“Tu me seduziste, Senhor …!”(Jr 20,7)

background_orar3Esta exclamação ousada do Profeta Jeremias brotava do coração de alguém que fora chamado por Deus a fim de anunciar a sua Santa Palavra a um povo incrédulo. No desempenho desta missão, Jeremias foi aprisionado e lançado numa cisterna para morrer (cf. Jr 37,11-38, 13); após muito padecer, desabafava-se junto ao Senhor, como quem se queixa de haver sido ludibriado ou chamado para uma tarefa que ele não imaginava tão ingrata. Apesar de tudo, Jeremias permaneceu fiel a Deus até o fim de sua vida.

O caso de Jeremias é, por assim dizer, um paradigma da sorte que toca a todos aqueles que desejam firmemente seguir a Deus e tornar-se arautos de sua mensagem de salvação. Haverá sempre que enfrentar resistência e incredulidade, pois o plano de Deus é mais sábio do que a sabedoria dos homens e, por isto, não cabe dentro da mente de quem o quer julgar segundo categorias meramente naturais.

No Novo Testamento a loucura e o escândalo do desígnio de Deus se concretizaram na Cruz de Cristo, feita árvore da Vida. Entre os grandes mensageiros da Palavra de Cristo, destaca-se o Apóstolo São Paulo. Chamado por Deus para anunciar a Boa-Nova, sofreu longa série de provações, que o próprio Paulo enumera em 2Cor 11, 23-27: “Muitas vezes vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de estirpe, perigos por parte dos gentios… Mais ainda: fadiga e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez!”. – Apesar de tudo, o Apóstolo, fazendo um retrospecto, escrevia no fim de sua vida: “Sei em quem acreditei” (2Tm 1,12). Sim; Paulo sabia que não colocara a sua fé num mero homem nem uma facção humana, mas a entregara a Cristo, que não havia de o decepcionar. Por isto, em meio às suas múltiplas dores, podia afirmar: “Estou cheio de consolo, transbordo de alegria em todas as nossas tribulações” (2Cor 7,4).

“Sei em quem acreditei …”; eis a fórmula cristã que dissipa a reação espontânea do Profeta: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir”.

Ora ser cristão implica entrar na linhagem dos grandes amigos de Deus, que se deixam seduzir pela Boa-Nova. Esta seduz, porque é bela e profunda, mas será sempre exigente,… exigente porque tudo o que é grande e nobre vem a ser um desafio. E é este desafio que o S. Padre João Paulo II lança a todos os fiéis, ao proclamar de modo insistente em nossos dias a NOVA EVANGELIZAÇÃO…

“Senti no meu coração um fogo abrasador… Esforcei-me por contê-lo, mas não o consegui” (Jr 20,9).

D. Estêvão Bettencourt

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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