Verdades, erros e perigos na Teologia da Libertação (Parte 3)

teología-da-libertaçãoVale, assim, a palavra do Papa, quando fala de “opção preferencial dos pobres”, não vale, porém, e deve ser boicotada quando não valoriza o “pecado social” das estruturas, quando denuncia erros e abusos da Teologia da Libertação radical…

3. A Igreja dos pobres é tipicamente classista: é a Igreja Popular, baseada nas comunidades de base, que representam o povo oprimido, que por ser eficiente instrumento de libertação, deve ser a voz da justiça e da verdade, interpretando desta forma nova e “científica” a Cristologia e a Eclesiologia tradicional da Igreja Católica. Será, portanto, a práxis revolucionária o modo de agir, neste movimento de libertação, a fonte da verdade e do bem.4. Assim, deixando de lado a Doutrina Social da Igreja, se deve fazer a leitura política da Sagrada Escritura, sobretudo do Êxodo e do Magnficat, a secularização do Reino de Deus, as interpretações do Magistério e da Tradição.

É por isso que o documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé afirma que tal falsa interpretação da Teologia da Libertação, abarca todo o conjunto da doutrina cristã. Por exemplo: a Missa é oportunidade, em uma reunião social, de tratar e discutir os problemas da libertação e não admira que a procissão de Corpus Christi não seja para os liberacionistas o louvor a Cristo presente na Eucaristia, mas excelente ocasião de um comício político e liberacionista.

4. A Libertação no Paraíso Socialista

Os teólogos da Libertação pouco falam da sociedade futura, mas repõem suas esperanças em um socialismo democrático, que se quiséssemos saber qual é o seu figurino, nos responderiam: Nicarágua. É verdade que não diriam Rússia e seus satélites, embora tenham embarcado na libertação de análise marxista, esperando, talvez, descer do bonde ainda em movimento, antes de chegar ao ponto final. Assim pensava um prelado vietnamita, ilustre mas ingênuo, mas que foi tragado pelos trágicos acontecimentos de seu país e hoje deve lamentar-se da escravidão e do inferno, em que se encontram ele e os seus libertados,

Mas na Nicarágua, a situação é diferente, dirão alguns que para lá viajam frequentemente, suponho às custas da “opção pelos pobres”. Outros chegaram a endossar, com alegria, as divisas militares sandinistas (eles que demonstram horror pelos militares!). Nicarágua é proposta como uma nova e feliz mensagem de libertação para toda a América Latina. Entre o Papa e os sandinistas, preferem naturalmente estes últimos e demonstram sua solidariedade aos sacerdotes envolvidos no Governo Sandinista, mesmo quando em flagrante desobediência às leis canônicas.

Que elementos da hierarquia católica tenham apoiado o sandinismo, em tempos difíceis de ilusória esperança liberacionista de um regime injusto, se entende. Mas que ainda hoje, caída a máscara do sandinismo, e em face de sua oposição à Roma, ao Papa, com uma Igreja Popular, haja prelados a fazer a opção sandinista, assumem uma gravíssima responsabilidade contra o povo fiel, que devem guiar para o bom caminho!

Diante do histórico e patente mito da libertação marxista e do paraíso proletário (não precisaria,então, ser cercado como é ainda que em um campo de concentração!), vê-se que esses clássicos lutadores pela libertação dos pobres, não são amigos da liberdade dos indivíduos. Os seus direitos pessoais, a começar da liberdade religiosa, não têm vigência nos países dominados pelo marxismo, ponto final da análise marxista.

É uma séria advertência aos liberacionistas de não destruírem com seus métodos, tomados ao marxismo, aquele conjunto de verdadeiras e justas aspirações que animaram suas intenções e sua luta.

Na verdade, defender a ortodoxia, é defender os pobres, com a força cristã do amor.

III – PERIGOS

1. Lavagem cerebral

Imagino a tristeza de uma mãe que formou carinhosamente seu filho, na sólida doutrina cristã e nas virtudes, ouvi-lo depois de um período no Seminário, agressivo e rebelado contra tudo e contra todos que lhe haviam ensinado um cristianismo, julgado agora, depois de sua deformação pessoal, como superado e viciado. E tal lavagem cerebral foi realizada não num campo de concentração nazista ou comunista, mas numa instituição, mantida pela caridade cristã, até com sacrifícios dos fiéis. Formou-se um alguém, podendo ter como modelos Camilo Torres ou Che Guevara. A pretexto da libertação da classe oprimida, silenciará sua língua a mensagem evangélica do amor cristão, do coração aberto a todos os homens, enquanto crescem nele a aversão, o espírito de luta, exatamente o contrário de quanto se deve esperar de um ministro do Senhor, como traço de união entre pobres e ricos.

O pobre jovem contraiu a doença da revolta contra as estruturas e os demais, que não julgam como ele, pois estão do outro lado, naturalmente junto aos opressores. A doença, ainda quando não é mortal, debilita seu apostolado, podendo até mesmo levá-lo ao abandono do ministério sacerdotal, como já ocorreu com outros.

Quando a doença se propaga podemos chegar à epidemia. Então até o ambiente fica empestado e, para o bem da saúde pública é melhor eliminar o mal, os focos de infecção, como faz o cirurgião.

Francamente preferia estar enganado, bastando admitir apenas uma póda em alguns institutos ou comunidades seminarísticas do Brasil, para que a árvore da formação sacerdotal, possa produzir abundantes frutos, onde quer que se prepare um futuro sacerdote.

2. Abuso da linha pastoral muito difundida no Brasil

Encontrei no jornal

“Arquidiocesano” de Mariana, de 21/10/84, uma síntese clara de quatro pontos em que Dom Edvaldo Gonçalves do Amaral, Bispo de Parnaíba, no Piauí, apresentou ao Encontro das comunidades eclesiais de base de sua diocese e que, por precisão e simplicidade de linguagem merece ser transcrito na íntegra: “Há uma certa linha de pastoral na Igreja, infelizmente hoje muito difundida no Brasil, que exibe características inaceitáveis sob o ponto de vista da autêntica doutrina cristã e da reta práxis pastoral.
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São elas:

1. Um exagerado horizontalismo – esquecendo a dimensão sobrenatural do homem e omitindo sistemática e propositadamente toda e qualquer referência ao destino eterno e ao sentido escatológico da vida humana.

2. Um pronunciado classicismo, fomentando a luta de classes, a viva oposição entre ricos e pobres, uma exacerbada justificação do pobre (que, segundo eles, seria bom só pelo fato de ser pobre) com a consequente exclusão e condenação do rico (que seria mau só pelo fato de ser rico), chegando a uma verdadeira guerra aos ricos: daí imaginam uma dicotomia irreconciliável dentro da própria Igreja, dividindo-se entre Igreja hierárquica e Igreja Popular, Igreja dos opressores versus Igreja dos oprimidos.

3. Um reducionismo na interpretação da Palavra de Deus – selecionando só o que convém à sua ideologia e aceitando no ensinamento do Papa João Paulo II tão somente o que corrobora seus pontos de vista, quando não chegam ao extremo de acusar o Papa de colaborador do imperialismo americano e ativista político contra o socialismo soviético.

4. Um envolvimento cada vez mais ativo em política partidária, com uma indisfarçável aspiração política e ao exercício do poder, camuflado, às vezes, em defesa dos direitos da Igreja ou proteção aos pobres e marginalizados. Como consequência disso, uma crítica irrazoável e sistemática a todos os atos do governo civil” .

3. Igreja Popular

Já se escreveu muito sobre este tema.

Parece, porém, impossível que se instale, no Brasil, a Igreja Popular, não só pelo respeito e fidelidade de nosso povo ao Santo Padre, como, por causa dos minguados frutos da malfadada Igreja Brasileira, fundada há mais de 50 anos pelo bispo de Maura, Dom Carlos Duarte Costa, que se rebelou contra o Papa.

Por isso mesmo, os liberacionistas primam em afirmar que não pretendem estabelecer uma nova Igreja, mas sim uma teologia nova, viva, real, aplicada ao povo oprimido, mas sempre dentro da Igreja Católica. Será uma tática para não afugentar o povo?

Entretanto, vão minando os fundamentos da Igreja Católica e colocando outras pedras para substituir aquelas propostas pela Igreja, fiel a Pedro e a Cristo, seu fundador.

Órfão da Igreja Católica para defender a fé, é a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé: não ouvi-la, desprezá-la, negar-lhe o valor e autoridade, dissociá-la do Papa, é temeridade, agressividade, luta, que pode merecer aplausos de certa imprensa escandalistica, mas pode terminar mal.

Não queremos prosseguir em nossas considerações.

A um bom filho basta a advertência de uma mãe amorosa, que só lhe deseja o bem e a felicidade. Outras vozes lhe aconselham libertar-se da escravidão; como ocorreu com o filho pródigo.

O orgulho, a popularidade, o aplauso, solidariedade e ala, rido dos outros, para não enumerar outros fatores, são vozes tentadoras e péssimas conselheiras, enquanto a humildade dos servos de Deus, dirá com confiança, como Maria: “Faça-se em mim segundo a vossa vontade”, revelada por Deus e transmitida pela Igreja.

Conclusão

Se a Teologia da Libertação focaliza e jorra maior luz para compreender e resolver uma grave e real questão social e moral, como a da injustiça social, e orienta sua linha pastoral para uma educação de sólida formação religiosa, como base de novas práticas do amor cristão e da. fraternidade humana, só nos podemos alegrar com este despertar para uma mais efetiva vivência cristã.

Mas, se a Teologia da Libertação quer obter a justiça social pela luta de classes, mesmo quando empolgada por Lima fala “opção preferencial pelos pobres”, o espírito cristão lhe adverte que a ideológica análise marxista, considerada “a científica”, é caminho ilusório e errado. É o ensinamento e a advertência sábia e prudente do Magistério da Igreja, mãe e mestra autorizada e assistida por Deus, que tem uma experiência de 20 séculos.

É prudente e cristão, ouvir docilmente sua voz e os seus conselhos, repetidos solenemente pelo documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Portanto, se alguém se encontra nesse rumo errado, é melhor retroceder e, com humildade, retornar à casa paterna, como o fez o filho pródigo, certo de obter a reconciliação e o perdão da misericórdia divina

Se, porém, quiser prosseguir na estrada liberacionista para a libertação dos pobres, no tempo e na eternidade, é certo que não haverá policia da Igreja para conduzi-lo ao cárcere ou manicômio. Livremente usando e abusando da liberdade que Deus lhe deu, se conseguir ver triunfante, por manobras de astúcia ou até mesmo pela violência, a libertação suspirada do proletariado, desembarcará numa sociedade completamente diversa daquele paraíso terrestre que sonhou e apregoou e verificará, então, que foi “pior a emenda que o soneto”. É o mínimo que lhe posso dizer, com a verdadeira história dos povos nas mãos e na mente.

Lastima também que o liberacionista não quis ouvir, durante sua vida de sacerdote ou ao menos de fiei, o Pai amoroso que veste os lírios do campo e sustenta os pássaros dos céus e, para guiar os homens para a verdadeira salvação, fundou a Igreja, ordenando que ouvisse-mos sua voz …

Menosprezada a advertência da Igreja, preferiu ouvir outras vozes e ensinamentos, como os nossos primeiros pais no paraíso, para se tornarem iguais a Deus. Foram tentados por causa do orgulho ou da ânsia de popularidade? Não o saberei dizer. Limito-me a registrar o fato, com espírito de fé e de docilidade à cátedra de Pedro, e a manifestar minha tristeza, vendo como homens de talento, pela Teologia da Libertação, deram grandes passos, mas fora da estrada.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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