Teologia da Prosperidade

As 
origens

Desde a
época que o reformador Calvino afirmou que “a riqueza é um sinal dos
eleitos”, espalha-se por diversos setores protestantes a idéia de que a
prosperidade material é um presente de Deus para seus filhos. Uma espécie de
paraíso terrestre que distingue os “salvos” dos outros mortais.

Esta
ideologia hoje encontra seu sustentáculo maior na chamada “Teologia da
Prosperidade”, nascida nos EUA, mas que se espelhou pelo mundo protestante
, incluindo o Brasil, como fogo em mato seco.

A base
bíblica

O
“versículo-chave”, verdadeiro carro-chefe desta doutrina, encontra-se
no Evangelho de São João, mas precisamente na passagem sobre o Bom Pastor:
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10,10)

Versículos
como este são interpretados no sentido de que Deus deseja ardentemente que seus
filhos possuam muitas riquezas nesta vida: dinheiro, saúde, bem-estar… e em
abundância, ou seja, bem mais que o necessário.

Passagens
bíblicas, como a citada a seguir, são devidamente esquecidas: “Observai
como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Mas eu vos digo que
nem Salomão com toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus veste assim
a erva do campo, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a
vós, gente de pouca fé! Por isso não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos
comer? O que vamos beber? Com que nos vamos vestir?’ São os pagãos que se
preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo
isso. Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e todas
estas coisas vos serão dadas de acréscimo.” (Mt 6,28-33)

O trecho
acima bem demonstra que a preocupação primordial do fiel deve ser o Reino de
Deus (“Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus”). De fato,
todos podem servir a Deus, não sendo o acúmulo de riquezas uma condição
essencial. Todos possuem bens que devem ser usados em favor da comunidade, do
próximo. Do contrário, Cristo deveria ter procurado os seus seguidores única e
exclusivamente entre a elite judaica, e não no meio dos pescadores.

Note-se
ainda que o “Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso”. Será que
o neo-calvinismo de hoje, cognominado Teologia da Prosperidade, está preocupado
apenas com o necessário de que o homem precisa, tal qual reconhece Deus ? A
resposta é não, como veremos a seguir.


prática

A palavra
de ordem é: “doe e receberá muito mais”. Aqui aparece um outro
elemento de tal doutrina: “doar, dar…”, mas na condição de que o
retorno será bem significativo. Deus vira uma espécie de investimento. O crente
doa recursos financeiros a sua denominação religiosa, mas na esperança,
praticamente certeza, de que Deus estaria obrigado a lhe dar uma resposta
através de muito mais dinheiro, ou outros bens, como saúde, um bom casamento,
etc.

Neste
sentido, vejamos um trecho de reportagem publicada no jornal paranaense
“Gazeta do Povo”, em 31 de janeiro de 1999″: Embora as
denominações das seitas evangélicas que se multiplicam pelo país sejam
diferentes, elas funcionam com regras parecidas. A principal delas é o
pagamento do dízimo, que deve corresponder à 10% da renda do fiel. Nos cultos
da Reviver, as reuniões nunca terminam sem que a coleta seja feita em uma
pequena caixa. Quem entra na igreja pela primeira vez, logo se depara com um
aparador cheio de envelopes destinados ao recolhimento das ofertas.

Na Igreja
Universal do Reino de Deus, que tem quase 200 templos na cidade, os apelos ao
dízimo também são constantes. No culto realizado na manhã do dia 26 de janeiro na
Catedral da Fé – como os fiéis chamam o templo localizado na Avenida sete de
setembro – além do alerta sobre a importância do dízimo o pastor Carlos tentava
convencer os fiéis de que, dando outros donativos, suas dívidas desapareceriam.
Baseado na argumentação de Deus dá em dobro, ele pedia que cada um entregasse
um envelope com os donativos indicados “pelo coração”. “Pode ser
R$ 70, R$ 50 ou até R$ 30, mas o mínimo é de R$ 20”, explicava.

Como se
percebe, há uma nítida relação de troca. Embora esta teologia seja aplicada
mais descaradamente nas igrejas pentecostais, da qual a Universal é o símbolo
máximo, ela atinge grande parte das demais seitas protestantes. Não é de hoje
que temos notícia desta prática em igrejas protestantes ditas históricas ou tradicionais.


amplitude

Também é
outro preconceito dizer que esta teologia só atinge as classes pobres e de
baixa instrução. Vejamos trechos da reportagem “A vez dos ricos”, da
revista “Veja” de 12 de fevereiro de 1997: “O alvo, agora, são
as classes A e B. Há dois anos, o publicitário Juanribe Paglarin largou o
emprego e uma renda mensal de 10.000 reais para abrir a igreja Paz e Vida.
Convenceu os três irmãos a fazer o mesmo. Dois deles abandonaram cargos de
chefia em multinacionais” (…) “Resultado: em dois anos fundaram 24
igrejas pelo Brasil – um ritmo frenético de um templo a cada mês. Suas igrejas
são acarpetadas, boa parte delas tem ar condicionado e, segundo cálculos de
Paglarin, mais da metade dos fieis pertencem às classes A e B.”

Na mesma
reportagem, mais adiante, é o próprio pastor quem conclui: “O público
procura uma igreja mais adequada ao seu perfil”. Em miúdos: procura-se
agradar ao mercado consumidor.


antropocentrismo

É uma
religião para o homem, e não para Deus. Desde o falso movimento humanista, do
qual o protestantismo é apenas mais uma vertente, o antigo teocentrismo vem
sendo substituído por um antropocentrismo de acordo com o gosto do freguês,
ops, do fiel: “A mudança no visual é acompanhada por uma nova maneira de
pregar a fé. O culto ficou mais contido e menos teatral. Não há espetáculos de
exorcismo, com desmaios seguidos de convulsões e muita gritaria. Apesar de o
diabo continuar a ser apontado como o pai de todas as fatalidades, ele passou a
ter uma presença mais discreta do que normalmente se vê nos cultos da
periferia. O sermão parece mais uma aula de auto-ajuda de Lair Ribeiro”.

Em resumo,
passa-se o seguinte ensinamento: o homem é o centro de tudo e o é céu aqui e
agora! Claro, com muito sucesso financeiro, prosperidade material… verdadeiro
sinal de que alguém “repousa na benção de Deus”. E melhor: quanto
mais contribuir com a igreja, maior será o retorno!

As 
provas:  os  testemunhos

Para
endossar tais ensinamentos, em geral a igrejas usam dos já famosos testemunhos: 
pessoas falam sobre sua situação de penúria, de forma comovente ; e depois,
como a vida se transformou ao entrar para aquela igreja ou passar a doar mais e
mais. Carro importado, casa nova, melhor emprego, empresa de sucesso, roupas de
grife… qualquer coisa serve como “prova cabal” para a veracidade do
testemunho.

E se entre
estes testemunhos, tiver o de gente famosa, sucesso garantido. Há mesmo quem
cobre cachê para contar as “maravilhas que Deus fez” em sua vida.

Em se
tratando de gente famosa ou das classes mais abastadas, nem precisa de
testemunho, basta a própria presença para causar furor entre os adeptos da
teologia da prosperidade. Seguem trechos da reportagem “Templo evangélico
da Barra vira ponto de encontro de modelos, manequins e atores” , publicada
no jornal “O Globo” de 17 de abril de 1999: O antigo Teatro da Barra,
na Avenida Lúcio Costa, nunca esteve tão apinhado de famosos. Do público
cativo, fazem parte modelos como Monique Evans, Cristina Mortágua, Gisele Fraga
e a ex-miss Brasil Márcia Gabrielle; artistas como Simone Carvalho, Paula
Hunter e Carlos Machado; socialites como Kristhel Byancco e Georgiana Guinle,
além do surfista Dada Figueiredo, do coreógrafo Zé Reynaldo, empresários, donas
de casa e patricinhas e mauricinhos em geral. No palco – um altar improvisado com papel
de parede de árvores e um telão onde correm letras de música evangélica em
ritmo de videokê – as estrelas são outras: o pastor Francisco Oliveira,
acompanhado da mulher, pastora Ana. Em cartaz, há três anos, estão os cultos da
igreja Sara Nossa Terra, um sucesso emergente de bilheteria. Ir à igreja
inclui pagar o dízimo, cantar louvores, fazer pedidos, ouvir e proferir
testemunhos de fé. Mas nada de vastidões até o pé ou cabelos muito compridos, a
menos que sejam como o pretinho básico envergado por Márcia Gabrielle ou como
as madeixas aloiradas de Cristina Mortágua. 

As mudanças
são de dentro para fora. A igreja tem restrições, mas não recriminações. Se
isto acontecesse, não pisaria lá – disse Cristina, de bíblia na mão, no culto
da última quarta-feira. Há dois meses engrossando o coro de “améns”
que pontua as pregações, Márcia Gabrielle diz que chegou à Sara depois de
peregrinar por várias igrejas:  – É bacana ver tanta gente famosa e bonita
conhecendo o que eu conheço há tempos: a palavra de Deus. O louvor aqui é
forte. Saio com um astral diferente. 

A Sara
Nossa Terra nasceu como Comunidade Evangélica de Goiânia, há 20 anos, numa
garagem. Hoje, já são 200 templos no Brasil, sendo 20 deles no Rio e um nos
Estados Unidos. Todos sob o comando do Bispo Robson Rodovalho, de Brasília.

Sacrifício

Nesta ótica
“God is fashion”, até a noção de sacrifício é pervertida. Um exemplo
é quando pastores citam a história em que Abraão iria sacrificar seu filho a pedido de
Javé. Interpretando tal passagem, não importaria aí o pedido de Deus; ou mesmo
a prefiguração do sacrifício de Jesus na cruz. Importaria, pela visão
neo-calvinista, o fato de que Abraão estaria disposto a fazer um grande
sacrifício, mas teria a recompensa de terras (riquezas) em abundância, ver a
queda de seus inimigos, sua descendência se multiplicar por gerações e
gerações, etc.

Mas que se
faça justiça: é preciso destacar a criatividade dos teólogos da prosperidade.
Praticamente, toda e qualquer passagem bíblica serve como pretexto para se
estabelecer esta relação de troca com Deus. Talvez todos os fiéis não estejam
sendo “abençoados” como desejariam, já que há apenas alguns
testemunham, e mesmo assim, escolhidos a dedo.

 

Sinal 
de  preocupação

Por outro
lado, os líderes destas igrejas parecem está em situação financeira bem melhor.

Este sinal
de alerta já chega a preocupar algumas lideranças protestantes. Vejamos o que
disse o Sr. Russell Philip Shedd ao ser entrevistado pela revista
“Vinde”: “Temos assistido a inúmeras dissidências entre pastores
e suas igrejas. Muitos saem para fundar seus próprios ministérios. Por que isso
acontece com tanta freqüência?”  Uma das principais motivações é a
financeira. Percebe-se que, quando o pastor que sua própria igreja e capacidade
de juntar pessoas que vão contribuir, sua vida vai melhorar. Em segundo lugar:
discordância com o líder. Ele acha que está mais certo do que seu superior,
então surge o conflito e ele sai.”

Traduzindo:
como primeira causa, o interesse financeiro. Depois, o orgulho do pastor em
achar que está mais certo que o outro. Obviamente ambos são causas, no mínimo,
inoportunas. No entanto, o que queremos destacar aqui é o alcance que a
Teologia da Prosperidade tomou. Antes, a causa maior de divisão entre os
protestantes era o orgulho (o maior dos sete pecados capitais!), no sentido de
que qualquer desavença teológica ou administrativa era motivo para fundar uma
seita. Basta analisar historicamente  como se fundaram algumas das tantas
denominações  pós-Reforma. Por pior que isto seja, mais recentemente
surgiu uma outra causa: o dinheiro. Neste nível, pode-se mesmo equiparar uma
igreja desta a uma empresa comercial qualquer, já que ambas possuem como
finalidade maior o lucro.

Em outra
reportagem da revista protestante “Vinde” (“Primo rico, primo
pobre”), faz-se menção a este fenômeno, que envolve tanto líderes
espirituais como fiéis: Ricardo Mariano, sociólogo que estuda há oito anos o
fenômeno pentecostal brasileiro, crê que essa remuneração é aceita com naturalidade
pelos membros da igreja pois eles vêm projetado na liderança seu próprio
anseio, como fruto da teologia da prosperidade. 

O sociólogo
acredita que a imagem propagada pela sociedade de que o pastor é sempre um
homem rico foi criada a partir de alguns exemplos na história recente da igreja
no Brasil e no EUA. “Líderes pentecostais de igrejas bem-sucedidas tendem
a ter um excelente padrão de vida, pois a administração da obra está
integralmente em suas mãos. É fácil observar quem tem este poder totalitário,
pois a coisa é tratada como negócio de família, e passa de pai para
filho”, explica o estudioso. (….)

Morando em
luxuosas mansões nos melhores bairros da cidade, ou mesmo em prósperos
balneários no exterior, incorporando personagens criados por seus assessores de
marketing e até ostentando jóias caras, eles mais se parecem com os emergentes
jogadores de futebol ou artistas de Hollywood. E, na maioria dos casos, é assim
que são tratados pelos fiéis, que os vêem como figuras míticas e exemplares. 
A visão cristã

Coitado do
são Francisco de Assis! A julgar pelos exemplos acima, de nada valeria o
testemunho do pobrezinho de Assis hoje.  Enquanto este último procurou se
desfazer dos seus bens, que mais atrapalhavam do que ajudavam em seu caminho
cristão, atualmente se prega justamente o contrário.

Óbvio que a
posse de bens não é um mal em
si. Como já foi dito, Deus sabe o que nos é necessário. Além
disso, quem muito possui, também possui o encargo de se colocar a serviço do
próximo, da comunidade. A quem muito foi dado, muito será exigido. Ou seja:
mesmo que alguém encarasse a riqueza como um dom, este dom, tal qual os demais,
não é para si, mas para ser usado em benefício de todos. E claro: por livre
doação, e não esperando acumular mais bens nesta vida.

“Não
ajunteis riquezas na terra, onde a traça e a ferrugem as corroem, e os ladrões
assaltam e roubam. Ajuntai riquezas no céu, onde nem traça nem ferrugem as
corroem, onde os ladrões não arrombam nem roubam. Pois onde estiver vosso
tesouro, aí também estará o coração.” (Mt 6,19 – 21)

O homem que
vive apegado a riqueza termina por ser seu escravo: “Pois onde estiver
vosso tesouro, aí também estará o coração”. Que tesouro Deus quer para nós
? Estas distrações e falsos deuses da terra, onde tudo é passageiro e
corruptível ?

“Ninguém
pode servir a dois senhores. Pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a
um e abandonará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6,
24)

Procurar o
Reino de Deus, servir a Deus… é esta a mensagem que o Evangelho passa. E como
tal, tudo tem que ser posto a seu serviço, incluindo as riquezas. Quando um
fiel doa à Igreja, não pode ser como quem resolve uma equação matemática,
esperando que na outra ponta, como resultado final e imediato, Deus lhe garanta
juros e dividendos de retorno.

De fato,
nesta vida se cumpre o que Cristo disse: “E quem não toma a sua cruz e não
me segue, não é digno de mim.” (Mt 10, 38)

Ou nas
palavras do Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina
da Fé: “Não há cristianismo sem martírio, como não há possibilidade de
crescimento sem sacrifício. A nossa é uma teologia da Cruz.”

Não é o
lucro fácil que move o cristão, mas a fé e a esperança nas promessas de Cristo. 
A felicidade plena e absoluta foi prometida para a outra vida (“Meu reino
não é deste mundo”), quando da nossa Ressurreição, em que veremos Deus
“face a  face”, e onde finalmente a alma humana encontrará
satisfação total.

por Cledson
Ramos

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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