Triste manipulação do Concílio Vaticano II

No último dia 11 de outubro completou 50 anos do início do grande e sagrado Concílio Vaticano II; por isso o Papa Bento XVI, que dele participou como especialista em teologia, quis começar o “Ano da Fé” neste dia.

Sem dúvida, o Concílio Vaticano II será reestudado profundamente neste Ano da Fé,  e seus 16 documentos importantes voltarão a ser lidos e meditados para se ouvir a voz do Espírito Santo para a Igreja, o que ainda não foi feito suficientemente.

No entanto, já começaram algumas manipulações perigosas por parte de algumas pessoas na Igreja, querendo dar a esses documentos uma interpretação abusiva e que não é a do Magistério Sagrado da Igreja. Faz-se assim, uma leitura distorcida do grande evento.

Pela internet tivemos notícia de um Congresso dissidente no Brasil que equiparou o Concílio Vaticano II com a teologia marxista da liberação, e que preocupou o Vaticano.

A fonte de notícias católicas acidigital.com, em 08 de outubro de 2012, noticiou que de 7 a 11 de outubro, realizou-se na universidade jesuíta Unisinos, adepta da TLM, em São Leopoldo (RS) o “Congresso Continental de Teologia” que tenta estabelecer uma equivalência entre o Concílio Vaticano II e a teologia marxista da libertação (TML), já condenada pela Igreja em distintas ocasiões durante o Pontificado de João Paulo II e Bento XVI. No evento participaram teólogos e pensadores para difundir ideias contrárias à doutrina católica.

A página oficial do evento (http://www.unisinos.br/eventos/congresso-de-teologia/pt/o-congresso/apresentacao) deu ênfase ao livro “Teologia da Libertação. Perspectivas”, de Gustavo Gutiérrez, adepto da TLM, colocando o livro no mesmo nível que o Concílio Vaticano II – o evento eclesial mais importante do século XX -, um absurdo, ao assinalar que “no marco destes dois acontecimentos que marcaram a Igreja em geral, particularmente na América Latina, está a proposta de um Congresso Continental de Teologia”. O sacerdote dominicano Gustavo Gutiérrez, considerado o “pai” da teologia marxista da liberação, proferiu uma conferência sobre o tema “A Teologia Latino-Americana: Trajetória e Perspectivas”, no dia 9 de outubro.

Entre as instituições participantes estão conhecidas entidades eclesiásticas partidárias da TML como a agência Adital, a Associação de Teólogos do México, a Confederação Latino-americana de Religiosos (CLAR), a Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia (dirigida por jesuítas entre os quais está o Padre Carlos Novoa que apoia publicamente a despenalização do aborto), a Rede Teológico-Pastoral da Guatemala e a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) do Brasil.

O Congresso contou com a presença do teólogo espanhol Andrés Torre Queiruga, cujas obras foram recentemente consideradas pela Conferência Episcopal Espanhola, incompatíveis com a doutrina da Igreja.

Outro dos participantes foi o ex- frei  Leonardo Boff, um dos principais propulsores da TML, que abandonou o sacerdócio na década de 90, casou-se, e se afastou da Igreja Católica, e que, insistentemente ofende o Santo Padre em seus artigos e programas de TV. Também participou o teólogo Jon Sobrino, sacerdote jesuíta e líder entre os teólogos marxistas, ainda que suas ideias “não estejam conformes com a doutrina da Igreja”, como disse a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2007, através de uma notificação oficial.

Infelizmente o sr. Bispo de Jales, Dom Demétrio Valentini, também participou do evento e lhe deu seu apoio. Ainda a teóloga Maria Del Pilar,  que qualificou o Beato Papa João Paulo II de autoritário, centralista, conservador e imperialista, fez uma palestra sobre “Teologia e Espiritualidade libertadora”. Também o padre jesuíta espanhol Víctor Codina, que em um escrito considerou a Igreja Católica como uma anciã, míope, surda e com Alzheimer, falou sobre “As Igrejas no Continente 50 anos depois do Vaticano II: questões pendentes”.

Raúl Fornet Betancourt, filósofo que critica a Igreja e pede uma opção “por outro mundo, e por outra Igreja e por outro cristianismo”, participou com a exposição “Novos sujeitos e interculturalidade”.

A realização do evento recebeu a desaprovação pública e explícita da Diocese de Ciudad del Este (no Paraguai) liderada por Dom Rogelio Livieres. Em um texto publicado afirmou que esta diocese “une-se à preocupação da Santa Sé diante do Congresso Continental de Teologia que se realiza entre os dias 7 e 11 de outubro no Brasil”. Por este motivo, conclui a mensagem, “a Igreja Católica presente nesta Diocese se une ao Santo Padre Bento XVI e desaprova firmemente este Congresso que, embora seus organizadores sustentem o contrário, será apenas uma ocasião para afinar a agenda do ‘progressismo católico’ “.

Por todo o exposto acima é de se lamentar este triste e subversivo Congresso da Teologia da Libertação. Cabe relembrar, mais uma vez, aqui o que disse o Papa Bento XVI aos bispos do Brasil, 05/12/2009, em Roma, sobre o perigo da teologia da libertação:

“Neste sentido, amados Irmãos, vale a pena lembrar que em agosto passado, completou 25 anos a Instrução Libertatis nuntius da Congregação da Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da teologia da libertação, nela sublinhando o perigo que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos de teses e metodologias provenientes do marxismo. As suas sequelas mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia fazem-se sentir ainda, criando nas vossas comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas. Suplico a quantos de algum modo se sentiram atraídos, envolvidos e atingidos no seu íntimo por certos princípios enganadores da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz benigna que a mesma oferece de mão estendida; a todos recordo que «a regra suprema da fé [da Igreja] provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três não podem subsistir de maneira independente» (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 55)”.

Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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