Vontade de Deus é imutável – EB

2222BARRETO (São Paulo):

“Se a vontade de Deus é imutável, não adianta rezar. Oremos ou não, acontecerá aquilo que Deus já determinou”.

1) A dificuldade procede de imperfeito conceito de oração: facilmente se julga que esta é uma forma da qual dispomos para persuadir a Deus (…), para tentar mesmo incutir-Lhe violência e inclinar a sua vontade a fazer a nossa vontade (…). Está claro que tal noção não resiste a um exame ponderado: quem não rejeitaria a ideia de que a vontade de Deus se possa mudar? Toda mudança supõe imperfeição.

A. S. Escritura mesma afirma:

“Deus não é como os filhos dos homens; Ele não muda” (Núm 23,19).

“Eu sou o Senhor, e não mudo” (Mal 3,6).

Explorando a imutabilidade da vontade de Deus, os deitas do séc. XVIII rejeitavam a oração e apregoavam um tipo de religião em que as relações do homem com Deus tinham que ser naturalmente muito pálidas e frias. Fatalismo e desespero apoderam-se então das almas, com facilidade.

2) Será, porém, que o conceito de súplica acima proposto corresponde realmente a mentalidade cristã? Ter-se-á Cristo enganado ou haverá falado linguagem vã, quando dizia: “Pedi, e recebeis; procurai, e encontrareis; batei, e abir-se-vos-á” (Mt 7,7)

Na verdade, o cristão professa outra nação de súplica: sabe muito bem que a vontade de Deus é imutável e que por conseguinte, o Senhor dará ou deixará de dar aos homens aquilo que desde toda a eternidade Ele escolheu; o cristão, porém, sabe outros sim que Deus determinou não somente os objetos que Ele quer dar, mas também os instrumentos e as circunstâncias mediante os quais Ele quer dar; em outros termos: o modo como Deus concede suas graças, as causas segundas que Ele utiliza para dispensá-las, foram também desde toda a eternidade intencionadas pelo Altíssimo. Ora entre os meios que o Criador houve por bem associar à distribuição de seus dons, está a oração das criaturas. Donde se vê que esta em absoluto não é vã, mas, ao contrário, tem lugar imprescindível no plano de Deus.

3. Aprofundemos estas ideias, perguntando-nos porque terá o Onipotente determinado dar mediante a prece dos mortais.

O motivo é grandioso.

Todas as criaturas subsistem exclusivamente por dom de Deus. Os irracionais, porém, recebem sem ter consciência disto; desconhecem a munificência do Criador. – O mesmo não se dá com o homem. Este, dotado de inteligência, é capaz de reconhecer o contínuo influxo de Deus sobre a sua vida; por conseguinte, o Criador determinou que o homem receba as dádivas do Céu não à semelhança de um autômato, mas na qualidade de ser racional, consciente e sequioso do que recebe; ora a súplica é justamente a expressão da consciência e do desejo que o homem tem, de ser agraciado. A criatura que é capaz de reconhecer que ela só vive das esmolas de Deus, tem de pedir esmolas; a própria harmonia das coisas já por si nos sugere isto. Ademais sabemos que, desejando e, na medida do seu desejo, recebendo, o homem não pode deixar de valorizar mais o dom do Pai celeste; excitando e nutrindo santas aspirações, evita a rotina e a tepidez do espírito.

São Tomás expõe semelhantes ideias nos seguintes termos:

“Deus em sua liberdade nos concede muitas dádivas, sem mesmo que as peçamos. Em certos casos, porém, Ele quer dar mediante a nossa oração, porque isto nos é útil. Destarte, sim, adquirimos a confiança de recorrer a Ele e reconhecemos Deus como autor de nossos bens. Por isto diz S. João Crisóstomo: “Considera quão grande ventura te é concedida, quanta glória outorgada: eis que podes conversar com Deus pela prece, entrar em colóquio com Cristo, exprimir os teus desejos e aspirações” (Suma Teol. II/II 83, a. 2, ad 3).

4. À luz destas idéias, vê-se que a oração cristã não pretende, em absoluto, dobrar ou violentar a vontade de Deus (por vezes ouvem-se estas expressões mesmo entre cristãos piedosos; elas só se justificam, se tomadas em sentido impróprio ou metafórico). Na verdade, a oração, em vez de fazer que Deus desça às categorias por vezes mesquinhas dos planos do homem, faz que este se eleve aos desígnios de Deus, colaborando e identificando-se com eles. Mais brevemente: a oração tende a elevar nossa vontade à altura da vontade de Deus, a fim de que queiramos no tempo o que o Pai desde toda a eternidade decretou conceder-nos.

Por isto também, em última análise, toda oração cristã pede que seja feita a vontade de Deus tão perfeitamente na terra como no céu. O cristão pode, sem dúvida, especificar os objetos de seus pedidos – pão, casa, vestes, saúde, emprego, tais e tais graças espirituais… Mas, se ele deseja tais bens, deseja-os subordinadamente, deseja-os porque (segundo o limitado modo de pensar humano) lhe parecem oportunos para realizar melhor a vontade do Pai, que é certamente a santificação do orante e a glorificação de Deus. Estas devem ser as intenções dominantes de toda oração cristã; o discípulo de Cristo ora para colaborar na execução destes dois grandes objetivos.

Não se poderia inculcar demais a estrutura da prece cristã: ela deve visar sempre e acima de tudo a posse do Bem Infinito ou Deus felicidade que o Altíssimo nos quer dar acima de tudo (peçamos, pois, sempre e antes de mais nada, a graça da união com Deus e
da perfeição espiritual). Os demais bens podem-se tornar objetos de nossos pedidos, mas de maneira condicionada. As súplicas concebidas nessa atitude de mente nunca será inúteis: ser-nos-á lícito desejar pão, saúde, emprego…; mesmo que o Pai do Céu não haja por bem conceder-nos tais dons (por julgá-los pouco oportunos à nosso santificação), conceder-nos-á sempre o objetivo supremo das nossas preces, isto é, progresso na santificação e na união com Deus.

Confiança, pois, na oração! Embora Deus a pudesse dispensar, Ele, ao contrário, quis dar-lhe papel central em seu plano de distribuição de graças. E isto, a fim de dignificar os homens, tornando-os colaboradores com a sábia Providência Divina.

Revista: “Pergunte e Responderemos”
D. Estevão Bettencourt, osb
nº 17 – Ano 1959 – Pág. 185

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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