Surpresa nos Museus Vaticanos

A coleção de Matisse faz um tributo à Verdade

Por Elizabeth Lev*

ROMA, segunda-feira, 27 de junho de 2011 (ZENIT.org) – Quando se pensa nos Museus Vaticanos, é a arte do Renascimento o que logo vem à mente. Por isso os visitantes se surpreendem ao ver que o mesmo museu que abriga Rafael e Michelangelo também tem estrelas modernas no firmamento.

Neste 22 de junho, o Vaticano atraiu atenção internacional para a sua coleção de arte do século XX apresentando mais um tesouro: a arte de Henri Matisse.

A galeria de arte moderna religiosa, localizada nos apartamentos de Alexandre VI e no porão da Capela Sistina, contém jóias pouco conhecidas, como uma Pietà de Van Gogh, pintada pouco antes de sua morte em 1890, e pinturas religiosas de Chagall.

Matisse não foi o mais cristão dos artistas: ele se definia agnóstico, mas aberto à fonte da beleza. E a Providência o levou, no final dos seus dias, a trabalhar para a Igreja.

Nascido em 1869, Matisse já tinha começado a estudar Direito quando decidiu se dedicar à pintura. Foi aluno de Gustave Moreau e, pouco depois, em 1905, co-fundou o fauvismo. Refletindo o espírito da época, o fauvismo foi um movimento de paganização, que glorificava a sensação intensa através da arte. Depois da I Guerra Mundial, Matisse rejeitou todo tipo de sofrimento em seus trabalhos e fez grande sucesso com suas cores alegres e desenhos chamativos, criando esculturas, pinturas e até vestuário para o teatro. Mudou-se para o sul da França, atraído pelas cores do Mediterrâneo.

Em 1941, depois de uma difícil e dolorosa operação de câncer, passou longo tempo de cama, com dor constante. Seu mundo brilhante chocou-se com a realidade do sofrimento. Monique Bourgeois, que cuidou dele, marcou o artista profundamente com sua caridade e bondade. Em 1946, Monique se tornou religiosa e entrou para o convento dominicano de Vence, trocando de nome para irmã Jacques Marie.

Foi quando surgiu a ideia de construir uma nova capela para o convento de Vence, dedicada ao terço. Matisse, a irmã Jacques Marie, a irmã Agnes de Jesus, superiora do convento, um irmão dominicano, Rayssiguier, e o padre dominicano Marie-Alain Couturier, começaram a trabalhar para transformar o sonho em capela. Completamente comprometido com o projeto, Matisse vendeu suas litografias para conseguir dinheiro. Seu velho amigo Picasso ficou horrorizado: “Uma igreja! Por que não um mercado? Pelo menos você poderia pintar frutas e verduras!”.

Matisse fez centenas de esboços do trabalho, pintando as paredes na cadeira de rodas, com um pincel enganchado a uma vara extensível. Desenhou cada aspecto da capela: os vitrais coloridos, as vestimentas e até um crucifixo de bronze para o altar. O artista sempre planejou doar os esboços a um museu, dizendo que “seria uma loucura que eles e as janelas permanecessem no mesmo lugar”.

Os esboços dos vitrais foram doados ao Vaticano há 30 anos pelo filho do artista, Pierre, de acordo com seus irmãos Margarita e Jean, e, em 1980, chegaram à coleção do Vaticano. Também foi doada a correspondência entre Matisse e a irmã Agnes de Jesus, sobre o desenvolvimento da capela. As cartas testemunham o crescimento do primeiro projeto religioso de Matisse.

O grande esboço de Maria com o Menino Jesus, realizado para a decoração em cerâmica, foi exposto na Galeria de Arte Religiosa Moderna, mas a exposição nunca fez justiça ao trabalho nem representou a importância da doação. As cartas, por sua vez, ficaram sem publicação.

Matisse abriu a capela em junho de 1951. Exatamente 70 anos depois, os Museus Vaticanos abrem a nova sala de Matisse. O financiamento e a ideia do projeto vieram dos patrocinadores dos Museus Vaticanos, particularmente do Capítulo de Montecarlo, a poucas milhas de Vence. Liana Marabini, presidente do Capítulo de Montecarlo, providenciou o necessário para preparar a sala de exposição com equipes de conservação para papel e tecidos, permitindo assim que os Museus Vaticanos ilustrassem a conversão artística de Matisse.

Os esboços dos vitrais estão distribuídos brilhantemente, mas a sala é dominada pelo grande esboço de Maria e do Jesus Menino. O padre Marie-Alain Couturier, conselheiro teológico de Matisse, interpretou as linhas como “cartas escritas apressadamente, sob o impacto de uma grande emoção”. Há também uma cópia do crucifixo de bronze da capela. Um vídeo curto narra os fatos que levaram Matisse à arte religiosa. As cartas ficarão no mesmo espaço, para ser vistas depois de algumas casulas desenhadas pelo artista.

Michel Forti, o curador do departamento de arte religiosa moderna dos Museus Vaticanos, publicará a coleção das cartas de Matisse em dezembro num volume intitulado “Como uma flor: Matisse e a Capela do Rosário de Vence”.

Matisse considerou a capela sua “obra-prima”, apesar de algumas imperfeições. É uma reflexão iluminadora de um homem cuja carreira de 50 anos de duração tinha sido inteiramente dedicada às coisas mundanas. A Sala Matisse do Vaticano é a expressão perfeita da missão do Museu: preservar e honrar um grande exemplo do gênio criativo humano, mas também proclamar que a Verdade inspira tanto a beleza como a bondade.

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Poesia, pintura e procissões

Na última quinta-feira, Roma celebrou a festa de Corpus Christi com as procissões eucarísticas que atravessam a cidade, sendo a mais importante delas a procissão papal de São João de Latrão até Santa Maria Maior. Os cantos encheram o ar e estandartes flutuaram pelas ruas, mas o efêmero dessas visões se desvaneceu depressa. Nos Museus Vaticanos, porém, restaurada há pouco, a “Missa em Bolsena”, de Rafael Sanzio, imortaliza o milagre eucarístico em pedras coloridas.

O Milagre de Bolsena, frequentemente considerado o catalizador da festa de Corpus Christi, recorda um evento ocorrido na Umbria (Itália), em 1263. Um sacerdote chamado Pedro, da cidade de Praga, tinha muitas dúvidas sobre a transubstanciação da Hóstia durante a Missa, e durante sua peregrinação a Roma, rezou para que essas dúvidas fossem resolvidas. Enquanto dizia as palavras de consagração na Igreja de Santa Cristina de Bolsena, a Hóstia começou a gotejar sangue em suas mãos e no pano que havia embaixo.

Um ano depois, o Papa Urbano IV instituiu a festa do Corpus Domini com a bula Transiturus de hoc mundo, e encarregou Tomás de Aquino de escrever a liturgia da festa. O Doutor Angélico escreveu, assim, dois de seus melhores hinos, Pange Lingua e Tantum Ergo.

O corporal de Bolsena é ainda conservado na catedral de Orvieto, construída especificamente para albergar esta preciosa relíquia.

Rafael deu sua própria contribuição, imortalizando este milagre quando pintou em 1512 “O Milagre de Bolsena” nos apartamentos do Papa Julio II. A pintura, restaurada, traz o milagre da vida em cores vívidas.

O sacerdote se ajoelha perante o altar, olhando a Eucaristia, que tem uma cruz feita com sangue na Hóstia e no corporal. Seus lábios demonstram surpresa, mas a figura mantém a dignidade que se espera de um celebrante. As reações dramáticas reservam-se para a multidão reunida atrás, pessoas que levantam a cabeça para contemplar o milagre ou viram para contar a quem está ao lado. O altar está marcado por uma arquitetura monumental, absorvida por Rafael através de seu parente, o arquiteto papal, Donato Bramante. Robustas colunas dóricas alcançam o céu e a parte superior da pintura está aberta a um céu atravessado pela luz.

Do outro lado de Pedro de Praga há um dado anacrónico, o Papa Julio II se ajoelha com a cabeça descoberta, e quatro de seus cardeais e um pequeno contingente da Guarda Suíça.

Dois elementos destacam-se no trabalho. O primeiro é a solenidade do clero em oração. Comparada com outros trabalhos da sala – a fuga dramática de Pedro da prisão de Herodes, a perseguição e captura de Heliodoro e a expulsão de Átila, o huno – o olho encontra descanso quando centra sua atenção na contemplação do milagre.

O segundo elemento que se destaca, revelado com a recente restauração, é a cor. Rafael tinha estado em contato com os pintores venezianos nesse período e o novo uso da cor se destaca em meio ao dramático claro-escuro da Libertação de São Pedro e as brilhantes cores metálicas da Expulsão de Heliodoro. As cores de Rafael parecem tangíveis – rico e pesado carmesim que parece ondular. O vermelho do sangue se combina com o branco cru do linho ou da seda.

As qualidades sensoriais da superfície da obra evidenciam a realidade da cena: o sangue que goteja das mãos do sacerdote e o pano marcado com o sangue de Cristo nos tornam real a Presença na Eucaristia, um dos principais temas dos séculos XIII e XIV.

São Tomás com a poesia, Roma em procissão e Rafael com sua obra nos recordam o mesmo tema que o beato João Paulo II destacou em 2004: A Igreja Católica é a Igreja da Eucaristia.

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* Elizabeth Lev leciona Arte e Arquitetura Cristãs no campus italiano da Duquesne University e no programa de Estudos Católicos da Universidade San Tommaso.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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