Temos de ser capazes de anunciar ao homem de hoje que a morte está realmente vencida, diz Dom Fisichella

Roma (Quinta-feira, 21-07-2011, Gaudium Press) “Temos de ser capazes de anunciar ao homem de hoje que a morte está realmente vencida”. Palavras de Dom Rino Fisichella. O presidente do recém-criado Pontifício Conselho para a Nova Evangelização fala nesta entrevista exclusiva à Gaudium Press sobre os desafios da evangelização no mundo atual, especialmente nos países ocidentais cada vez mais secularizados, e os projetos do novo dicastério para realizar esta missão.

Gaudium Press – Dom Fisichella, como o senhor vê a situação do cristianismo no Ocidente, atualmente?

D. Fisichella: A situação do cristianismo no Ocidente tem uma dupla face. São duas faces de uma mesma moeda. De um lado há uma grande situação de crise, determinada principalmente pelo fato de que por quase um século foi levada adiante uma mensagem cultural que acabou entrando no comportamento das pessoas, infelizmente: que é a de viver de uma maneira como se Deus não existisse, isto é, construir a própria vida prescindindo de Deus e prescindindo de uma relação com Ele. Isto levou progressivamente ao longo dos anos a gerações de pessoas que vivem na indiferença, que vivem também em um ateísmo de fato.

E depois, há um outro lado. Há um Ocidente que sente profundamente a nostalgia de Deus. Nestes meses eu encontrei tantas, milhares de pessoas, viajando pelos diversos países, aqui em Roma, nos congressos, em contatos pessoais; vi um extraordinário movimento de jovens que sente muito fortemente o tema da redescoberta da própria identidade e principalmente de uma relação muito séria com Deus. Há, portanto, estes dois elementos, que não digo que estejam em contraste, mas vivem provavelmente dentro da mesma realidade cultural e ainda não a conseguem comunicar. De forma que nós nos encontramos hoje diante de um homem contemporâneo que, talvez desiludido, provavelmente desiludido por tantas situações, está em busca de Deus. Nós devemos com o testemunho, com a experiência, ser capazes de encontrar a nova linguagem para comunicar esta nostalgia de Deus que cada um tem dentro de si.

Gaudium Press – Esta crise é muito presente já no pensamento do então professor Ratzinger. Quais são as suas atualidades para os nossos tempos no seu pensamento e como hoje, enquanto pontífice, Bento XVI enfrenta a situação da crise da fé?

D. Fisichella: Joseph Ratzinger já em 1968 – portanto em plena contestação – escrevia um livro muito importante, “Einführung in das Christentum”, “A introdução ao Cristianismo”. Esse é um livro que certamente marcou um momento particular na história do cristianismo porque é um livro no qual com profundidade o então professor Ratzinger fez análises da crise que viria a se manifestar e a qual ele encontrava já no pensamento de Gian Battista Vico.

Aquela análise é válida ainda hoje. Principalmente porque a vemos no comportamento das pessoas, isto é, ao progresso tecnológico e científico não corresponde por sua vez um progresso da ordem ética e da ordem religiosa. Por isto nós nos encontramos paradoxalmente com uma preparação científica, mas com uma preparação abaixo dos elementos elementares, por exemplo o cristianismo. Temos que preencher atualmente o vazio entre estes dois momentos e isto faz entender porque Bento XVI insiste tanto sobre a relação entre a fé e a razão. E sobre a capacidade de poder dialogar em vista de um progresso do homem. Porque se não há equilíbrio, então é inevitável que o homem pode crescer a nível científico, mas não poderá obter o sentido da própria vida, não poderá obter a salvação da ciência. Deus pertence a um outro âmbito, que não é o Deus da ciência e justamente daquela racionabilidade do homem que reflete sobre o sentido da própria vida e busca uma resposta. Esta resposta não pode vir de si, de si próprio, porque é contraditório. Não pode vir da ciência porque a ciência não dá uma resposta deste gênero. Deve necessariamente vir de uma relação recuperada com Deus. Nisto, me parece que a intuição profética de Bento XVI, de querer instituir o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, é a de ser realmente uma das respostas a estas exigências.

Gaudium Press – Depois de um ano da instituição do novo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, quais são os primeiros desafios a serem enfrentados pelo seu dicastério em resposta a este desejo de Deus?

D. Fisichella:  De um lado, primeiramente, há a consciência de sentir que a nova evangelização está sendo feita há muito tempo. Não esqueçamos que João Paulo II por 27 anos, durante seu pontificado, falou de uma nova evangelização e isto moveu muitas pessoas, bispos, sacerdotes, movimentos, associações, e suscitou neles um entusiasmo em dar uma resposta. Então, o primeiro balanço depois de um ano é perceber que a Igreja nos anos passados já fez muito na nova evangelização e os resultados se veem. Nós temos tantos jovens, como dizia antes, que estão cheios de entusiasmo em sua condição de ser cristãos. Tudo isto agora deve nos levar também a considerar de que modo toda a Igreja pode se colocar no caminho de uma nova evangelização. Porque esta é a missão da Igreja. A Igreja tem o dever de levar o Evangelho. O Senhor confiou à Igreja somente uma tarefa! Enviou os Apóstolos, seus discípulos, para anunciar o Evangelho, isto é, a sua ressurreição. Nós também hoje temos que ser capazes de levar ao mundo o anúncio que corresponde a destruir o último medo que o homem possui, o da morte. A ciência pode prolongar a vida – e ainda que nem sempre consiga prolongar a vida de forma coerente, temos que confiar nos resultados da ciência. Mas a ciência não pode dar a vida, principalmente aquela que dura para sempre. Este anúncio de uma vida eterna pode ser dado somente pela fé em Jesus Cristo. Eis o dever que nos espera: suscitar cada vez mais novos evangelizadores capazes, com o seu entusiasmo, com sua preparação, com seu testemunho, de anunciar ao homem de hoje que a morte está realmente vencida.

Gaudium Press – Como teólogo, o senhor pode explicar o significado do termo “nova evangelização”? Porque não foi usado o termo “reevangelização”?

D. Fisichella: Esta resposta poderá ser encontrada no meu livro que será lançado nos primeiros dias de outubro com o título “Nova Evangelização, um desafio”. Nele, explico porque João Paulo II usou a expressão “nova evangelização” e explico também porque é melhor usar “nova evangelização” em vez de “reevangelização”, já que nas línguas modernas este prefixo “re” tem significados diversos que comprometem o próprio termo. No livro explico isso tudo.

Gaudium Press – O próprio termo da nova evangelização nasceu no contexto latino-americano. Como vê a situação da fé neste continente?

D. Fisichella: O termo foi cunhado de fato na América Latina, provavelmente de forma quase casual. Foi usado no Haiti em 1979 e logo depois, em junho do mesmo ano, o Papa o usou, digamos, de maneira oficial. Já havia sido utilizado também na conclusão de um documento dos bispos.

Sabe, como acontece tantas vezes, usa-se uma expressão sem se dar conta da carga profética que ela poderia ter. A América Latina é um continente que tem grandes chances de grandes desafios. Grandes chances porque é ainda um continente extremamente jovem, com tantas potencialidades. São potencialidades de desenvolvimento, são grandes potencialidades econômicas, não esqueçamos, por exemplo, que o Brasil é um colosso da economia. Em um período em que todo o Ocidente vive uma profunda crise econômica, o Brasil não a vive. O Brasil vive em uma situação de grande desenvolvimento, assim como vivem também outras realidades e países da América Latina. Porém deve haver uma classe dirigente que não é somente a classe política. A América Latina deve ser capaz de expressar as próprias potencialidades também através de uma obra de promoção humana e social não indiferente. A América Latina não deve cair na armadilha de tornar-se uma sucursal dos Estados Unidos ou da Europa. Porque não é este modo que lhe permitirá expressar a própria identidade, uma identidade de antigas tradições culturais e religiosas que encontraram a própria expressão de promoção da verdade justamente no cristianismo.

Há grandes desafios. Como o de viver intensamente a fé sem cair na ilusão das seitas. As seitas podem contentar por um momento. Mas não levam à grande maturidade da fé, como é necessário. Pode-se ter grande piedade popular. Mas para um desenvolvimento coerente (da fé) deve haver também uma força da razão que permita a escolha da fé e que consinta a escolha de Deus, uma escolha de liberdade. E portanto não é somente uma escolha emotiva. Não é somente uma escolha de tradição, mas uma escolha livre, de pessoas que refletiram. Há ali, portanto, um grande processo em ação a partir desta perspectiva.

Há, contudo, também um grande dinamismo dentro das Igrejas da América Latina. Não esqueçamos do último encontro de Aparecida e o chamado à “missão continental”. Eu penso que a “missão continental” de fato deva ser a nova evangelização. E não pode ser apenas uma retomada pastoral, mas uma retomada pastoral feita na unidade entre as Igrejas que têm e compartilham uma cultura de base, feita também com a intenção de nova evangelização. E portanto com a capacidade de expressar da melhor maneira possível os conteúdos da fé e preparar também uma classe dirigente, capaz de expressar a presença católica nas diversas instâncias do país: na política, na cultural, na universitária, na formação nas escolas, na vida social.

Gaudium Press – Voltemos à Europa. Em 2012 nos espera o Sínodo sobre a Nova Evangelização, mas antes, na Quaresma, haverá a “Missão Metrópole” em algumas cidades europeias. Qual é o significado desta primeira iniciativa do dicastério? Porque a escolha destas cidades? Algumas delas parecem ser ainda aquelas de profunda fé cristã, como Lisboa em Portugal, ou Varsóvia, na Polônia.

D. Fisichella:  A maior parte destes países tem uma profunda tradição católica, mas muitas destas cidades são bastante secularizadas. Vejo por exemplo cidades como Liverpool, como Bruxelas. Uma cidade como Barcelona. E também mesmo cidades como Turim, na Itália. São grandes metrópoles onde há uma presença muito significativa da Igreja, mas onde também a taxa de secularização é muito forte.

Quisemos escolher doze cidades porque simboliza os doze apóstolos enviados por Jesus para anunciar o Evangelho. Assim, o primeiro elemento é a simbologia. Doze grandes metrópoles, doze grandes Igrejas que, juntas e contemporaneamente, trilham um caminho de nova evangelização. E é um caminho que se dividirá em duas partes.

A primeira entra na pastoral cotidiana e terá longa duração. Porque será o caminho da formação, da organização da formação, da catequese. Em como não limitar a formação, a catequese, somente nos momentos dos sacramentos da iniciação cristã, que são o Batismo, a Primeira Comunhão e a Crisma. A catequese exprime muito mais.

Mas há sinais que serão públicos e têm como coração a catedral. A catedral é o sinal da unidade da Igreja. É de onde o bispo evangeliza. É onde os cristãos recebem a fé. A catedral é o sinal que Igreja é mãe. Pense-se na catedral na Idade Média; o “grande despertar”, as grandes obras das catedrais são quase todas daquele período. E são o sinal da presença viva da Igreja na cidade. E portanto isto volta para nós como um elemento significativo.

Assim, há as doze Igrejas, nas doze Igrejas há o “coração”, que é a catedral, com todo o significado simbólico que possui. E a partir disso haverá uma leitura continuada das palavras de Deus. A primazia é da Palavra de Deus. Haverá então a catequese do bispo feita sobre o tema da fé aos jovens, às famílias, aos catecúmenos, e haverá o sacramento da reconciliação.

O convite de Paulo, “Deixai-vos reconciliar com Deus. Não fujais de Deus porque Deus tem os braços abertos”, é um anúncio de amor que é dado à cidade. Porque a reconciliação é antes de tudo amor. Como o filho que se afasta e depois compreende que afastado de Deus não pode fazer muito. E é também um sinal no qual a catedral reconhece que há tantas pessoas que buscam e que não são crentes.

Assim, ali está também o sinal da leitura das “Confissões” de Agostinho, sinal de uma busca constante de Deus que toca sempre o homem de todos os tempos, que se vê neste personagem que é Agostinho. Parece que estes traços, estes elementos, podem ser o início do caminho que ao longo do tempo será desenvolvido nas cidades.

Gaudium Press – Quais outros projetos estão sendo preparados?

D. Fisichella: No dia 15 e 16 de outubro o Papa encontrará os novos evangelizadores, os responsáveis da nova evangelização. Virão pessoas das Conferências Episcopais, das dioceses, sacerdotes, religiosos e religiosas, dos movimentos antigos, históricos e novos, de todas as realidades da Igreja. Teremos em Roma um momento muito significativo de um encontro dos novos evangelizadores da nova evangelização, mas dos responsáveis não pelas grandes multidões. Estarão presentes 8 mil pessoas que viverão esse momento juntas na Sala Paulo VI e depois participarão de uma missa celebrada pelo Papa.

Há também outros projetos que estão sendo pensados, mas dois quais não posso dizer nada ainda.

 
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Entrevista dada à correspondente Anna Artymiak

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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