Stigmata – Filme

O quinto evangelho, segundo o herético filme norte-americano
Stigmata, teria sido escondido do mundo pela Igreja Católica para que esta
assegurasse seu poder. O quinto evangelho anunciaria o sentimento religioso, a
desnecessidade de cumprir quaisquer ritos religiosos e o culto exclusivo a um
Deus tão interior e pessoal quanto o umbigo do fiel. São estas as principais
heresias desse filme que integra a última fornada de filmes anticristãos,
entre os quais se incluem desde ‘O Padre’, da Walt Disney, até ‘Dogma’, da mesma
produtora. No entanto, e apesar de ser forte a concorrência, Stigmata é de
longe o mais herético, e foi por isto o único a merecer um artigo.

Mas ainda não disse tudo. Releio a última frase acima e vejo que
faltou dizer o principal, aquilo que realmente me motivou a escrever estas
linhas: faltou dizer que Stigmata é um filme diferente. Ora, não há um único
filme hoje em dia que não seja ou contenha algo de anticristão. Vivemos numa
espécie de militância constante; cada filme, cada revista, a cultura toda
parece estar unida em torno de uma única coisa, a crítica ao cristianismo. Ora,
se isso é verdade, por que escrever a resenha de mais um filme anticristão?
Por que se importar? Como disse, Stigmata é um filme diferente pois traz ..
uma “boa mensagem”. Quase diria, uma “boa nova”, um novo – “o
quinto” – evangelho.

Botando os pés bem firmes no chão, sabemos que a ideia de um
quinto evangelho escondido pela Igreja é, em si mesma, absurda. Mais ainda,
sabemos que um evangelho tal como o proposto pelo filme seria a negação direta
dos outros quatro evangelhos. Em outras palavras, o quinto evangelho seria a
inversão do catolicismo – ou seja, algo de puramente sinistro. Mas o que mais
me espanta é saber de pessoas que assistiram o filme e saíram felizes,
acreditando que o filme encerrava uma mensagem de bem. “Chegará um tempo
em que aqueles que vos perseguirem acreditarão estar a serviço de Deus”. É
curioso observar que o slogan do filme diz, sem ironia, que Stigmata
“trará o inferno para dentro de você”.

Quanto às ideias principais deste quinto evangelho, conforme descritas
no primeiro parágrafo desse texto, não passam de absurdos puro e simples. A
ideia da Igreja ter escondido o evangelho para manter seu poder não só confunde
poder temporal com autoridade espiritual – separação aliás que é justamente uma
das marcas do catolicismo, sobretudo ao compará-lo com o mundo pagão da época –
como faz tábula rasa dos 300 anos de martírio na fundação mesma da religião, e
de toda a Idade Média. De fato, o poder temporal do catolicismo, tal como o
conhecemos, data da Renascença.

Já a ideia do primado do sentimento religioso sobre a fé, fruto da
concepção de um Deus pessoal, é um deleite pela facilidade de se ver refutada:
em primeiro lugar, o sentimento religioso é um sentimento, provém dos sentidos,
portanto. Já a fé é uma adesão da inteligência a uma Verdade intuída, logo é um
ato de intelecção. Assim sendo, afirmar o primado do sentimento religioso sobre
a fé é o mesmo que afirmar o primado dos sentimentos sobre a inteligência, o
que é estúpido; em segundo lugar, o sentimento religioso, a religiosidade, tal
como definida usualmente, é comum a todos os homens, independente de serem
cristãos, judeus ou pagãos. Ora, se o sentimento religioso é superior à fé,
para que, então, ocorrem as revelações? Por que o Cristo então incentivou tão acentuado
desvio em relação ao mundo pagão? Qual o sentido do martírio, não apenas dos
primeiros cristãos, mas do próprio Cristo?

A ideia do Deus pessoal, epítome dessa brincadeira ímpia chamada
New Age, não passa de uma tolice kantiana digna de Shirley McLaine e indigna de
qualquer pessoa que queira ser levada a sério. Que absurdo este que coloca
sobre o sacrifício muito objetivo do Cristo no Gólgota a própria subjetividade!
Crer num Deus pessoal, subjetivo, significa necessariamente que:

a.      
Deus
existe somente subjetivamente; ou que

b.      
Deus
existe objetivamente, mas só pode ser conhecido subjetivamente.

A primeira conclusão significa precisamente que Deus não existe e,
portanto, tanto faz se nele cremos ou não. A segunda conclusão, por sua vez,
significa que Deus existe mas não podemos crer nele, pois não é possível crer
ou descrer em algo que desconhecemos totalmente. Deus, segundo esta última
conclusão, teria provavelmente, em sua infinita sabedoria, criado a imaginação
para completarmos Sua ausência com nossa criatividade… Seria como um pai que
abandonasse as crianças embaixo da ponte e lhes desse, como consolo, uma
caixinha de lápis de colorir. O que mais me impressiona nesta teoria, uma das
favoritas do festivo movimento New Age, é ver a quantidade de livros que sobre
esse assunto são publicados; ora, se Deus é pessoal, se não pode ser conhecido
objetivamente, o que adianta escrever a Seu respeito?

Resta por fim, entre as várias heresias do filme, analisar
justamente aquela que leva o título. Não importa o que possam dizer os
protestantes, os espíritas, os umbandistas, pois estigma é sinal de santidade.
Francisco de Assis, após toda uma vida de santidade, recebeu, no momento mais
sublime de sua história, as 5 chagas do Cristo. Um outro exemplo é o do recém
beatificado Padre Pio, cujo processo de canonização está sendo movido pelo
próprio Papa João Paulo II, testemunha ocular de um dos seus milagres. O
capuchinho de Pietrelcina, que hoje só perde em devotos na Itália para o
próprio Francisco de Assis, portou durante 50 anos as chagas, e é grande o
número de fotos do frade e seus estigmas1.

Podem, alguns argumentar que se trata apenas de uma ficção, mas a
história está repleta de exemplos de ficções que, à opinião pública,
tornaram-se realidade: tome os exemplos dos papas Alexandre Bórgia2
e Pio XII, por exemplo. Em ambos os casos, bastou uma simples peça de teatro
difamatória para macular a imagem destes grandes papas para todas as gerações
posteriores. A falta de informação da maioria das pessoas faz com que, a seus
olhos, a ficção se torne verossímil – o que já é motivo suficiente para se
combater o filme. Pois consentir na sua verossimilhança, já é concorrer para a
apostasia.

Notas:

1 Remeto o leitor ao site http://www.capuchinfriars.org.au/padrepio.htm
ou o mais completo http://www.abol.it/padrepio.

2 O papa Alexandre VI, avô de
S. Francisco de Bórgia, teve de fato amantes, a maioria das quais antes de ter
sido ordenado, mas nunca foi provado, e é de fato inverossímil que tenha tido a
própria filha como amante. Quando repreendido por sua conduta, o papa pediu
publicamente perdão por suas faltas e só não deixou a Santa Sé porque os fiéis,
em reconhecimento de tudo aquilo que ele havia feito pela Igreja, foram contra.
Autor: Alexandre A. Bastos
Fonte: Lista Reflexões

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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