Via para o conhecimento de Deus pela razão

Transitando sob as arcadas do convento de Monte Cassino, uma criança de cinco anos de idade indagava aos monges: “Quem é Deus?”. Era o grande Doutor Angélico que, com essa idade, já começava sua carreira de filósofo e teólogo.

Na realidade, porém, essa interrogação que se formava na cabeça do pequeno gênio, existe, ainda que de forma implícita, na mente de toda criatura humana, porque fomos criados por Ele e para Ele. “N’Ele nos movemos e existimos” (At 17,28). Entretanto, sendo tão superior a nós, nossos sentidos não O percebem. Ele que nos criou para conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo, não nos deixou abandonados; imprimiu na obra da Criação vias ou caminhos para que o homem chegasse até o conhecimento de Sua existência.

Por essas vias, a razão não chega ao conhecimento da quididade divina ou da sua essência. Apenas pelos efeitos consegue-se chegar à demonstração de sua existência, que em Deus não se podem confundir (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles, L.I, c.12).

Quatro são as vias que explicitou Aristóteles: movimento, origem, contingência e governo. Séculos depois, São Tomás as aprimorou e explicitou, ademais, a via dos graus de beleza ou hierarquia de valores dos seres.Tanto o Estagirita quanto o Doutor Angélico mais se aplicaram a primeira delas, a via do movimento.

O movimento sempre constituiu um grande problema para os antigos filósofos, compreendido por eles em todos os seus sentidos: a mutação de local – deslocamento – ou a passagem de potência para ato. “Chamo de movimento a atualidade do possível enquanto possível” (ARISTÓTELES. Metafísica. L.XI, c.IX).

Havia alguns, como Parmênides (apud GARRIGOU-LAGRANGE, 2008, p.104), que defendiam a impossibilidade de haver o movimento, pois, “do ente não se faz o ente, porque já é ente, e do nada, nada se faz, portanto, fazer-se a si próprio é impossível”. Assim, ele afirmava que a mutação percebida pelas vistas era mera ilusão dos sentidos e condenava, também, pelo mesmo princípio, a multiplicidade dos seres.

O ser permanece, por conseguinte, de toda eternidade o que é, absolutamente uno, idêntico a si mesmo e imutável; os seres acabados constituem apenas uma aparência, neste panteísmo ou monismo absolutamente estático, que tende à absorção do mundo em Deus (PARMÊNIDES apud GARRIGOU-LAGRANGE, 2008, p.104).

Heráclito, ao contrário, defendia estar tudo em constante mutação e movimento, e que o princípio de contradição – o ser ou não ser – era uma simples divisão abstrata, para facilitar a linguagem e o pensamento.

Ambos, entretanto, possuíam apenas parcelas de verdade. Aristóteles foi quem nos ofereceu a solução distinguindo no ser a potência e o ato. De fato, um ser não pode tornar-se a partir de outro ser já em ato e determinado, como um gládio que devém não pode devir a partir de um gládio que já existe, “mas aquilo que vem a ser já estava primeiramente em potência e provém do ser indeterminado ou da potência real, que é um meio-termo entre o ser em ato e o puro nada” (GARRIGOU-LAGRANGE, 2008, p.104).

A transformação se dá na matéria que adquire uma nova forma. A madeira de uma árvore perde a forma de tronco e adquire a forma de uma mesa, uma cadeira, ou de toras para o forno. O sujeito mutável é a matéria primeira ou segunda. Os seres possuem, portanto, uma potência real, uma matéria indeterminada ou determinável, que se transforma em ato.

Isso se pode observar em toda a ordem do universo. Não há um instante em que cesse o movimento. Desde os astros, passando pelos quase insignificantes animaizinhos, até chegar a um carbono que está debaixo da terra, e pode vir a ser um diamante, todos estão constantemente transformando em ato suas potências, ou seja, movimentando.

O próprio Divino Mestre nos descreve o movimento de uma semente que um homem lança à terra. O agricultor dorme e levanta-se, e a semente vai germinando e crescendo, sem ele saber como. Primeiro cresce uma haste, depois uma espiga e, por fim, os grãos. Quando o fruto está maduro o homem mete a foice, pois chegou o tempo da colheita (Cf. Mc 4,26-34).

Com esta parábola, vemos também a possibilidade da potência ser ativa ou passiva. A semente possui em si uma força própria de se tornar árvore, potência ativa; mas possui igualmente uma capacidade de receber uma forma nova, potência passiva, que não se realizaria se não fosse o homem tê-la lançado à terra. Quanto menor for a potência passiva, maior tem de ser a ativa. Ora, quando a potência passiva é zero, a ativa tem de ser infinita. Logo, é absolutamente necessária a existência de um ser infinito (GARRIGOU-LAGRANGE, 2008).

Por outro lado, “tudo o que se move é movido por outro” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra los gentiles, L.I, c.13), de maneira que nada é movido a não ser quando já existe em potência. E para ser motor, é necessário estar em ato. Porém, não é possível que, em um só ser, algo esteja em ato e potência ao mesmo tempo, mas um ser em ato pode ter a potência de ser outro diverso. Por exemplo: um pedaço de barro cozido tem a potência de se transformar em porcelana, mas essa potência não possui a porcelana, que já o é em ato. É, pois, impossível que o ser seja de uma vez motor e movido, ou que algo se mova a si mesmo. Se algo se move, é porque é movido por outro em ato; e este, por conseguinte, é movido por outro. Mas, não podemos remontar esta escala até o infinito, porque se assim fosse não haveria motor algum, posto que os motores intermediários só se movem em virtude de um primeiro motor, que lhes comunica o movimento. Assim sendo, conclui São Tomás de Aquino (Suma Teológica, I, q.2, a.3), é absolutamente necessário admitir a existência de um Primeiro Motor que não seja movido por ninguém.

Para compreendermos o poder desse Motor Imóvel basta contemplar, em uma noite estrelada, aqueles inúmeros pontinhos espalhados por toda a abóbada celeste, e que se movimentam com uma velocidade espantosa, por mais que pareçam imóveis (ROYO MARÍN, 1963). A realidade da existência desse Motor Imóvel se mostra tão forte no movimento dos astros, que afirma Garrigou-Lagrange (1945, p.335): “O primeiro olhar da inteligência sobre o céu estrelado conduz a Deus e faz vislumbrar sua grandeza”.

Deus é, portanto, este Primeiro Motor, Imóvel, que movimenta todos os seres do universo, desde a inanimada natureza mineral até todos os atos racionais da criatura humana. À maneira de um órgão que, quase sem se mexer, movimenta, com seus sons, inúmeros impulsos e sentimentos na alma humana (CORRÊA DE OLIVEIRA, 1979); ou como aquela imensa massa líquida de água que é o mar, que com movimentos mínimos produz furiosas ondas (CORRÊA DE OLIVEIRA, 1974).

Esse motor é uno, imutável, imóvel, infinito. Eis até onde a razão pode chegar à compreensão de seu Criador. Por isso, Deus, desde a vida no Paraíso Terrestre, não cessou de revelar-nos os mistérios de Sua natureza, que só a fé e o amor nos fazem compreender, “porque a razão é incapaz de compreendê-Lo e só é possível desejá-Lo pelos afetos e pelo amor” (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermão 115).

Assim sendo, sem a união entre a fé e a razão não podemos chegar à plenitude – quão incompleta! – do conhecimento de Deus possível neste vale de lágrimas.

Por Maria Teresa Matos

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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