prazer íntimo em se ver desprovido de todo bem, contanto que Deus seja rico.

Como o avaro conta os seus tesouros, assim o coração humilde conta as suas múltiplas necessidades; como o orgulhoso ostenta as suas qualidades, assim o humilde apresenta a Deus suas incapacidades; como o mundano saboreia os louvores, assim a alma escondida saboreia a má opinião que fazem dela, o esquecimento em que a deixam, o desprezo com o qual a perseguem.

O orgulhoso está descontente com Deus. Inverte tanto quanto pode a ordem eterna estabelecida pelo soberano Senhor. Quereria restabelecê-la a seu modo, para ocupar um lugar mais honroso. Aliás, não somente quereria, mas trabalha aos pés seus semelhantes ou superiores, como outros tantos obstáculos à sua ambição. Calunia-os, menospreza-os, persegue-os até que os tenha repelido.

Emprega toda a sua vida em lutar contra sua vontade superior infinitamente poderosa, e parece ignorar que esta vontade, sendo a de um Deus, deve finalmente triunfar, esmaga-lo e dissipar seus insensatos sonhos de grandeza.

Assim lutava Lúcifer contra o Todo-Poderoso; assim, preferia ser para sempre condenado do que confessar sua dependência em face de Deus.

Como o orgulho é um monstro horrível!

O coração humilde, ao contrário, não somente aceita seu absoluto nada, mas se alegra de nada ser, contanto que Deus seja tudo.

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A Prática da Humildade

“Se eu fosse Deus”, dizia santo Agostinho dirigindo-se a Nosso Senhor, “e Vós fósseis Agostinho, eu quereria ser Agostinho para que Vós fósseis Deus”.

Tal é o desejo habitual de toda alma humilde: não tenho nada, diz ela, e por isso estou tão contente que, se eu possuísse algum bem, eu vo-lo quereria ceder, para que Vós possuísses tudo.

Essa disposição habitual produz nela uma grande paz. Nada sendo, pode, sem segunda intenção, mergulhar na infinidade de Deus, aí se perder como um pequenino átomo, sentir-se repousar entre os braços do seu Pai do céu, com toda a segurança.

Em compensação, como é infeliz o orgulhoso em guerra com Deus: Deus é sábio em seu coração e poderoso, quem pode afrontá-lo impunemente? (Jó 9, 4).

Não é necessário que o Todo-Poderoso, na sua eternidade, entre em luta com este grão de areia que se revolta contra Ele. E o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos (Sab 5, 20). O universo inteiro ergue-se contra o soberbo como um exército em ordem de batalha para aniquilar lhe os planos insensatos e vingar a honra de Deus.

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Por que devemos ser humildes?

Vede este orgulhoso que na sua vida, nas suas palavras e relações alardeia pretensões, desconhece ou despreza os outros. Imediatamente, desconhecem-no por sua vez, suscitam-lhe dificuldades, criam-lhe mil embaraços. Ridicularizam-no, arruínam sua reputação, excluem-no de toda companhia.

Essas pequenas picadas de mil vespas atormentadas por sua pretensão vão envenenar a vida do soberbo e vingar, sem o saber, a honra lesada do Onipotente.

Não está dito que Deus enviou contra os orgulhosos inimigos de Israel um enxame de vespas, que desbarataram e puseram em fuga todo o exército (cf. Sab 12, 8)?

Como é bom amar a verdade e reconhecer seu nada.

Que segurança não poder dar um único passo sem Deus, não poder produzir nenhum ato proveitoso sem seu auxilio!

Que doce prazer haveria para o filho carregado por sua mãe, se pudesse compreender sua total dependência dela.

Parece-me que este filho, se compreendesse sua felicidade, não quereria crescer nunca para ser sempre carregado por sua mãe.

E quantos seriam os seus alarmes, se previsse que um dia a mãe não quereria mais conservá-lo nos braços, que o obrigaria a andar sozinho, que lhe diria para cuidar de si próprio e passar a sua vida sem ela!

Felizmente, esses alarmes nunca serão os nossos. Na vida espiritual, perto de Jesus e Maria, somo sempre – graças à humildade de coração – completamente criancinhas.

Deus criou-nos fraco e desprovidos de tudo, a fim de ser o nosso Pai, carregar-nos nos seus braços, nutrir-nos e defender-nos.

Que alegria mais íntima pode experimentar o grande Deus do que ver seus filhinhos aconchegarem-se-lhe ao redor e encarregarem-lhe o cuidado de tudo.conquista

É por isso que ele disse: Quem for simples apresente-se! (Prov 9, 4) Se alguém é pequenino venha a mim. Não diz: “Se alguém é sábio, rico ou poderoso”. Não diz mesmo: “Se alguém é virtuoso, mortificado, elevado em contemplação”. Diz simplesmente: Se alguém é pequenino, completamente humilde, inteiramente persuadido do seu nada.

Se não vos tornardes semelhantes a criancinhas, diz, noutra parte, Jesus aos seus apóstolos, não só não ocupareis o primeiro lugar como também não entrareis no reino dos céus: Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus (Mt 18, 3). Como a lição é clara e absoluta!

O reino de Deus no céu é uma família, e na família, entre o Pai e a Mãe, só há lugar para os filhos.

Trecho retirado do livro: Almas Confiantes, José Schrijvers. Ed. Cultor de Livros

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Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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