Vaticano II: nem ruptura nem continuidade a todo custo

Apresentados 3 novos livros de pesquisa sobre o Concílio

ROMA, quinta-feira, 31 de março de 2011 (ZENIT.org) – Às vésperas do cinquentenário do Concílio Vaticano II, foi realizada ontem, na Pontifícia Universidade Lateranense, um encontro promovido pelo Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II, intitulado “Rumo ao 50º aniversário da abertura do Concílio. De Pio XII a João Paulo II”.

No ateneu romano foram apresentados três livros pelo Centro de Estudos: “A herança do magistério de Pio XII”, “A Igreja croata e o Concílio Vaticano II” e “João Paulo II e o Concílio. Um desafio e um dever”.

O reitor da Pontifícia Universidade, Dom Enrico Dal Covo, disse que “estes três livros contribuirão para um estudo mais aprofundado, e se inserem no que é o compromisso do centro de estudos”.

Ou seja, trata-se de “promover uma nova síntese interpretativa do Concílio Ecumênico Vaticano II, que possa superar a paralisia de interpretação ou hermenêutica parcial, seja de uma parte desequilibrada totalmente sobre a descontinuidade, seja da outra parte, que insiste na maneira única e unilateral na continuidade”.

Portanto, explicou o bispo, “trata-se de recuperar, com um paciente trabalho histórico de documentação, todos os elementos para poder ir além dessa paralisia”.

Os palestrantes foram: Philippe Chenaux, diretor do Centro de Estudos; Dom Bernard Arudura, presidente do Comitê Pontifício de Ciências Históricas; Dom Jure Bogdam, reitor do Pontifício Colégio Croata de São Jerônimo; Gilfredo Marengo, professor do Instituto João Paulo II; e foi lido um texto de Lubomir Zak, vice-decano da Faculdade de Teologia da Lateranense.

Philippe Chenaux disse que “os três livros, muito além dos documentos do Concílio Vaticano II, aprofundam nas fontes locais, como os textos dos padres e teólogos que participaram e conservaram os materiais”.

Isso porque os historiadores muitas vezes conceberam o Concílio como um evento, “mas ele não pode ser reduzido aos 16 documentos aprovados”; portanto, trata-se de “reconstruir um acontecimento histórico, considerando que existe um espírito do Concílio”.

A importância de Pio XII

Cheneaux lembrou que “ler o Concílio como uma ruptura com o passado” é errado como a “hermenêutica da continuidade”, fatos que se encontram na “diferença entre a escola belga” e aquela apegada somente “à letra dos documentos”.

Além disso, porque, do ponto de vista histórico, o Concílio “marca o fim da época da Contrarreforma sem negar a continuidade”, não tanto “porque os homens mudaram, mas o ponto de vista sobre eles”, disse.

Dom Ardura, por sua vez, aprofundou no segundo volume apresentado, que examina a relação com os países da Europa Oriental no Vaticano II, recordando as mudanças históricas, a civilização cristã, a Segunda Guerra Mundial, o comunismo e o período pós-guerra, eventos que levaram Pio XII a se interessar pela questão política e pela harmonia entre fé e cultura.

“Pio XII autorizou, na França, a criação de sacerdotes operários – indicou Arduini -, experiência suspensa em 1954, após o relatório do núncio em Paris, Roncalli”, mas depois permitiu a experiência com a criação da Prelazia da Missão da França.

No percurso histórico também vem a questão da evangelização e do convite aos fiéis a ser anunciadores do Evangelho; a ‘Lumen Gentium’ e o surgimento de conceitos históricos inovadores para a época, sem os quais hoje não se poderia pensar nas relações humanas.

Igreja do Leste

O vice-decano da Faculdade de Teologia, Lubomir Zak, destacou, no texto que foi lido, a contribuição da Igreja no leste europeu, particularmente a da Croácia, e alguns elementos, incluindo a situação política extrema que viviam e que, no entanto, conseguiram participar do Concílio; como, apesar das almas progressistas e conservadoras existentes, promoveram os ensinamentos do Concílio Vaticano II, de forma exemplar.

O vice-decano recordou, no texto, que, após o Concílio, foi verificada uma renovação e que reduzir o Vaticano II a uma ruptura com o passado “era um erro vulgar”.

O volume também mostra como, “com uma concepção positivista e ideológica, não é possível uma interpretação objetiva do Concílio nem uma interpretação eclesialmente compartilhada das suas profundas intuições”, porque “o Concílio foi um dom do Espírito”.

Dom Jure Bogdan, por sua vez, lembrou da participação da Igreja do leste europeu no Concílio e do início da ‘Ostpolitik’ vaticana; da situação da Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e do diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo.

Também recordou as pressões até o final dos anos 50 contra a Igreja, os seminários maiores e menores e a hierarquia eclesiástica. E como tentaram infiltrar na Igreja através do cavalo de Troia das associações profissionais de sacerdotes, controlada pelas autoridades comunistas.

O livro conta como participaram 28 bispos do Vaticano II, a maioria da Croácia, e suas intervenções nas sessões do Concílio. Também fala da influência do Concílio Vaticano II nos países vizinhos e da vontade de contribuir para a renovação conciliar.

O professor Marengo apresentou o seu volume, indicando que o método buscado foi o de “ter juntos dois registros para manter a distinção, quando fala o Papa e quando fala Karol Wojtyla, mas, ao mesmo tempo, cultivar a interpretação dos atos magisteriais e dos textos anteriores, que são da mesma pessoa e são bases sobre as quais o magistério se enraíza e extrai sua seiva”.

E como palavras tais como “evento, novo Pentecostes, renovação real da Igreja” são fundamentais e explicam como João Paulo II viveu e concebeu o Concílio. Para o Papa polonês, “mais que um ensinamento que deve permanecer na vida da Igreja, o Concílio é a novidade que ele chama de escola do Espírito Santo”.

“Por isso, no sínodo de 1985, ele quis dar a conhecer aos cardeais que não tinham participado do Concílio o espírito do evento.”

Os textos completos dos oradores serão publicados em breve no site da Universidade Lateranense.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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