Uma nova moral – EB (Parte 3)

Vê-se assim como a Igreja
encara com seriedade o processo de penitência do cristão. Ela absolve desde que
haja indícios de sincero arrependimento e bom propósito da parte do pecador;
assim este pode voltar a revigorar-se no sacramento da Eucaristia, mas deverá
impreterivelmente assumir, por iniciativa pessoal (com a graça de Deus), a
extirpação das tendências desregradas que continuam a nele habitar após a
absolvição sacramental. Tal doutrina está longe de ser a “marmelada teológica”
que M. Bach imagina (cfr. p. 142).

2.6. A autoridade na Igreja

O autor se refere com
irreverência à autoridade e a certas instituições existentes na Igreja. Deseja
remover qualquer possibilidade de intervenção do magistério da Igreja no campo
da Moral; de  modo especial, a encíclica “Humanae
Vitae” (1968) merece as suas críticas. O tom em que o autor se exprime é
passional e amargo.

A propósito observe-se:

Para um fiel católico, a
Igreja é, como ensina o Concílio do Vaticano II, o “sacramento da unidade” (cf.
“Lumen Gentium” nº 1); “sacramento”, no contexto, quer dizer: “realidade sensível,
humana que é portadora e transmissora de bens divinos ou das graças da Redenção”.
Em outros termos: a Igreja não é sociedade meramente humana, que possa ser
julgada pelos predicados de seus membros ou de sua hierarquia, mas, além de
humana, a Igreja é divina no sentido de “Corpo de Cristo” prolongado (cf. C1
1,24; 1Cor 12,4-27); Cristo prometeu aos Apóstolos e aos seus legítimos
sucessores assistência infalível até a consumação dos séculos: “Estarei
convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20); o Senhor não disse “Estarei
com os mais sábios ou os mais santos ou os mais zelosos (…)”, mas simplesmente “(…)
com os que sucederem legitimamente aos Apóstolos até o fim”.

À Igreja assim vivificada
pela presença de Cristo e pela ação do Espírito Santo (cf. Jo 16,13), compete o
encargo de apregoar a mensagem do Evangelho e aplicá-la aos sucessivos tempos
da história. Toca-lhes dizer aos homens, à guisa de Mãe e Mestra, quais os
caminhos que levam à vida eterna, de acordo com a Boa-Nova de Jesus Cristo. Por
isto a autoridade da Igreja pode e deve pronunciar-se a respeito de problemas
morais, pois a Moral se deriva de Boa-Nova; “a nobreza obriga” o cristão a se
comportar em tudo com a dignidade que a fé inspira. A Igreja não se define a
propósito com intenções preconcebidas, masoquistas, medievalistas…, mas com o
ânimo de servidora fiel (cf. Constituição “Dei Verbum” nº 10), que leva em
conta o temporal e o Eterno, o contingente e o Absoluto, o provisório e o
Definitivo… Por  causa destes seus critérios
(que reverenciam a dimensão de Infinito existente nas aspirações do ser
humano), a Igreja nem sempre pode dizer Sim às modas que surgem entre os
homens, inspiradas, muitas vezes, por critérios hedonistas e materialistas
(envernizados por aparentes cientificismo e liberalismo).

Especialmente a teologia da
Cruz, típica da pregação do Evangelho, “escandaliza” os homens de ontem e de
hoje, suscitando a aversão dos indispostos em nossos dias como nos tempos de S.
Paulo (cf. 1Cor 1,23). Não obstante, a Igreja não poderá silenciar a cruz ou a
necessidade de crucificar a velha criatura com suas paixões desregradas, a fim
de que se forme no cristão mais nitidamente a imagem do Cristo Jesus. De resto,
a mensagem da Igreja, criticada por indivíduos ou grupos, tem-se comprovado no
decorrer dos tempos como a verdadeira sabedoria, que preserva os mais autênticos
valores do homem, ameaçados de naufrágio na tormenta por que passa a humanidade
contemporânea.

Eis por que julgamos ineptas
as críticas de Marcos Bach ao magistério da Igreja e sugerimos ao autor: 1)
repense a sua tese central, que põe fim à Moral, dando livre passe “envernizado”
para que cada um faça o que queira; 2) procure fazer amadurecer um pouco mais
as suas proposições, que por vezes se chocam entre si de maneira contraditória
ou correm em linhas paralelas que não fazem síntese; 3) torne as suas observações
à Igreja mais objetivas e serenas ou mais condizentes com o estilo de uma obra
científica. E que Deus o ilumine!

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¹ Ed. Vozes, Petrópolis, 140
x 210 mm,
173 pp.

¹ O autor diz às pp. 159s
que não há necessidade de novo sistema moral (pois este só serviria a pessoas
moralmente subdesenvolvidas). Apesar disto, fala, logo a seguir, de “nova Ética”
(p. 161) e de “Ética cristã diferente da atual” (p. 167).

¹ À p. 12 o autor rejeita as
injunções do magistério da Igreja e lhes opõe as novelas da televisão como
fator que produz a nova Moral:

  “Quem são os donos da Moral? Os eclesiásticos
e censores oficiais supõem que estão em condições de dar à sociedade o tom
moral prevalente. Na realidade, esta é uma função que passou para o domínio dos
meios de comunicação de massa. Quem faz a Moral em vigor, não é o Papa. Pois o
Papa não é personagem de novela. A moral que termina por se impor, é de procedência
novelesca” (p. 12).

  Pergunta-se: como entender estas observações de
M. Bach? Seriam brincadeira irônica ou hão de ser tidas como formulação do
pensamento do autor? Os meios de comunicação de massa, com suas novelas, seriam
a expressão da coletividade que é legítimo fator de Moral, segundo M. Bach?

¹ A hierarquia da Igreja, na
medida em que ensina proposições de fé e de Moral, tem para o cristão
autoridade garantida pela assistência infalível do próprio Cristo (cf. Mt
28,18-20). O mesmo se diga do Romano Pontífice, quando define artigos de fé e
de Moral; cf. Mt 16,16-20.

² “Tu nos fizeste para Ti,
Senhor, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (S. Agostinho,
Confissões l 1).

¹ A Revelação judeo-cristã
motiva freqüentemente a vida moral do homem apontando-lhe o modelo divino ou
mesmo a comunhão de vida com o próprio Deus. Cf. Lv 11,44 e Mt 5,44-48, textos
em que o homem é convidado a ser santo ou perfeito porque Deus é santo e perfeito.
Veja-se também a analogia da videira e dos ramos em Jo 15,1-8.

¹ Nada há que seja mau por
si ou no plano ontológico ou no plano do ser, visto que Deus bem só podia criar
seres bons. – O mal entrou no mundo mediante o pecado ou no plano moral; o
pecado é o abuso da liberdade, que, podendo dizer Sim a Deus, lhe disse Não.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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