Testemunhos dos mártires da Guerra Espanhola

Madri (Quinta-feira, 29-12-2011, Gaudium Press) Pio XI não pôde conter as lágrimas, segundo se refere seu secretário de Estado e futuro Papa, o Cardeal Pacelli. O fato ocorreu após a leitura da carta que Francisco Castelló Aleu, de 22 anos, envio a sua namorada Mariona, pouco antes de ser martirizado por sua fé católica durante a guerra civil espanhola de 36. Mariona já tinha familiares injustiçados: “Sinto sua desgraça, não a minha. Sente-se orgulhosa: dos irmãos e seu prometido. Pobre Mariona! Queria fazer-te uma carta triste de despedida, mas não posso. Estou todo envolto de ideias alegres como um pressentimento de glória”, disse Francisco na carta.

Os testemunhos relatados no livro são de todas as origens: religiosas, seculares, civis, militares
Este testemunho e muitos outros são relatados no livro “Assim foram à morte”, de autoria do monge beneditino Santiago Cantera Montenegro, prior da Abadia do Valle dos Caídos e doutor em História. Exercendo seu ofício de historiador, o monge reconheceu em sua obra dezenas de histórias de fé, de pessoas que foram martirizadas, na Espanha, por causa da fé, durante a guerra civil do século XX, cuja leitura faz estremecer.

Uma mensagem muito repetida nos meios de comunicação: a alegria de ser um próximo habitante do céu. “Mamãe não chores, Jesus me pede o sangue. Por seu amor o derramarei: serei mártir, vou ao céu. Lá os esperarei”, disse Salvador Pigem Serra, uno dos 51 claretianos mártires de Barbastro. “Não chorem minha morte, pois morrer por Jesus Cristo é viver eternamente… Adeus, até o céu”, disse a sua família José Figuero Beltrán, outro dos jovens mártires, cujo depoimento foi publicado no livro.

Essa alegria de ver pronto a Deus no paraíso se mesclava com mensagens tranquilizadoras e de esperança a seus familiares. “Eu me alegro só de pensar na dignidade a que Deus quer elevá-la, fazendo-a mãe de um mártir”, disse o beneditino Aurelio Boix Cosial, de 21 anos, também morto em agosto de 1936 em Barbastro. “Podes estar orgulhosíssima de ter um filho eleito por Deus para mártir da causa da religião e salvação da pátria”, disse a sua progenitora o secular catalão, Joaquim Lacort. “Até o céu. Adeus, meus pais e tia Lola”, escreve o sacerdote Juan Camps, em Lérida, em dezembro de 1936. Os testemunhos são de todas as origens: religiosas, seculares, civis, militares.

Até suaves repreensões estão incluídas nas cartas. “No céu todos nos uniremos… Me pareceria muito ruim que, sendo esta a vontade de Deus, padeceras por mim”, expressava e, diversas missivas a prima Manolita ao sacerdote de 28 anos, Antonio Pitarch Sanjuán.

Preocupação pela salvação eterna de suas famílias
Em meio da pior perspectiva humana, a da morte, os martirizados se preocupam com a sorte eterna dos entes queridos que deixam na terra.

“Quando me faltam poucas horas para o repouso definitivos, quero pedir-te apenas uma coisas: que em memória do amor que nós tivemos, e que neste momento aumenta, atendas com objetivo principal à salvação da tua alma, porque desta maneiras conseguiremos nos reunir no céu por toda a eternidade”, escreve a sua namorada Bartolomé Blanco, de 22 anos, morto em Jaén. “Minha última vontade, Carmina querida, é que seja muito cristã sempre; não faças jamais um pecado mortal que te prive de unir-te comigo no céu”, afirma Juna Soler-Espiauva a sua esposa.

O alferes de navio, Juan de Araoz, assassinado em Málaga, pede a seus pais que lhe ajudem na conversão de sua mulher anglicana, Jeanne “para que no dia do juízo e da ressurreição da carne nos reunamos todos”. Mas a ela também chega a insistir nestes dramáticos momentos. “Só te peço na hora de minha morte que te faças católica e que rezes por mim e que no dia do Juízo Final nos reunamos todos diante de Deus. Eu te suplico. A religião católica é a verdadeira”. Jeanne se converteu ao catolicismo.

O capital do Exercito, Juan Ramos, assassinado em Bilbao, deixa filhos ainda pequenos. Entretanto os confia aos solícitos cuidados de sua esposa, por quem velará do céu. “Eu te asseguro que, se Deus o permitir, no céu, para onde creio que irei, porque a fé salva sempre, serei teu cavaleiro lá em cima; que intercederei por ti, que pedirei e colocarei todo o amor tive por ti ante o trono de Deus, para que te encha de todos os bens que possa conceder-te”, lhe escreveu.

A suas famílias, com quem compartem a fé, buscam tranquilizá-las, manifestando-lhes que se encontram em boas disposições cristãs para a morte. “Para completa satisfação de vocês adiciono que me confessei com toda tranquilidade e bom ânimo”, disse a seus pais Virgílio Rodríguez Fernández, um soldado de 20 anos assassinado em Santander. E agrega: “saberei muito bem morrer como um bom cristão, agradecido a vocês pela boa educação que me deram”.

Os testemunho mostram uma grande força que se combina com uma grande paz, gruto de quem vive sua fé com convicção. Claros princípios cristãos impregnavam as mentes e vidas dos protagonistas; vidas cristã que manifestavam a graça necessária e suficiente para enfrentar com galhardia a mais dura das provas.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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