Tiago, filho de José, irmão de Jesus

O pesquisador da Sorbonne de Paris, André Lamaire, revelou ao mundo a descoberta de um ossário (uma caixa de ossos) do século I, na qual encontra-se a inscrição aramaica: “Ya’akov bar Yosef akhui di Yeshua” (Tiago filho de José irmão de Jesus). Seria a primeira evidência arqueológica da existência de Jesus. Que pensar sobre o assunto? Há alguma implicação para a nossa fé? Como fica a questão da virgindade de Maria, mãe de Jesus?

1. Do ponto de vista científico

Não se pode dizer com toda certeza que se trata do Tiago, do José e do Jesus do Novo Testamento. Os próprios cientistas reconhecem que, sendo esses três nomes muito comuns no século I, feitos os cálculos de probabilidade, haveria provavelmente cerca de vinte pessoas que, naquela época, poderiam se chamar Tiago, filho de José, irmão de Jesus. Assim, nunca será possível afirmar com certeza que se trata dos personagens bíblicos.

Do ponto de vista da frase em si mesma, se olharmos bem, ela é ambígua: pode significar que Tiago é filho de José e é irmão de Jesus ou pode dizer que Tiago é filho de José e que este José é irmão de Jesus.

Suponhamos ainda que este Tiago seja o irmão do Senhor de que fala o Novo Testamento. Então, a inscrição está afirmando que ele é filho de José. Seria o José de Maria? Seria um outro José, parente (= irmão), também ele de Jesus? Recordemo-nos que, na linguagem bíblica, irmão não significa simplesmente filho do mesmo pai ou da mesma mãe. Então, aqui se trataria de Tiago, que é da parentela do Senhor e seu pai, como o pai de Jesus, chamava-se também José.

Há, então, muita coisa que, do ponto de vista científico, é incerto e, pelo jeito, permanecerá incerto…

2. Do ponto de vista teológico

A única questão que pode suscitar perguntas, do ponto de vista da teologia católica, é a realidade dogmática da virgindade perpétua da Virgem Maria.

Vejamos. É parte da fé católica que a Mãe de Jesus é perpetuamente Virgem. Isso exclui totalmente a possibilidade que a Virgem Santíssima tenha outros filhos naturais, além de Jesus. Exegeticamente, é fora de dúvida que quando o Novo Testamento fala em “irmãos de Jesus”, de modo nenhum está referindo-se aos filhos de Maria! A palavra irmãos pode indicar vários graus de parentesco. Supondo que José tenha morrido cedo (como é muito provável, já que os evangelhos não se referem mais a ele), e Maria tenha ficado sozinha (já que Jesus saiu de casa para exercer seu ministério público), era totalmente conforme aos usos judeus que a Virgem tivesse uma relação muito próxima com o clã, a família, sobretudo do marido. Por isso vemos algumas vezes as referências aos irmãos de Jesus, com quem Maria aparece nos evangelhos.

Mas, e se este José da inscrição encontrada no ossário for o José, esposo de Maria? Então, os irmãos de Jesus são irmãos no sentido nosso, irmãos irmãos! É verdade. Mas, nem neste caso deve-se negar a virgindade de Maria. Há uma antiqüíssima tradição do século I, que já aparece no Proto-evangelho de Tiago, que afirma que José era viúvo ao casar com Maria e os irmãos de Jesus seriam filhos de José com uma primeira esposa. As Igrejas do Oriente em geral seguem esta tradição. Nós, do Ocidente, preferimos não afirmar essa viuvez de José e dizer que os irmãos de Jesus não são filhos nem de José nem de Maria. Contudo, as duas opiniões são possíveis e compatíveis com a fé na virgindade de Maria, que tanto os católicos quanto os ortodoxos afirmam dogmaticamente, segundo a constante Tradição da Igreja.

Uma coisa deve, portanto, ficar clara: a atual descoberta de modo nenhum coloca o problema de virgindade perpétua de Nossa Senhora. Também deve ficar claro que tal virgindade não é uma questão sem importância para os católicos e ortodoxos: ela é parte da fé da Igreja, e isso não por horror ao sexo ou por idolatria de um hímen. A virgindade de Maria tem um profundo sentido na simbologia bíblica: ela é a imagem viva da virgem filha de Sião, o Israel fiel do Antigo Testamento; ela é também imagem vivente da Igreja, virgem e mãe. Aqui seria muito longo mostrar como isto aparece de modo belo, claro e profundo nos textos bíblicos.

No entanto, que fique bem claro isso: é de fé católica a virgindade de Maria antes, durante e depois do parto. Somente na fé poderemos afirma-la compreender sua realidade. A questão verdadeira é, portanto, esta: cremos que Deus pode intervir no mundo? Cremos que Deus pode realizar milagres? Cremos que Deus guia e sustenta a Igreja na verdade da fé? Caso contrário, é preciso negar que o Verbo se encarnou, que Cristo foi concebido virginalmente e que ressuscitou corporalmente de verdade… E aí, adeus cristianismo: teríamos crido em vão, teríamos apostado a vida numa ilusão!

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Tempos depois que escrevi este texto, uma comissão oficial de peritos em arqueologia sob a responsabilidade do Governo de Israel, tornou pública uma comunicação afirmando que a inscrição no ossário não é autêntica, isto é, não é do tempo de Jesus, mas foi aberta recentemente como fraude. O ossário é do século I; a inscrição, não!

Portanto, nenhum problema com o dogma da virgindade

D. Henrique Soares da Costa
http://www.padrehenrique.com

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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