Vocação Missionária?

O que nos preocupa?

No dia a dia de nossa vida, estamos percebendo a importância da dimensão missionária e a necessidade de estarmos aprofundando o seu sentido para a nossa vida e como vamos, na experiência do ir ao encontro do outro, descobrindo a importância de sair de nós mesmos para assumir o projeto de Deus.

Acompanhando a experiência missionária com os seminaristas de Santarém e de outras dioceses do Brasil, refletindo sobre a dimensão pastoral-missionária na formação dos seminaristas e na formação permanente dos presbíteros e os desafios que vamos encontrando; e mergulhando no Evangelho, podemos nos perguntar: como trabalhar as motivações mais profundas para que o espírito missionário tome conta da vida do cristão, de quem é chamado à vida consagrada e do seminarista, do diácono, do padre e do bispo? Creio que, no tocante à formação de ministros ordenados, o desafio está em formar missionários que sejam diáconos e presbíteros; isto é, colocar, de tal forma o acento no ser missionário, que a vida missionária não apareça como um complemento secundário.

Relato de uma visita ao interior da Diocese de Santarém:

No dia 14 de junho 2011 saí de Santarém até a vila de Boa Vista do Cuçari. Foram cinco horas em barco. Como estava chovendo e a estrada em lamentável estado de conservação, subimos na carroceria de uma “camioneta” que já fazia medo somente ao olhar. Éramos dezessete pessoas amontoadas em pé, juntamente com as bagagens. Depois de uns quatro quilômetros, a “camioneta” não pôde seguir adiante. A pés, com a mochila às costas, fomos marcando passos em meio à lama, aos buracos e “lagoas” até encontrar o ônibus que nos levaria até a vila de Santa Maria do Uruará. Foram três horas de viagem, sendo que a última hora o ônibus já não tinha mais luz e o motorista aproveitava da claridade da lua para não deixar que o nosso ônibus caísse naqueles buracos ou crateras. Às nove e meia da noite, estava chegando à Vila de Santa Maria. Pe. Rubinei, seu Genaro e D. Isabel, me esperavam. No outro dia, depois da oração da manhã, fomos logo cedo para a comunidade de S. Cruz. Pe. Rubinei foi dirigindo a lancha. A comunidade estava celebrando a festa da Santíssima Trindade. Encontro com as lideranças, confissão dos crismandos, seus padrinhos e de outras pessoas, celebração da crisma, “arraial” (música, sorteios, pequenos leilões…) até a meia noite. No outro dia, ainda tivemos um encontro muito bonito com os crismados, onde pude escutar a história de vários deles e a disposição em assumir a missão na comunidade. Antes, do meio dia, voltei à Vila de Santa Maria, pois precisava voltar para Santarém. Foram 4 horas e meia de barco até Prainha. Em seguida, num outro barco, 15 horas até Santarém.

Na viagem de volta, fiquei pensando no Pe. Rubinei, ordenado em janeiro último, acompanhando 33 comunidades, das quais 25 estão às margens de rios. Nessa área pastoral, estivemos durante 40 dias para a 4ª Experiência Missionária, da qual participaram 49 seminaristas, quatro religiosas, dois bispos e alguns padres (dezembro 2010 a 23 de janeiro de 2011).

O colega mais próximo do Pe. Rubinei está do outro lado do rio Amazonas, o que significa cinco horas em barco e somente há barcos 4 vezes por semana. Na área pastoral onde serve, telefone somente em S. Maria e Boa Vista e, mesmo assim, quando funciona. Em meu coração, pensava e rezava: Meu Deus, esse jovem padre está tão diante da sede da diocese, de outros colegas padres, então como colaborar para que ele possa cultivar a motivação fundamental que faz trazer a Missão em seu coração! Mas, o que significa isso para Pe. Rubinei e para nós? O que nos diz o Evangelho?

Coração Missionário:

Em janeiro de 2010, pude escutar, com o coração muito alegre, Wilson Pereira de Morais, seminarista da diocese de Ponta Grossa (PR), afirmar, após participar dos 40 dias da experiência missionária: “Refletindo à luz do lema da missão (“Pela tua Palavra, lançarei as redes” Lc 5,5), entendi e respondi à minha angústia da seguinte forma: Não vim porque quero, mas porque preciso! Preciso de uma experiência forte com Cristo Missionário do Pai.Preciso aprender e encontrar o sentido da missão na minha vida. Descobrir isto de modo claro foi muito forte para mim! (…) Fui aprendendo no decorrer desses dias que um coração missionário não escolhe, ele é enviado; não exige, mas acolhe aquilo que lhe oferecem; não reclama, mas aceita e agradece; não é passivo, apenas ama e obedece; reconhece o que tem, partilha com quem tem pouco; se faz pobre com os pobres; se abre à realidade, ao outro, ao diferente. A missão é apaixonante e posso afirmar que esse é o sentimento que levo comigo. Esses dias da experiência missionária foram um tempo de graça em minha vida. (…) A missão nos converte, nos devolve a autenticidade do ser cristão, alimenta a vontade de servir a Deus. Nos leva ao encontro com Jesus, a inspiração e o centro da missão. Volto para minha diocese com a vontade de dizer sim a Deus todos os dias da minha vida”.

Então, o testemunho de Wilson nos mostra como a experiência missionária pode marcar a nossa vida, mas é necessário cultivar as motivações que nos impulsionam e fortalecem a convicção para o seguimento a Jesus Cristo missionário, como missionário. Somente o cultivo da missionariedade nos fará viver o dinamismo missionário que nos é concedido pela graça do Espírito Santo, protagonista de missão.

O cultivo da graça missionária vai acontecendo à medida que, na oração pessoal e comunitária, na meditação da Palavra de Deus, na celebração eucarística, no encontro com seminaristas e/ou padres, retomo o que vi, o que escutei, o que senti para colocar diante de Deus e descobrir a luz que o mesmo Deus me aponta. Desse modo, o exercício do ministério não será somente desgaste, mas fonte para a mesma missão. “Os presbíteros atingem a santidade pelo próprio exercício do seu ministério, realizado sincera e infatigavelmente no espírito de Cristo” (P0 13).

Jesus Missionário

Jesus Cristo é o missionário do Pai, enviado pelo Pai (Jo 4,34; 5,30.36; 6,57; 12,44.45.49; 17,8.18; 20,21; Lc 4,18; Mt 10,40; 15,24). Ele permanecia no Pai e realizava a vontade do Pai (Jo 4,34; 5,30; 6,38; 17,4; Hb 10,5-9…). A missão que brotava dessa comunhão, que estava no seu coração, acontecia na prática. Jesus Cristo trazia a missão no coração (Jo 4,34). A missão nasce desse relacionamento profundo, pois Ele vem ao nosso encontro. A iniciativa é de Deus. Ele nos concede a graça do Mestre Interior que nos faz acolher aquele que vem ao nosso encontro e nos dá a graça de ler os sinais de sua presença em nossa vida, na realidade eclesial, e na realidade social. Somos chamados a deixar-nos guiar pelo Mestre Interior.

O capítulo 15 de S. João é muito profundo e bonito, pois nos fala da experiência da comunhão de Jesus com o Pai e dos discípulos com Jesus. “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso furto permaneça, a fim de que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome ele vos dê. Isto mando: amai-vos uns aos outros.” (Jo 15,16-17).

Como Jesus revela isto? Em primeiro lugar porque tem consciência de que é ungido pelo Espírito para a Missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).

Jesus Louva o Pai porque ocultou os mistérios do Reino (cf. 13,11) aos sábios e doutores (no sentido dos fariseus e doutores da lei) e os revelou aos pequeninos, aos discípulos (cf. Mt 11,25). Ele tem uma missão a cumprir e sabe que não está sozinho, pois permanece no Pai: “Eis que vem a hora, e já chegou, em que vos dispersareis, cada um para seu lado, e me deixareis sozinho. Mas eu não estou só. O Pai está sempre comigo… No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,32-33).

Guiado pelo Espírito de Deus, Jesus procura realizar a missão: anunciar o Reno de Deus, Reino de vida, reino de inclusão. Ele não foi enviado para realizar sozinho a missão; então, desde o início trabalha no sentido de chamar pessoas que possam ser formadas no caminho da missão, para que acolham no coração a missão. Foi um trabalho difícil, pois os discípulos tinham uma expectativa muito diferente quando se tratava do Messias! O Evangelho de Marcos mostra bem isto a partir do capítulo oitavo.

Jesus vive a missão em meio às alegrias e às dificuldades, incertezas e sofrimentos. Está alegre com os discípulos porque lhe foram dados pelo Pai (Jo 17,9), está alegre com os pobres que acolhem a Boa Nova (Mt 11,25ss). Ele diz aos discípulos: “Felizes os olhos que vêem o que vós estais vendo! …” (Lc 10,23). Jesus manifesta o carinho para com as crianças. Mostra a alegria do Pastor ao encontrar a ovelha que se perdera; a alegria da mulher que encontrou a moeda perdida; a alegria do Pai que vê o filho de longe e sai ao encontro para abraçá-lo… vamos festejar! (cf. Lc 15,20bss). Mas, também ele enfrenta muitas incompreensões por parte dos fariseus, dos discípulos… Mesmo assim, está disposto a seguir o caminho, também quando querem empurrá-lo para o precipício: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4,30). E Lucas ainda lembra: “Quando ia se completando o tempo para ser elevado ao céu, Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). Lá ele esteve várias vezes. Numa dessas oportunidades, “quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! (…) Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19,41-42.44).

Em meio às alegrias e incompreensões, aos sofrimentos e tristezas, Jesus encontra força na comunhão com o Pai. Desse modo, ele podia trazer a missão no coração. Não é o sucesso, nem o fracasso que determinam o modo de ser e de viver de Jesus. Mas, sim, a força que brota da comunhão com o Pai. Não está aí uma grande luz para nós? A missão se enraíza em nosso coração à medida em que procuramos viver em sintonia profunda com a pessoa e o projeto de Jesus, assim como Jesus vivia na comunhão com o Pai.

Que luzes para Pe. Rubinei e para nós?

1. Cultivar a comunhão profunda com Jesus Cristo por meio de sua Palavra, da Eucaristia, da oração, da contemplação de sua presença na comunidade, nos pobres, nas expressões religiosas populares…
2. Dar passos para viver a fraternidade na comunhão com o presbitério.
3. A contemplação da presença de Jesus no exercício do ministério na certeza de que aquele que nos escolheu, nos consagrou e nos enviou não nos desampara.
4. Nós vivenciamos a missão que é de Jesus Cristo, da Igreja. Então, só na comunhão com ele e com a Igreja, poderemos ser fiéis, pois a evangelização é um ato profundamente eclesial e não um ato isolado (EN 60).
5. Amar o povo que nos é confiado, trazendo o povo no nosso coração.
6. Partilhar com outros a experiência de missão.

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Dom Esmeraldo Farias

Bispo Diocesano de Santarém – PA

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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