Viver em um mundo islâmico

Entrevista com o diretor
da “Human Rights Coalition”

FREDERICKSBURG, domingo, 21
de novembro de 2010 (ZENIT.org) – Quando pensa em perseguição religiosa, o
reverendo Keith Roderick pensa na história de Vivian.

O reverendo doutor Roderick
é um ministro episcopaliano, secretário-geral da Coalition for the
Defense of Human Rights, a Coalizão para a Defesa dos Direitos Humanos.

Nesta entrevista, ele conta
a história de Vivian, de 15 anos, sequestrada quando voltava da escola para
casa, em seu nativo Iraque; seus sequestradores disseram à sua mãe: “Não
queremos o seu dinheiro. Queremos destruir o seu coração”.

Nesta entrevista, Roderick
fala não somente do caso de Vivian, mas dos problemas fundamentais dos cristãos
que vivem no mundo islâmico.

Desde quando você
trabalha nisso e qual foi a primeira coisa que você conseguiu quando começou
com este trabalho a favor da Igreja perseguida e reprimida?

Roderick: Há mais de 23
anos… O tempo passa rapidamente. Eu trabalhava com uma organização na
Inglaterra que ajudava os presos religiosos de consciência na União Soviética.
Organizávamos o envio de pacotes às famílias dos presos, que se escrevessem
cartões aos campos de prisão em que estavam retidos e outras tarefas. No final,
com a dissolução da União Soviética, começamos a receber petições para fazer o
mesmo pelos presos religiosos no mundo islâmico. Então, ampliamos nossas
perspectivas para conseguirmos um envolvimento primeiro no Egito e no Paquistão
e, depois, no Líbano; finalmente, no Iraque, Irã e Sudão.

Você poderia nos situar
no contexto? Qual é o problema fundamental para os cristãos que vivem no mundo
islâmico?

Roderick: Número um: são
uma minoria. Como com tudo o que implica ser uma minoria, há discriminação no
trabalho, assim como em outros contextos sociais. Como minoria em um mundo
islâmico, também carregam o estigma de ser dhimmi.

O que significa isso?

Roderick: Ser um cidadão de
segunda classe institucionalizado. Um dhimmi é, em termos
islâmicos, um infiel que paga a jizyaj, o imposto para ser
tolerado. Estão isentos de participar do exército – talvez esta seja a única
vantagem. É um status muito humilhante e é uma forma, por assim dizer, de
manter a população minoritária no lugar que lhe corresponde. É desumanizador e
se costuma deteriorar a dignidade básica das minorias como indivíduos, e isso
permite atos de violência, assim como outras formas de limpeza étnica.

Qual é o objetivo dos
islamitas a respeito disso?

Roderick: Os islamistas
querem islamizar a sua sociedade. Isso implica no estabelecimento da lei da
xaria sobre a população – e às vezes inclusive estabelecer a lei da xaria sobre
os não-muçulmanos – e, por conseguinte, um monte de dificuldades. O objetivo
básico é tentar reintroduzir o pensamento islâmico ortodoxo a partir de uma
perspectiva muito conservadora.

Em 1900, os cristãos
constituíam cerca de 20% da população do Oriente Médio. Hoje representam menos
de 2%. Quais são as razões desta diminuição da população cristã?

Roderick: Acho que as
contínuas pressões aplicadas às populações minoritárias, sobretudo aos
cristãos. Ele se sentem – e assim são definidos pela população majoritária –
como intrometidos, que não pertencem a ela, ainda que, de fato, eles sejam a
população indígena. O cristianismo estava lá muito antes. Assim, claro, se você
é considerado um estrangeiro em seu próprio país, estará em apuros.

Por isso, acho que esta é
uma das principais razões não somente da violência que explode de tempos em
tempos – como vimos no Iraque -, mas também das constantes classes de
discriminação das instituições do governo e da sociedade, que tende a
marginalizar e continua marginalizando. Com o novo ressurgimento islâmico,
estas pressões se intensificaram e se tornou muito mais difícil agora do que
foi no século 20.

Quais seriam os exemplos
de discriminação tendente à perseguição absoluta?

Roderick: Uma das formas
mais comuns de discriminação institucionalizada começa com o documento de
identidade. De fato, em muitos países, como o Egito, você tem de ter em seu
documento de identidade sua afiliação religiosa. E isso significa que há
restrições automáticas para você em todos os tipos de trabalho para os quais
você possa estar qualificado, suas oportunidades educativas e inclusive seu
casamento. Você tem de declarar sua preferência religiosa ou sua identificação
religiosa: cristão, muçulmano ou judeu. É uma forma de controlar, de alguma
forma, é quase comparável à estrela amarela na época dos nazistas.

O que lhe vem à mente
quando pensa na perseguição religiosa?

Roderick: Penso em tanta
gente que perdeu sua vida somente devido à sua fé ou à sua identidade de
cristãos. Como exemplo, no Iraque, uma jovem, de 15 anos, voltando um dia do
colégio para a sua casa, foi raptada. Os colegas da escola avisaram seus pais
que ela tinha sido sequestrada. Os pais esperaram à tarde por essa ligação
telefônica que pediria um resgate, decididos a fazer o que fosse necessário
para recuperar sua filha. Enfim, o telefone tocou, a mãe atendeu e disse:
“Diga-me o que você quer, nós pagaremos o que for preciso”. E, do outro lado da
linha, uma voz respondeu: “Não queremos o seu dinheiro. Queremos destruir o seu
coração”.

Isso foi traumático e
terrível para a família! Vários dias depois, seu corpo, mutilado, estuprado
várias vezes, foi jogado na praça da cidade e a família foi chamada para
recolhê-lo. A perda foi assim. É uma degradação, não só o assassinato, mas
também mutilar uma pessoa. Até onde vai chegar uma doutrina que permite que um
ser humano faça isso com outro ser humano?

E isso não está no
Alcorão?

Roderick: Não, isso não
está no Alcorão. Mas é exatamente assim. E continua. No Egito, os serviços de
segurança do Estado torturam os presos nos três primeiros dias da sua detenção.
Eles têm dois departamentos dentro da chefatura de Lazoughly: um para
supervisionar os fundamentalistas islâmicos e outro para supervisionar os
cristãos. E costumam prender os cristãos, sobretudo os muçulmanos convertidos,
para acalmar a pressão que aplicam aos fundamentalistas islâmicos e mostrar
imparcialidade. Muitas vezes são torturados de forma atroz durante os três
primeiros dias e, se ninguém fala em seu nome, simplesmente desaparecem nas
prisões.

Eu gostaria de me
centrar um pouco mais no Iraque, especialmente porque existe uma perseguição
evidente contra os cristãos. A população cristã iraquiana é agora menos da
metade do que era antes da invasão. Todos esses atos, como o sequestro, são uma
forma de eliminar os cristãos da região?

Roderick: Sim. Alguns dos
atos de violência são, logicamente, oportunistas e criminais, mas a maioria
deles está realmente dirigida a pressionar a população para forçá-la a ir
embora. Por exemplo, no bairro de Dora, em Bagdá, no qual, em 2004, moravam 20
mil famílias cristãs, em 2006 havia pouco mais de mil pessoas lá, tentando
manter suas propriedades. Isso foi, de fato, um programa de limpeza étnica que
permitiu que as milícias utilizassem esse bairro como base para as suas
operações contra as forças de coalizão em Bagdá. Agora, muitos
daqueles elementos – devido à mudança, ocorrida no último ano e meio – se
moveram para o norte, por isso há mais problemas em Mossul, Kirkuk ou inclusive
nas planícies de Nínive. As aldeias menores de lá se queixaram pelo fato de o
Al Qaeda ter fixado suas bases e vai e volta a Mossul, utilizando a população
cristã como escudo.

Por que são um alvo tão
fácil?

Roderick: São um alvo fácil
porque, após a libertação, pediu-se a todas as milícias que entregassem suas
armas. A única milícia que obedeceu à petição e entregou suas armas foi a
milícia assíria. Então, não há proteção. Não existe uma força policial
independente que ofereça proteção à população. Só há consequências e
estratégias envolvidas e, infelizmente, os cristãos geralmente estão do lado de
quem é atacado.

Os cristãos que
permanecem no Iraque falam de uma igreja gueto. O que é uma igreja gueto?

Roderick: Uma igreja gueto
está fechada. Permitem-lhe sobreviver em condições abaixo do que seria a plena
liberdade dentro da sociedade. Até este ponto está se convertendo em norma em
alguns países. Existe um grande medo no Iraque, devido ao translado da
população.

Inclusive no lugar do
nascimento de Cristo, vemos agora que os cristãos constituem 2,4% de toda a
população. Será que os cristãos vão acabar se extinguindo?

Roderick: Acho que a
questão é: serão simplesmente cuidadores de monumentos religiosos ou terão um
papel significativo a ser desempenhado na sociedade? Acho que esta é a questão
mais importante. Não é provável que sejam erradicados completamente. A Igreja é
Cristo e Cristo não a deixará desaparecer, mas, infelizmente, muito da vida
dessas igrejas existe agora na diáspora e a diáspora alberga muitas promessas e
muito potencial para reforçar e apoiar essas populações indígenas onde estão.
Sim, a população na Terra Santa diminuiu e quase se tornou insignificante, mas
não acho que este seja necessariamente o curso futuro para sempre.

Então devemos ter
esperança, mas é preciso protegê-la. Os cristãos têm de comprometer-se na
defesa dos seus irmãos e irmãs, e com tudo o que desacreditamos do que ocorreu
aos cristãos no Oriente Médio, parte da responsabilidade é dos cristãos do
Ocidente. Eles empreenderam alguma iniciativa? Por que não levantaram a voz?
Por que não saíram para protestar? Por que se ouve tão pouco falarem dos
cristãos perseguidos nos púlpitos? Por que não colocam nos folhetos de orações
que se reze pelos cristãos que são perseguidos no Oriente Médio? Parte disso é
problema nosso. Não nos envolvemos. Esperamos que os cristãos do Oriente Médio
suportem o peso por si mesmos. Eles têm carregado a cruz sozinhos. É necessário
que demos um passo adiante e sejamos uma verdadeira força que lhes dê apoio e
isso é algo que não fizemos muito bem.

O que podemos fazer –
você e eu – como cristãos?

Roderick: Acho que a coisa
mais importante é pressionar os responsáveis políticos. Deve haver algum tipo
de esforço profundo que lhes dê (aos políticos) o ímpeto e o respaldo para
fazê-lo. Acho que também é muito importante que exista alguma forma de relação
individual entre aqueles que são perseguidos e os que estão no Ocidente, que
faça que as liberdades comecem a ser formuladas, que pressione o governo
norte-americano, britânico, francês, europeu, que comece a pressionar aqueles
governos que toleram o intolerável em seus próprios países.

Esta
entrevista foi realizada por Mark Riedemann para “Onde Deus chora”,
um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television
Network, (CRTN), em colaboração com a
organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais
informação em www.aisbrasil.org.brwww.fundacao-ais.pt.

Veja um
documentário sobre a situação dos cristãos iraquianos
em www.wheregodweeps.org/situation-of-christians-in-iraq-short-film/

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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