Transparência e credibilidade

Reflexão do
Pe. Lombardi sobre as novas normas vaticanas

CIDADE DO
VATICANO, sábado, 1º de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a reflexão do Pe.
Federico Lombardi, SJ, sobre as novas medidas emanadas pelo Motu Proprio do
Papa para prevenir e contrastar as atividades ilegais no campo financeiro e
monetário.

* * *

A
publicação de hoje de novas leis para o Estado da Cidade do Vaticano e para os
Dicastérios da Cúria Romana e os organismos e entidades dependentes da Santa Sé
é um evento de relevante importância normativa, como também de significado
moral e pastoral de amplo alcance. Todas as entidades ligadas ao governo da
Igreja Católica e àquele seu “suporte” que é o Estado da Cidade do
Vaticano são, a partir de hoje, inseridas, em espírito de sincera colaboração,
no sistema de princípios e instrumentos jurídicos que a comunidade
internacional está edificando com a finalidade de assegurar uma convivência
justa e honesta num contexto mundial sempre mais globalizado; contexto em que,
infelizmente, as realidades econômicas e financeiras são, não raramente, campo
de atividades ilegais, como a reciclagem de dinheiro oriundo de atividades
criminosas e o financiamento ao terrorismo, verdadeiros perigos para a justiça
e a paz no mundo.

O Papa
afirma, sem meios termos, que “a Santa Sé aprova esse empenho” da
comunidade internacional “e com isso faz suas as regras” das quais
ela se dota “para prevenir e contrastar” esses fenômenos terríveis.
Desde sempre as atividades ilegais demonstraram uma extraordinária capacidade
de insinuar-se e de poluir o mundo econômico e financeiro, e o seu
desenvolver-se internacionalmente e o uso das novas tecnologias as tornaram
sempre mais evasivas e capazes de mascarar-se, de modo que para defender-se
tornou-se urgentíssimo constituir redes de controle e informação mútua entre as
autoridades prepostas para a luta contra elas.

Seria
ingênuo pensar que a inteligência perversa que guia as atividades ilegais não
busque aproveitar justamente dos pontos fracos e frágeis por vezes existentes
no sistema internacional de defesa e de controle da legalidade, para
introduzir-se nele e violá-lo. Por isso, a solidariedade internacional é de
importância crucial para a solidez de tal sistema, e é compreensível e justo
que as autoridades nacionais de vigilância e os organismos internacionais
competentes (Conselho Europeu e, em particular, o GAFI: Grupo de Ação
Financeira Internacional contra a reciclagem de capitais) vejam com olhos
favoráveis os Estados e as entidades que oferecem as garantias exigidas e
imponham, por sua vez, vínculos maiores a quem não se adequa a essas.

Isso vale
naturalmente também para a Cidade do Vaticano e as entidades da Igreja que
desempenham atividades econômicas e financeiras. A nova normativa responde,
portanto, ao mesmo tempo, à exigência de conservar uma eficaz operacionalidade
das entidades que atuam no campo econômico e financeiro para o serviço da
Igreja Católica no mundo, e, mais ainda, à exigência moral de
“transparência, honestidade e responsabilidade” que, em todo caso,
devem ser observadas no campo social e econômico (Caritas in veritate, 36).

A aplicação
das novas normativas exigirá certamente muito empenho. Há a nova Autoridade de
Informação Financeira cuja atividade deve ser iniciada. Existem novas
obrigações a serem respeitadas. Novas competências a serem exercidas. Para a
Igreja, delas só poderá vir o bem. Os organismos vaticanos serão menos
vulneráveis diante de contínuos riscos que se correm inevitavelmente quando se
maneja o dinheiro. Serão evitados, no futuro, aqueles erros que tão facilmente
se tornam motivo de “escândalo” para a opinião pública e para os
fiéis. Em suma, a Igreja será mais “crível” diante da comunidade
internacional e de seus membros. E isso é de importância vital para a sua
missão evangélica. Hoje, 30 de dezembro de 2010, o Papa assinou um documento de
natureza para ele um tanto incomum, mas de grande coragem e grande significado
moral e espiritual. É um modo bonito de concluir este ano, com um passo
concreto na direção da transparência e da credibilidade.

(Com Rádio
Vaticano)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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