Site Montfort, tradicionalistas, integristas e males congêneres…

Meus caro e paciente Leitor, coloco aqui uma série de textos que escrevi com o intuito de esclarecer a quem interessar possa sobre as aberrações teológicas do site Montfort. Trata-se de um ideário muito perigoso, pois que no intuito de ser muito católico, induz à formação de uma seita, um grupelho de apegados a um tradicionalismo bobo, sob o pretexto de Tradição. Com isso, negam toda a Tradição da Igreja, que é aquela de comunhão serena, leal e sincera com o Sucessor de Pedro e os Bispos em comunhão com ele. O pessoal do site Montfort quer tomar o lugar do Papa e do episcopado como últimos critérios de intérpretes da Tradição e da fé da Igreja. Terminarão fora da comunhão visível da Igreja, como os lefebvrianos…

A iniciativa de reunir num só lugar o que escrevi é para facilitar que o Leitor tenha uma visão do tema. Eis os textos:

Site Montfort… Não é tão católico quanto gostaria de ser!

Caros Visitantes, várias pessoas têm perguntado sobre as idéias e opiniões do site Montfort. Trata-se de um site católico, de pessoas que, penso, sejam sinceras.

No entanto, as idéias expressas nesse site não são expressão do sentir da Igreja. Há nele alguns graves problemas teológicos, que podem levar a uma deturpação da fé católica e chegar mesmo a uma ruptura com a Igreja.

Eis alguns pontos, entre outros:

1. Uma triste confusão entre Tradição e tradicionalismo, que termina por motivar um apego a formas e expressões do catolicismo que não são normativas nem obrigatórias nos dias atuais.

2. Alguns documentos do Magistério da Igreja são lidos de modo fundamentalista, fora do contexto histórico que lhes deram origem. O resultado é uma teologia torta, fechada e que em muito pouco exprime a genuína fé católica.

3. Há uma clara tendência de desvalorizar e menosprezar o Concílio Vaticano II. Isto é absolutamente inadmissível! O Concílio tem tanta autoridade quanto os concílios anteriores. Não se pode responder aos exageros “progressistas” da interpretação conciliar com os exageros “tradicionalistas” e integristas! Não se deve ser mais papista que o Papa! Um bom católico estará sempre em sincera comunhão com o Papa – e os papas Beato João XXIII, Servo de Deus Paulo VI, Servo de Deus João Paulo I, Servo de Deus João Paulo II Magno e Bento XVI sempre defenderam o Vaticano II na sua integridade e procuram coibir os excessos que possam existir na interpretação do Concílio. Combater o Vaticano II é colocar-se em choque com o Magistério papal e com o Colégio Episcopal, que são assistidos pelo Espírito Santo. Eis aqui um perigoso caminho que peca por presunção de ter mais discernimento que os legítimos pastores da Igreja, a quem o prometeu sua assistência! Toda vez que isso aconteceu, terminou-se numa triste heresia e em doloroso cisma…

4. Há um endeusamento da Missa de São Pio V que é errado, fora de contexto e trai a grande tradição litúrgica da Igreja. A Igreja tem, teve e terá sempre o direito e o dever de modificar seus ritos, de acordo com as circunstâncias e o discernimento da legítima autoridade apostólica, desde que não fira a essência mesma da estrutura sacramental. Nunca passou pela cabeça do Papa São Pio V que o missal por ele aprovado fosse eterno, perpétuo e irretocável! Isso é totalmente descabido e contrário à grande Tradição da Igreja! Nem os ritos primitivos, praticados pelos Apóstolos, tiveram essa pretensão de irretocabilidade! Essa idéia vem deu ma leitura que peca gravemente no seu método hermenêutico… Aqui acontece o que acontece com os protestantes fundamentalistas quando lêem a Bíblia! É verdade que tem havido graves distorções na liturgia no Brasil e no mundo, mas não se corrige tais problemas com soluções erradas e artificiais. Notem os meus leitores que o Papa Bento XVI é um amigo da Missa de São Pio V, mas não cai nos exageros dos tradicionalistas nem em desautoriza em nada o Concílio Vaticano II e o Missal de Paulo VI, tão legítimo quanto o trindentino.

Não duvido da boa fé desse irmãos do site Montfort e admiro seu desejo de transmitir a fé católica, mas lamento muito que confundam a fé da Igreja com uma determinada mentalidade, estreitando o frescor do Evangelho e desconhecendo que a Igreja é o Povo de Deus reunido como Corpo de Cristo e feito Templo do Espírito Santo peregrinando na história “entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus” até a Pátria eterna. Não se pode confundir a sensibilidade da Igreja em determinada época com a sensibilidade que deve perdurar para sempre…

Sugiro, portanto, aos meus caros Visitantes, muita prudência ao visitar o referido site, sabendo que estão entrando em contato com opiniões de um grupo que não está em plena sintonia com o sentimento da Igreja e de seus pastores, correndo, assim, o risco de afastarem-se da plena comunhão com a Igreja… O que ali houver de bom, aproveitem; o que tiver gosto de um tradicionalismo que se afasta do sentir do Papa e do Colégio Episcopal, evitem e não sigam…

Excessos litúrgicos

Não sei se por influência daquele site chamado “Monfort” ou se por outro motivo, têm aparecido jovens com o desejo de participar da Santa Missa no rito de S. Pio V ou, pelo menos, no rito do Missal de Paulo VI em latim.

É um direito dos fiéis católicos participarem da Missa segundo o missal anterior ao atual. Basta que o Bispo diocesano julgue conveniente o pedido e determine uma igreja para a celebração.

No entanto, se esse desejo nascer de uma visão reacionária contra o Concílio Vaticano II e contra o Missal atual, promulgado pelo Papa Paulo VI – e esta é a visão do site Monfort -, tal desejo e tal pedido não podem ter cidadania na Igreja.

Quem nega a autoridade do Concílio Vaticano II e suas determinações ou quem refuta o Missal de Paulo VI, aprovado pela autoridade de um Papa legítimo e acolhido por todo o Episcopado e por toda a Igreja, afasta-se gravemente da comunhão de sentimento com a Igreja de Cristo. Isso é, pelo menos, temeridade, além de uma enorme soberba: pensar que compreende melhor a fé católica e lê melhor a Tradição que o próprio Episcopado em comunhão com o Sucessor de Pedro!

É assim: quando o Diabo não derruba pelo menos, ataca pelo mais!

No outro extremo está a contínua bagunça por parte do clero na celebração da Missa, num teimoso desrespeito ao Missal de Paulo VI e às normas litúrgicas da Igreja. De nada – de nada mesmo! – adiantaram os documentos de João Paulo II, da Congregação para o Culto Divino e de Bento XVI: cada um continua fazendo como bem quer e entende… E fica tudo por isso mesmo! Atualmente, chique é inventar moda na Missa! Cada um inventa a sua, pensando que descobriu a pólvora e inventou a roda!

É assim: um extremo leva a outro; excesso chama excesso…

O site Montfort: doce veneno

Apareceu no site Montfort uma forte reação ao que escrevi sobre o referido site e a respeito da Missa de São Pio V como ele apresenta e defende (procure aqui o meu texto)… Não o transcreverei aqui e não indicarei o local do artigo, pois penso, sinceramente, que não vale a pena. Somente, a quem interessar possa, digo quanto segue, como sacerdote católico que deseja estar em plena, sincera e filial comunhão com a Igreja e seus legítimos pastores:

1. Reitero tudo quanto afirmei. O site Montfort desautoriza o Papa Paulo VI e seus sucessores e, assim, põe-se em rota de colisão com a Igreja. A fidelidade à Igreja católica não é a uma Igreja idealizada, mas à Igreja de hoje, com seus pastores e seus desafios!

2. Apesar de desejar ser sinceramente católico, esse site tem feito mal a muita gente que, sem critérios suficientes, termina caindo numa visão estreita do que é o cristianismo, a Igreja e a liturgia católica, com a boa fé e o triste engano de ser fiel à Tradição. A Tradição aí é confundida com imobilismo e rigidez… É esta miopia no modo de compreendê-la que chamo de tradicionalismo. O cristianismo é tradicional, não tradicionalista ou reacionário!

3. De modo gravíssimo, o pessoal do site Montfort desautoriza e tenta esvaziar o Concílio Vaticano II. É o mesmo erro dos que tentam esvaziar o Concílio de Trento e o Concílio Vaticano I. Todo católico deve ter o Vaticano II em tanta estima e considerção quanto qualquer outro concílio ecumênico. Com os mesmos argumentos tortos do pessoal do Montfort, há aqueles que desejam reduzir os concílios pós 1054 a concílios gerais do Ocidente. Exagero vai, exagero vem – e quem periclita é a fé católica e a unidade da Igreja!

4. O site Montfort adota uma visão meio paranóica, vendo conspiração maçônica e modernista em toda parte! O modernismo foi um erro combatido a seu tempo. Ainda hoje influencia certa teologia. Mas, não tem o menor sentido viver numa cruzada paranoicamente anti-modernista! Acusam de modernismo grandes teólogos do século XX, como Henri de Lubac e Yves Congar e denigrem a memória do grande teólogo Hans Urs von Balthasar! Todos esses teólogos eminentes e santos, apesar de serem somente padres, foram feitos cardeais por João Paulo II Magno e são queridíssimos de Bento XVI. Quanto a de Lubac, Ratzinger o considera um de seus mestres! Será que João Paulo II e Bento XVI são hereges modernistas? Ou será que são ignorantes tolos, que nem percebem o perigo desses teólogos? O site Montfort e outros sites tradicionalistas alardeam fidelidade ao Papa e depois minam-lhe a autoridade; citam o que interessa dos livros de Ratzinger, mas ignoram solenemente que o mestre teológico de Ratzinger é de Lubac! O Papa, para eles, serve somente no que lhes convém! É o mesmo raciocínio do pessoal da Teologia da Libertação! Os extremos se tocam…

5. O articulista do site Montfort foi injusto e desleal para comigo ao afirmar que defendo a ressurreição imediatamente após a morte. Não é verdade! Sempre critiquei duramente tal impostação! A ressurreição é um processo que se inicia logo após a morte, com a glorificação da alma, e terá sua consumação com a ressurreição corporal, no final dos tempos. É isso que ensino; é isso que a Igreja crê e a Congregação para a Doutrina da Fé reafirmou há alguns anos. E só isso. Não se deveria impugnar um sacerdote por ” eu ouvi dizer que” e por suposições infndadas… Seria bom fazer um exame de consciência! No entanto, sei que o meu modo de fazer teologia não agradaria ao pessoal do Montfort. Sou de outra escola e sou plenamente católico, sem restrições a papas ou concílios. Até me criticam por chamar de “Magno” a João Paulo II, afirmando que a Igreja não lhe deu esse título. A verdade, é que não aceitam realmente o Papa João Paulo… Quanto ao título “magno”, não é a Igreja quem o dá, mas a própria história pela boca das gerações. “Magno” não é título religioso! Por isso, Alexandre Magno, Pompeu Magno, Constantino Magno, Carlos Magno… Posso chamar João Paulo II de Magno (Grande), sim! Posso e devo, porque ele o foi: homem da Tradição, consciente do presente e aberto ao futuro! Nunca foi um tradicionalista enferrujado, peneumatômaco (= assassino do Espírito)! Assim, “Magno”, o chamou o Cardeal Sodano na homilia da Missa do dia seguinte à sua piedosa morte (“João Paulo, o Grande”); assim o chamou Bento XVI na sua primeira palavra após a eleição: “Depois do Grande Papa João Paulo II”; assim muitos o chamam na Europa… Estou bem acompanhado, portanto!

6. Quanto à discussão sobre o poligenismo ou monogenismo, é questão absolutamente aberta (não adianta citar erroneamente a Humani Generis de Pio XII, que não se pronunciou de modo infalível). Qualquer teólogo católico dirá isso. Nenhum católico é obrigado a pensar que a humanidade veio de um só casal. Eu defendo claramente o poligenismo, mas respeito quem pensa diversamente, pois não é assunto fechado. O problema do pessoal do Montfort é que também não aceita outra leitura da Escritura a não ser a que despreza o estudo dos gêneros literários (recomendado vivamente deste o tempo de Pio XII!)… É triste quando a fé tem que enterrar a cabeça para não ver a realidade e já não leva a sério as descobertas sérias da ciência! Que ironia: o pessoal do Montfort, que tem tanta raiva dos protestantes, nisso, é igualzinho aos protestantes fundamentalistas pentecostais dos EUA, que desejam proibir que se ensine a evolução nas escolas!

7. O problema do pessoal do Montfort é muita vontade de conhecer a teologia católica, mas sem os pressupostos teológicos necessários. Por falta de uma criteriologia no que diz respeito aos instrumentos hermenêuticos da ciência teológica, cai-se, então num fundamentalismo de dar pena – e me dá mesmo, sinceramente, porque esse pessoal, com seu zelo, poderia fazer um bem imenso à Igreja. Por outro lado, é doença intelectual mesmo dizer “odeio tudo que é moderno”. E é contraditório, pois se escreve isso com o teclado de um moderno computador, usando a internet, o meio mais moderno de comunicação! Pensem na esquizofrenia!

8. Não pretendo polemizar, mas repito: cuidado com o site Montfort, pois está se afastando do sentir com a Igreja… É o caminho que leva à heresia e ao cisma. É bom evitá-lo! Queira Deus que os jovens não se deixem levar por essas idéias obsessivas… É uma pena, porque a absolutização da própria Missa de São Pio V (em si, bela e legítima, mas chamada erroneamante de “Missa de Sempre” devido a um endeusamento, uma absolutização imprópria da liturgia de uma época determinada) terminará por fazer com que muitos Bispos neguem a permissão para celebrá-la, já que começa a se tornar uma bandeira do tradicionalismo (no sentido negativo mesmo) e do integrismo! Eu mesmo, que nada tenho contra esse belo rito, jamais o celebraria por quem me pedisse com essa mentalidade integrista; penso que nenhum Bispo de responsabilidade e senso eclesial fá-lo-ia!

Que pena! Repito: cuidado com o site Montfort: está fazendo mal; parece doce católico, mas é veneno! Descobri que aquele articulista lá não é tão sincero e honesto intelectualmente como eu pensava. Na verdade, é um bom sofista que adora arengar feito galo de briga, vendo heresia e perigo por todo lado! E só!

Ainda sobre a Missa segundo o Missal de São Pio V

Caro e paciente Visitante meu, somente para que os leitores menos familiarizados com a guerra que os sites tradicionalistas (que são muitos) fazem contra a Missa no rito do Missal de Paulo VI, gostaria de esclarecer que o grande cavalo da batalha desses grupos é a Bula Bula Quo Primum Tempore, de São Pio V, datada de 1570. Nesta bula, o Papa promulga o Missal Romano reformado por determinação do Concílio de Trento. Lá para as tantas, explicitando a promulgação, com a linguagem solene e peremptória própria dos papas dos séculos anteriores, o Santo Padre Pio V afirma: “A fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas…” Mais adiante, o Papa afirma: “Quanto a todas as outras sobreditas Igrejas, por Nossa presente Constituição, que será valida para sempre, Nós decretamos e ordenamos, sob pena de nossa indignação, que o uso de seus missais próprios seja supresso e sejam eles radical e totalmente rejeitados; e, quanto ao Nosso presente Missal recentemente publicado, nada jamais lhe deverá ser acrescentado, nem supresso, nem modificado”. São estes “para sempre” o cavalo de batalha dos tradicionalistas: nunca, jamais, de nenhum modo, em tempo algum poder-se-ia alterar o rito da Missa tal como Pio V o aprovou! Ora, afirmar isto é algo totalmente fora de propósito e teologicamente errôneo! Dou somente alguns motivos:

1. É necessário compreender o contexto desta Bula. A Igreja estava reagindo à Reforma protestante, que difundiu erros graves contra a fé católica. Muitos desses erros tocavam os sacramentos, sobretudo a Eucaristia. Um dos modos que a Igreja julgou eficaz para combater o erro e manter a unidade da fé foi desencorajar o uso dos vários ritos de celebração da Missa, ritos que existiam em várias regiões da Europa. Só a título de exemplo: o rito ambrosiano, na Diocese de Milão, o rito próprio da Diocese de Braga, o rito de Dijon, ainda hoje com alguns resquícios entre os monges trapistas, o rito da Grenoble, guardado pelos monges cartuxos, o rito moçarábico, em regiões da Espanha, etc. Por isso mesmo, na sua Bula, São Pio V determina que somente é permitido que permaneçam sendo usados os ritos que tenham mais de 200 anos. Interessante que o santo Papa nunca pensou que em toda a Igreja deveria existir somente o rito do missal que ele estava aprovando. Os ritos ocidentais com mais de 200 anos poderiam continuar existindo; sem contar os venerabilíssimos ritos das Igrejas orientais católicas ou ortodoxas, como a liturgia da São Basílio ou a de São João Crisóstomo, que a Igreja sempre teve em alta conta… Se a grande maioria dos ritos ocidentais desapareceu não foi por proibição de São Pio V, mas por obra dos monges beneditinos de Solesmes, na França, que no século XIX fizeram todo um trabalho de exaltação do rito romano com sua sobriedade, e crítica a aspectos dos outros ritos. Era uma época de forte centralização romana na Igreja, por motivos históricos válidos e compreensíveis.

2. O Santo Padre Pio V, com a linguagem que usou, jamais pensou em proclamar como um “dogma” o seu Missal! Um papa – qualquer papa – somente pode falar de modo definitivo e infalível em dois casos: 1) Quando proclama ou ensina “ex cathedra” sobre fé e moral, nunca sobre disciplina litúrgica não revelada e 2) Quando, interpretando o magistério ordinário do inteiro Colégio dos Bispos sobre fé e moral, proclama que uma determinada doutrina de fé e moral pertence à fé católica tal como revelada por Deus – e isto de modo definitivo (foi o caso da doutrina segundo a qual as mulheres não podem receber a ordenação sacerdotal. Esta sim, é definitiva e irreformável!). Fora disso, o Papa não pode falar de modo definitivo! São Pio V, coitado, apenas promulgou uma Bula para aprovar o belíssimo Missal, fruto da reforma litúrgica do Concílio de Trento! Nunca, em quinhentos anos, se pensou que o Missal seria irreformável! A prova disso é que o Bem-aventurado João XXIII, antes do Vaticano II, fizera uma pequena modificação no Cânon Romano, acrescentando à lista dos santos aí citados, o nome de São José, esposo da Virgem Maria. Pela interpretação dos tradicionalistas, jamais João XXIII poderia ter feito isso!

3. Nenhum Papa é obrigado a manter as normas disciplinares de um outro. O Papa somente não pode mudar aquilo que é de fé e moral revelada e, portanto, faz parte do Depósito da Fé! Quanto ao resto, ele tem plena autoridade na Igreja! O Papa atual não é são Pio V: é Bento XVI, como o da reforma litúrgica pós-Vaticano II era o Servo de Deus Paulo VI, de santa memória! Cada um, no seu tempo, gozou de poder supremo, imediato, episcopal e pleno na Igreja por vontade do próprio Senhor.

4. É importante recordar que sempre a liturgia da Missa, desde as origens, vem passando por reformas e evoluções – é coisa normal. Compete ao Papa a última palavra sobre esses assuntos. É verdade que o Missal de Paulo VI é fruto de uma reforma bastante profunda em relação ao Missal anterior. O atual Papa reconhece isso. Ele admira e vê muitos méritos no atual Missal, mas lamenta que não se tenha preservado mais do antigo Missal. Pessoalmente, eu penso assim também: a reforma litúrgica não foi de todo feliz… Pode-se gostar ou não dessa reforma de Paulo VI; o que não se pode é afirmar que ela é heterodoxa ou ilícita! O que não se pode também – e o atual Papa nunca o fez – é absolutizar o Missal de São Pio V de modo totalmente impertinente e unilateral! É uma triste ignorância do que é a liturgia, de como ela faz parte da perene e ao mesmo tempo dinâmica Tradição da Igreja e como ela evolui e evoluirá sempre no decorrer da história.

5. É totalmente falso que o Missal de Paulo VI deturpe ou macule ou mutile a fé católica! O Missal deve ser utilizado, interpretado e vivenciado no contexto de toda a doutrina da Igreja e não como um texto isolado em si mesmo, pois que a oração da Igreja, sobretudo a litúrgica, brota da sua vida e da sua fé e, ao mesmo tempo, as exprime!

6. Por outro lado, os tradicionalistas têm razão quando deploram e rejeitam todos os abusos e loucuras cometidas nos últimos anos na liturgia em nome de uma tal de “criatividade”, compreendida de modo totalmente contrário ao pensamento da Igreja e ao magistério dos últimos papas! Quantas vezes tenho denunciado isso neste blog! Se o Missal de Paulo VI fosse usado como a Igreja pede e determina, muito desse mal-estar poderia ser evitado!
7. Quero deixar bem claro que é possível e plenamente legítimo amar e apreciar a beleza do rito da Missa segundo o Missal de são Pio V e desejar celebrar a Eucaristia nesse rito. O que atrapalha e é errado é refutar o Vaticano II, acusar Paulo VI e absolutizar (= endeusar), como se fosse determinação eterna, uma norma de um Papa que nunca teve a intenção de dar um alcance absoluto a suas palavras! O Missal de São Pio V foi um a mais na longa evolução da litúrgica da Igreja. A “Missa de Sempre”, a que se referem insistentemente os tradicionalistas, é o Sacramento da Eucaristia, seja em que rito legítimo seja celebrada: rito romano, melquita, maronita, malaber, malankar, ucraniano, copta, armeno, etíope, bizantino paleoeslavo, etc…

Observação minha: Só, a título de esclarecimento, uma questão interessante: E se São Pio V tivesse pensado realmente em decretar que o seu Missal seria para sempre, os papas seguintes poderiam mudar isso? Poderiam, perfeitamente! São Pio V teria (o que não fez) exorbitado nas suas prerrogativas! Um Papa somente pode determinar para sempre o que pertencer ao Depósito da Fé. Sobre o modo de celebrar a Eucaristia o que pertence ao Depósito da Fé é que deve ser celebrada por um sacerdote validamente ordenado, que o povo de Deus concorre na celebração, que deve haver liturgia da Palavra e liturgia eucarística, que se devem usar como matéria o pão e o vinho (com água). Sobre o restante, em questão de rito, a Igreja tem plena autoridade de dispor e determinar… Aliás, essa história de “não poder mudar nada” é o mesmo argumento que os ortodoxos usam para acusar os católicos de terem mudado o Credo, acrescentando o Filioque. Isso porque eles se apegam a uma expressão fora de contexto, presente no Concílio de Calcedônia: “Depois de termos estabelecido tudo com toda a possível acríbia e diligência, o santo Sínodo ecumênico decidiu que ninguém pode apresentar, escrever ou compor uma outra fórmula de fé ou julgar ou ensinar de outro modo”… Pois bem: o Credo do Missal de são Pio V traz o “acréscimo” do Filioque, que a Igreja latina fez ao Símbolo niceno-constantinopolitano na Alta Idade Média! Os tradicionalistas que absolutizam a Bula Quo Primum Tempore, deveriam também, para serem coerentes, dar razão aos ortodoxos e afirmar que a Igreja católica todinha caiu em heresia porque acrescentou o Filioque ao Credo! Como se pode ver, é necessário saber manejar as categorias da teologia de acordo com seus princípios epistemológicos e hermenêuticos. Do contrário, haja tempestade em copo d’água e haja bobagem dita com ares de douta erudição!

***
por D. Henrique Soares da Costa
http://www.padrehenrique.com

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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