“Triunfo da Virgem de Guadalupe” destroça onda populista no México

Após várias décadas de governos
anticatólicos, o México derrotou o candidato esquerdista. A mídia brasileira entretanto
quase ignorou este dado essencial da questão.
Uma estranha onda de água
poluída chamou-me a atenção junto à Ilha Fiscal, jóia da Baía de Guanabara. Ela
carregava toda espécie de detritos, com um quê de ameaçador que não
correspondia a seu ridículo tamanho. Morria de modo inglório contra o cais e
continuava a movimentar incessantemente aquele lixo.
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Lembrei-me dela quando a vaga de populismo que açoita a América
Latina colheu sucessivos fracassos nas eleições gerais do Peru e do México.
Foram fatos análogos, mas o mexicano é mais recente e envolve um país de
projeção e população (a segunda mundial em número de católicos) maior que a do
aristocrático Peru. 
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Onda populista derrotada no México Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, era cogno-minado
o “Lula mexicano”. A ele opunha-se Felipe Calderón, do governista
Partido de Acción Nacional (PAN). Calderón, apesar de declarações duvidosas
como as relativas à Cuba comunista, tem fama de católico e bom administrador,
de ser contra o aborto e o casamento homossexual, de defender a família e a
livre iniciativa. Mas, dizia-se, não tem o carisma do populista López Obrador.
É inegável que um visgo malsão parece impregnar a personalidade deste.
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Há dois anos ele liderava as pesquisas de opinião (pesquisas! – quantos blefes
se difundem com este nome!!). Outro carismático, o presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, o financiava. Como, aliás, também financiara a malograda campanha
de mais um carismático: o candidato peruano derrotado, Ollanta Humala.
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A maioria dos eleitores mexicanos reagiu com bom senso e patriotismo quando
percebeu que Chávez agia por trás de López Obrador. E este baixou nas sondagens
de opinião como estrela cadente. Então, o candidato populista e Chávez tudo
fizeram para disfarçar sua cumplicidade, voltando Obrador a ocupar, desta vez
por pequena margem, o topo das enquêtes. Contudo, na votação real, Felipe
Calderón, que se apresentou como conservador, reagiu e venceu apertadamente,
obtendo também seu partido, o PAN, maioria nas duas casas do Congresso.
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A que se deveu a inesperada vitória conservadora? Nossa Senhora de
Guadalupe decidiu a eleição!

A eleição no México trouxe o “fim da idéia de que há uma onda esquerdista
na América Latina”,(1) comentou o cientista político Octavio Amorim Neto.
Acertou, mas não disse tudo. Ignorou ele a questão religiosa.
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As esquerdas insurgiram-se contra frases como as do secretário do Trabalho,
Carlos Abascal Carranza, falando aos operários: “Senhores, que a Virgem de
Guadalupe, padroeira dos trabalhadores, vos abençoe”; ou “a rebelião
feminista é um ataque contra o fundamento da sociedade civilizada; traz graves
conseqüências para as crianças, afeta as relações interpessoais, estimula o
amor livre, a homossexualidade, a prostituição, a promiscuidade, o aborto, e no
fim a destruição da família”.(2)
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Deploravam as esquerdas também que as “descargas de artilharia contra
[López Obrador], disparadas pelas tropas herdeiras da tradição cristera, acertaram
no alvo. A multidão de torpedos que enviaram através dos celulares, para
sacudir a consciência dos fiéis, parece ter causado efeito. Advertia um desses
torpedos: ‘México, estás seguro de que [López Obrador] permitirá nossa Religião
católica? Santa Maria de Guadalupe, salvai nossa Pátria e preservai nossa
Fé'”.(3)
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Naqueles dias, o episcopado do país consagrou o México ao Sagrado Coração de
Cristo Rei do Universo. Sugestivamente, o ato concluiu com o brado “Viva
Cristo Rei e Santa Maria de Guadalupe!”,(4) o mesmo dos cristeros, os
heróicos combatentes católicos mexicanos de décadas atrás.

Foi por isso que o escritor anarco-comunista mexicano Carlos Fuentes concluiu –
aliás, lamentando – ter sido o resultado do pleito “um triunfo da Virgem
de Guadalupe, a santa padroeira do México. Ela é a única realidade verdadeira
no país, é tudo em que o povo acredita. A Virgem penetra em todas as camadas
sociais. Os mexicanos mais miseráveis […] confiam
principalmente na Virgem. Calderón venceu, na medida em que conseguiu se
apresentar como candidato católico”.(5)

Fatos importantes: lembrança dos mártires cristeros

Não sabemos que direção tomará o futuro governo Calderón, e se ele con-seguirá
resistir às pressões da esquerda. Seja como for, eis a razão mais profunda da
virada mexicana: Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México e das
Américas, representa a permanência do espírito dos cristeros, mártires e heróis
da fé, dezenas dos quais já elevados à honra dos altares. Foram massacrados na
primeira metade do século XX, após desastroso acordo político estabelecido
entre o Episcopado mexicano, a Santa Sé e o governo do México, anticlerical e
pró-Reforma Agrária. Porém, hoje a gesta dos cristeros é rememorada com
saudades e veneração pelo que há de melhor no catolicismo mexicano.
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Envolvidas na poeira dourada da História, as figuras dos cristeros mártires –
sacerdotes fuzilados até com paramentos de Missa; leigos cavalgando com
bandoleiras cruzadas no peito e cheias de balas, o terço na mão e Nossa Senhora
de Guadalupe estampada nas bandeiras – permanecem na piedade e no imaginário
dos católicos do país.
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Face a esses sintomas, que podem indicar um ressurgir do México católico,
compreende-se que as esquerdas mexicanas queiram conduzir a nação ao caos, para
reverter, pela violência e confusão, o revés eleitoral. Tal é o objetivo da
rebelião social “pacífica”, insuflada pelo esquerdista inconformado
López Obrador. Até o momento em que escrevemos, ele não aceitou a derrota e
conclama o povo para grandes manifestações de massa.
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A Virgem de Guadalupe, protetora de nosso continente
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 Estas considerações valem só para o
México? No Céu, os bem-aventurados formam um só corpo sob o cetro real de Nossa
Senhora. Custa-nos acreditar que cada um dos bem-aventurados se interesse
apenas pelo seu país.
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Então, à luz da virada mexicana, é-nos lícito perguntar se, sob o influxo de
Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira das Américas, o Céu não estará se
movimentando em favor do continente.
E-mail do autor: santiagofernandez@catolicismo.com.br
.Santiago
Fernández 

Notas:
1- “O Globo”, Rio, 8-7-06.
2- “La Jornada”, México, 4-7-06.
3- “La Jornada”, id., ibid.
4- http://www.cem.org.mx/prensa/cem/060622.htm.
5- “O Estado de S. Paulo”, 5-7-06.
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O artigo abaixo o extraí do site www.catolicismo.com.br,
da Revista Catolicismo, edição de Agosto/2006.
+(I.H.S)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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