Tempus Fugit Et Urget

Tempus fugit é a conhecida expressão usada por Virgílio, poeta romano, nas Geórgicas.  Antiga e sempre atual, esta expressão latina remete ao realismo do tempo que foge irreversivelmente. O tempo que passa contabiliza na vida as perdas e os ganhos. Os ganhos são possíveis e indispensáveis. Já as perdas, muitas vezes pesam e explicam os atrasos. Impedem conquistas e respostas às urgentes necessidades.

Esse tempo que corre veloz, sem que ninguém consiga detê-lo, deixa ecoar outra característica constitutiva: tempus urget. Tempo urgente que não só passa inexoravelmente veloz, mas também está sempre prenhe de exigências. Não se pode viver a vida simplesmente como um dia após o outro. O tempo da vida se torna um tribunal para cada um. Há um preço que se paga – e alto, para o tempo perdido. Este preço custa caro quando o tempo é vivido sem as dinâmicas advindas do compromisso com valores, longe de um adequado sentido de cidadania, do exercício responsável e honesto das responsabilidades pessoais, familiares e profissionais.

É grave a situação provocada pela falta de sentido adequado às exigências próprias de cada tempo e em cada etapa desta vita brevis. Impressiona a indiferença ante as respostas inadiáveis.

As etapas da vida são tempos assinalados por números de dias. Em cada tempo da vida se põe o desafio enorme de corresponder ao próprio de cada momento. Conta muito, especialmente nesta época quase ao fim da Quaresma, a acolhida dada à proposta de mudar a própria vida, de revisão de posturas e de submeter a um crivo exigente os próprios critérios adotados na regência do dia a dia. Quem acolheu o convite desafiador de escutar a Deus, de modo mais atento e frequente, já está experimentando algo novo que vai ser fecundado e coroado com a celebração da Páscoa – o grande retiro espiritual das comunidades de fé, aberto a todos pelas celebrações da semana maior, a Semana Santa.

O tempo que foge fugazmente sem o sentido de exigências pode ser de atrasos e derrotas – um tempo perdido. Um desastre imposto, não raras vezes, por uma cultura que não consegue lidar adequadamente com o inseparável sentido de exigências intrínsecas ao tempo que se vive. A cultura contemporânea, de modo geral, lida muito com o sentido de urgência. A dinâmica dos tempos cibernéticos cria hábitos, necessidades e demandas que não dispensam a rapidez. Depara-se aqui com um desafio enorme. O sentido de urgência, comum na dinâmica da cultura contemporânea, é um mecanismo, ao que parece apenas compreendido como meio de atendimento individualista, não raro pouco cidadão, de necessidades próprias.

Esse sentido de urgência precisa contracenar com o senso de exigência para impulsionar mudanças culturais que permitam avanços mais significativos. E urgentes, particularmente no atendimento às demandas cidadãs e à constituição adequada da estrutura de nossa sociedade, à luz dos valores nobres da fraternidade e da solidariedade.

Sem o sentido de exigência a ser correspondido, a sociedade brasileira, por exemplo, que avança economicamente, considerando sua posição no ranking mundial, sofre com atrasos absurdos. São frutos da desarticulação entre urgência e exigência na formação de uma cultura que desperte para o apreço de se trabalhar mais e melhor.

É tão difícil entender a morosidade que um planejamento leva para sair do papel, ainda que seja para o desenvolvimento e a adequada infraestrutura esperada há muito pelo povo. A burocracia é enlouquecedora com suas propriedades para atrasar processos, solapar avanços e hospedar nas suas sombras incompetências crassas.

Não menos grave é a alimentação de um falso sentido de bem-estar próprio que joga tudo o que for possível para depois, fecundando uma onda de conformismo, uma inapetência para reações e posturas que imprimam ritmos e dinâmicas novas no exercício da própria responsabilidade e na produção que deve advir do exercício profissional de cada um.

É hora de dar à nossa cultura o sentido próprio e incitante das dinâmicas advindas da consciência de que o tempo passa depressa e é exigente em respostas mais adequadas que possam nos tirar de tantos atrasos inaceitáveis.

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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