Sínodo dos Bispos: Assembleia especial para a América – Parte Final

46.
Existe um consenso geral em todo o Continente acerca do sério problema que
representam os novos movimentos religiosos e as seitas, à raiz do proselitismo
e do fanatismo que os caracterizam. O seu crescimento é tão grande que, na
América Central, no Caribe e na América do Sul, fala-se de uma “invasão”,
aludindo, com essa expressão, ao fato que muitos destes grupos vêm
principalmente dos Estados Unidos da América, com abundantes recursos
econômicos para o desenvolvimento das próprias campanhas. Fala-se, além disso,
da existência de um “plano coordenado”, por parte das seitas, para alterar a
atual identidade religiosa da América Latina que, como se diz na introdução do
presente documento, é não somente essencialmente cristã, mas também católica.
Em geral, os movimentos religiosos e as seitas pregam agressivamente contra a
Igreja Católica. Além disso, orientam as suas campanhas de proselitismo aos
marginalizados da sociedade, aos imigrantes, aos prisioneiros nas cadeias, aos
enfermos nos hospitais e, em geral, a todos os que vivem nas zonas periféricas
das grandes cidades, onde a presença da Igreja Católica, às vezes, não é
consistente.  Alguns propagadores destas seitas interpretam a Bíblia de
uma maneira fundamentalista, dando respostas concisas a pessoas que se
encontram em situações de grande incerteza, organizam grupos para o estudo da
Bíblia e também pronunciam discursos nas praças e convidam a participar nos
próprios lugares de culto. Com freqüência as seitas apelam para a emotividade e
a sensibilidade superficial, para desenvolverem a sua ação de propaganda. Em
muitos grupos coordenados por estes movimentos, reza-se pela cura dos enfermos
e se distribuem esmolas para conquistar as pessoas. Atraídos por estas
motivações, nestes últimos anos, muitos católicos têm abandonado a prática da
própria fé para passar a novos movimentos religiosos e seitas.

47.
Além dos grupos genericamente identificados como novos movimentos religiosos e
seitas, assinala-se, nas respostas, a existência de uma corrente de pensamento
conhecida sob o nome de “New Age”, que se estende aceleradamente em todo o
âmbito geográfico do Continente e que, além do mais, tem proporções de fenômeno
mundial. Esta corrente parte de um relativismo que propõe a superação da
problemática da pessoa como sujeito, através de um retorno extático a uma
espécie de dança cósmica, enquanto, ao mesmo tempo, oferece um modelo
totalmente anti-racionalista da religião, uma mística moderna, segundo a qual
Deus não é uma pessoa que está diante do mundo, mas a energia espiritual que
invade o Tudo.(68) Em tal perspectiva, é simplesmente inconcebível um encontro
pessoal com Deus e, muito mais incompreensível ainda, o mistério da encarnação
do Filho de Deus. Por isso as respostas exprimem uma séria preocupação diante
do fenômeno da “New Age”, que afeta negativamente a identidade religiosa da
América e, mais especificamente, a fé cristã e católica. Não se trata de um
“inimigo” cujo rosto pode-se ver claramente, pois não é um movimento religioso
ou uma seita que se apresenta com um perfil claro e delineado, mas se trata
antes de uma modalidade de pensamento que se difunde como corrente intelectual
e espiritual, que impregna silenciosamente a cultura contemporânea em muitas de
suas expressões.

48.
Várias são as sugestões para se responder ao desafio constituído pelos
movimentos religiosos, as seitas e as demais tendências como o New Age. Na IV
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano foram propostas diversas
medidas concretas que já começaram, de alguma maneira, a serem postas em
prática em várias partes do Continente: melhoramento da formação através da
catequese; maior atenção às celebrações litúrgicas, sobretudo na preparação da
homilia; mais colaboração entre sacerdotes e leigos para uma evangelização mais
personalizada (especialmente no âmbito da família e da juventude); purificação
e promoção da piedade popular; fortalecimento da identidade da Igreja através
do cultivo de aspectos que lhe são característicos (devoção à Eucaristia e à
Virgem Maria, comunhão com o Pontífice Romano e com o próprio Bispo), etc.(69)
Em geral, constata-se que existe um consenso unânime acerca da oportunidade de
fortalecer as comunidades católicas mantendo viva a fé em Jesus Cristo através
da meditação e da reflexão da Palavra de Deus, da oração (pessoal e
comunitária), da prática dos sacramentos (sobretudo da Eucaristia) e da
renovação da piedade popular. Um eficaz instrumento na superação destes
desafios é a colaboração dos Pastores entre si (em nível de Conferências
Episcopais e de encontros regionais dos Arcebispos Metropolitanos com os
respectivos Bispos sufragâneos), para poder desenvolver uma pastoral orgânica
sobre o tema, que se traduza em ações conjuntas concretas.

A Igreja Católica como uma comunidade evangelizadora

49.
O mistério da comunhão, na Igreja, está intimamente relacionado com a sua
missão evangelizadora. Jesus Cristo mesmo referiu-se à unidade da Igreja como
um aspecto que impulsiona e reforça a missão: “Que todos sejam um, como tu,
Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia
que tu me enviaste” (Jo 17,21). O tema da relação entre comunhão e missão pode
ser abordado em dois contextos: o da Igreja na América e o da Igreja Universal.
Em referência ao primeiro contexto, o Papa João Paulo II apresentou como
objetivos da Assembléia sinodal: promover uma nova evangelização em todo o
Continente como expressão de comunhão episcopal, incrementar a solidariedade
entre as diversas Igrejas particulares nos distintos campos da ação pastoral;
iluminar os problemas da justiça e as relações econômicas internacionais entre
as nações da América.(70) Nesta terceira parte do presente documento surgiram
diversos elementos orientados a obter uma maior cooperação na atividade
pastoral entre as diversas Igrejas locais da América e que serão objeto do
debate sinodal. No entanto, para além desta perspectiva continental, a relação
entre comunhão e missão pode ser considerada em um horizonte mais amplo. Com
efeito, a Igreja Católica que está no Continente pode oferecer à evangelização
do mundo inteiro um testemunho evangélico de comunhão, de valor incalculável.
Assim, por exemplo, considerando que quase a metade dos católicos de todo o
mundo vivem na América, pode ser conveniente refletir – como sugerem as
respostas aos Lineamenta – acerca do papel que este continente pode exercer na
evangelização de outras regiões continentais. Analogamente, considerando que
este Continente estende-se do hemisfério Norte ao Sul, resulta evidente que
todos os esforços que a Igreja na América poderá realizar para viver mais
intensamente a comunhão em nível eclesial, contribuirão eficazmente a que se
encontrem caminhos para superar as tensões em nível internacional entre o norte
e o sul.

Quarta Parte

ENCONTRO COM JESUS CRISTO VIVO,
CAMINHO PARA A SOLIDARIEDADE

Capítulo
I: A revelação em Jesus
Cristo e a solidariedade divina

A
solidariedade na Aliança do Antigo Testamento

50.
O conceito cristão de uma solidariedade universal, como expressão do mandamento
do amor, tem o seu fundamento na fé em Deus criador do universo, que se revela
sempre como um Deus solidário com o homem em meio às suas tribulações na
história. As narrações da criação revelam a solidariedade divina do Criador com
a sua criatura: quando o homem cai em pecado, Deus não o abandona mas mantém o
seu amor, prometendo-lhe a salvação (cf. Gn 3,15). O amor divino é solidário no
sentido que se manifesta como um vínculo através do qual Deus se compromete com
o homem, na realização da sua aspiração à felicidade. A solidariedade de Deus
se manifesta nas diversas alianças que Ele celebra com os homens ao largo da
História da salvação, mas, sobretudo, através da Aliança com o povo eleito, ao
qual, durante o êxodo, no Sinai, dá o decálogo (cf. Ex 20,1-17). O êxodo do
Egito é, portanto, o modelo e o ponto de referência de todas as intervenções
libertadoras de Deus.(71) Ele compromete-se com a salvação do seu povo e exige
por parte deste a fidelidade exclusiva a Ele mesmo como Senhor da Aliança. A
fidelidade ao Deus da Aliança supõe, por parte do povo fiel, um compromisso
religioso e ético, que se manifesta na santidade do culto e no respeito pela
vida.

51.
Na Lei divina proclama-se a lealdade fundamental ao Deus da Aliança através do
mandamento do amor divino (cf. Dt 6,5) e nela se anuncia o compromisso do amor
ao próximo (cf. Lev 19,18).  Esta vinculação entre religião e ética é
característica do Antigo Testamento. Os profetas supõem-na e, por isso, com a
sua pregação, tratam de manter viva a preocupação pelos pobres, criticando os
abusos que derivam da riqueza e do poder (cf. Am 5,7-11; Mi 3,1-4). Não se
contentam em criticar o mal, mas convidam à conversão a Deus e a observar as
exigências da justiça e do direito (cf. Ez 18,21). Denunciam abertamente a
injustiça cometida com os humildes, que é um pecado, enquanto viola a aliança e
rompe a comunhão com Deus, realçando a responsabilidade pessoal nos problemas
da comunidade (cf. Jr 31,29-30). Os profetas também anunciam, como presença do
Reino de Deus na história, uma Aliança Nova na qual a sociedade será renovada e
purificada da injustiça (cf. Jr 31,31-34). A liturgia supõe a vinculação entre
culto divino e solidariedade fraterna (cf. Sl 15,1-5;

24,3-5). O povo de Israel espera a redenção dos oprimidos como
manifestação do amor e da solidariedade de Deus (cf. Sl 18,3).

A solidariedade na Nova Aliança

52.
No Novo Testamento, a encarnação do Filho de Deus é a maior expressão da
solidariedade do

Deus da Aliança com a humanidade pecadora (cf. Jo 1,14). A Boa Nova
pregada por Jesus Cristo não anula a Lei e os Profetas em nenhuma das suas
partes e, sobretudo, conserva intato o imperativo do amor a Deus e ao próximo
(cf. Mt 5,17; Mc 12,28-34). Com efeito, Jesus prega a Boa Nova chamando à
conversão. As suas bem-aventuranças referem-se aos pacíficos, aos pobres, aos
puros de coração e aos perseguidos por causa da justiça (cf. Mt 5,3-11). A
exaltação de formas concretas do exercício da misericórdia assume relevância
escatológica: na parábola do juízo final, o interrogatório do Juiz concentra-se
sobre o amor aos mais pequeninos (cf. Mt 25,31-46). No ensinamento de Jesus, o
bom samaritano é proposto como modelo de comportamento solidário por sua
caridade com relação ao próximo (cf. Lc 10,29-37). Na comunidade cristã
nascente, insiste-se sobre a fraternidade e promovem-se formas concretas de
solidariedade e de comunhão de bens (cf.  At 4,42-45; 2Cor 8,7-15). O
cristianismo primitivo concebe a unidade do amor a Deus e ao próximo como uma
exigência fundamental da fé (cf. 1Jo 4,20) e, ao mesmo tempo, considera tal
mandamento como a plenitude da lei (cf. Rm 13,8-10).

Capítulo II: Igreja e Solidariedade

A consciência solidária da Igreja na América

53.
Segundo revelam as respostas aos Lineamenta, nas Igrejas particulares da
América existe uma profunda convicção, à luz da revelação divina, da
necessidade de uma solidariedade global que abarque as distintas regiões e
realidades humanas e espirituais de todo o Continente. A Assembléia Especial
para a América do Sínodo dos Bispos oferece uma ocasião providencial: para
promover a nova evangelização nas terras do Continente americano; para
incrementar a solidariedade entre as suas Igrejas particulares; para iluminar
os problemas da justiça nas relações entre Norte e Sul do mesmo Continente.(72)

O Magistério Pontifício, sobretudo durante este século, tratou em
diversas ocasiões sobre o tema da questão social(73) e, especificamente, o Papa
João Paulo II manifestou a sua preocupação por uma maior solidariedade
universal, como expressão do respeito pela dignidade da pessoa e da vocação
cristã do seguimento de Jesus Cristo.(74) A Igreja na América, juntamente com a
Igreja espalhada por toda a terra, enquanto peregrina rumo ao grande Jubileu do
ano 2000, procura, ao mesmo tempo, perscrutar os sinais dos tempos no
Continente americano, que esperam uma resposta a partir do Evangelho.(75) Por
isso, especialmente nos últimos tempos, os Pastores do Povo de Deus, em
comunhão com o Vigário de Cristo, têm procurado iluminar, através do seu
ensinamento e de uma série de iniciativas, a realidade humana na multiplicidade
de suas facetas.

54.
As respostas ao questionário dos Lineamenta revelam uma consciência clara da
relação existente entre evangelização e promoção humana. Vendo a tribulação de
muitas famílias, que constituem as células fundamentais da “ecologia humana” e
são os verdadeiros “santuários da vida”,(76) os Pastores do Povo de Deus na
América, de diversos modos, esforçam-se por promover iniciativas de
solidariedade, tanto na própria Igreja diocesana como em nível da Conferência
Episcopal: através de campanhas que ilustram os princípios da Doutrina social
da Igreja; procurando pôr em prática estes princípios através de estruturas
eclesiais (como as Comissões Nacionais e Diocesanas de Iustitia et Pax e de
Cáritas) ou outras organizações de pastoral social especializada; mitigando os
sofrimentos presentes na sociedade humana através de coletas diocesanas e
nacionais, fundos de solidariedade e campanhas de comunicação de bens,
solicitando inclusive a ajuda generosa de entidades católicas ou de outras
instituições internacionais ou nacionais, fornecendo assessoria jurídica
gratuita a quem não pode assumir os honorários de profissionais particulares,
etc.  As respostas confirmam a generosidade espontânea de todo o Povo de
Deus diante destas iniciativas dos Pastores. Além disso, em muitos casos são os
próprios leigos que, com a criatividade própria que os caracteriza por estarem
imersos no mundo, sugerem e propõem projetos para ir ao encontro das urgências
dos mais necessitados.

55. A consciência solidária manifesta-se também na
caridade, como genuína e profunda expressão da fé dos que crêem. A instituição
das Cáritas diocesanas e nacionais é um fato em quase todas as dioceses dos
países americanos. Muitas respostas aos Lineamenta assinalam a generosidade do
povo fiel, que responde não somente com as esmolas às necessidades dos mais
pobres, mas também com o serviço pessoal desinteressado e comprometido, tanto em
circunstâncias normais, como em ocasião de catástrofes extraordinárias que
afligem muitos de maneira imprevista. Em algumas regiões, inclusive, foram
organizadas estruturas de cooperação solidária, nas quais intervêm comunidades
em nível diocesano ou paroquial, que ajudam outras comunidades com menos
recursos, manifestando, deste modo, a solidariedade entre as igrejas. Não
obstante esta atitude positiva, que nasce espontaneamente nas pessoas de fé, as
mesmas respostas indicam a necessidade de uma formação sistemática, orientada
para uma maior conscientização acerca da importância da solidariedade social,
como expressão de uma fraternidade que não seja somente uma união humana mas
também, fundamentalmente, uma comunhão espiritual em Cristo.

A ajuda solidária que recebe a Igreja na América

56.
Segundo a procedência, a ajuda solidária recebida pela Igreja que está no
Continente pode ser classificada em: solidariedade eclesial e solidariedade
extra-eclesial. Ao responder à pergunta sobre o primeiro tipo de colaboração,
menciona-se a ajuda solidária que, há já várias décadas, as diversas Igrejas
particulares no Continente recebem de instituições eclesiais de outros
continentes, especialmente da Europa. Entre essas organizações são citadas:
Misereor, Adveniat, Kindermissionwerk, Kirche in not, a Conferência Episcopal
Italiana e várias outras contribuições enviadas por dioceses e paróquias
européias, que agem como “madrinhas” de entidades do mesmo nível na América.
Muitas são as obras de promoção social e as estruturas de evangelização que
foram possíveis graças a esta ação solidária, atuada em diversos campos:
educação, saúde, habitação, construção de edifícios sagrados, formação
catequética e teológica, pastoral vocacional, ação missionária, etc. Com
referência à solidariedade extra-eclesial, as respostas mencionam a colaboração
de alguns organismos civis em nível municipal, provincial e nacional, que vêm
na Igreja uma instituição digna de confiança e, ao mesmo tempo, uma colaboração
subsidiária aos seus programas de promoção social. Constata-se, no entanto, que
este tipo de colaboração é possível somente quando as relações entre a Igreja e
o Estado são cordiais.

A solidariedade eclesial vem se concretizando, nos últimos anos, também
em ajudas provenientes não mais de instituições da Igreja de fora do
Continente, mas das mesmas Igrejas particulares na América. Assim sendo,
algumas respostas indicam a Conferência Episcopal dos Estados Unidos da América
e a Conferência Canadense de Bispos Católicos como órgãos eclesiais que
colaboram com os programas de desenvolvimento em muitas dioceses carentes da
América Latina. Estas manifestações concretas de solidariedade intereclesial,
no Continente, não somente demonstram a clara consciência da fraternidade
solidária na Igreja que vive na América, como também constituem um testemunho
evangélico de comunhão para toda a sociedade humana.

A Doutrina Social da Igreja

57. A experiência cristã é complexa, pois nela confluem a
ética da justiça e as exigências da solidariedade fraterna. A fé cristã supõe
uma ética social do cristianismo, que a Doutrina Social da Igreja propõe
sistematicamente como orientações para o discípulo de Cristo, na vida pessoal e
familiar, cultural e social. Das respostas ao questionário dos Lineamenta emerge
como convicção geral, no Episcopado das Igrejas particulares da América, de que
a Doutrina Social da Igreja é um instrumento útil e necessário para levar
adiante uma pastoral da solidariedade cristã. Nela formulam-se princípios de
reflexão para se ver a realidade, os critérios de julgamento moral para avaliar
o conflito social entre realidade humana e ideal cristão, bem como as regras
capazes de iluminar a ação concreta do indivíduo e da comunidade, para promover
o bem comum e superar a desordem moral e a injustiça social.(77) Por sua vez,
os princípios fundamentais da Doutrina social da Igreja, que se baseiam na
dignidade do homem, são o princípio da solidariedade e o princípio da
subsidiaridade. Em virtude do primeiro princípio, cada homem é chamado a contribuir
para o bem comum da sociedade. Em virtude do segundo princípio, o Estado não
pode substituir as livres iniciativas nem as responsabilidades das pessoas e
dos grupos sociais intermédios, nos níveis em que eles podem atuar.(78)

58.
Quanto à difusão da Doutrina Social da Igreja, muitas respostas aos Lineamenta
informam acerca de iniciativas várias, por parte de Igrejas locais e de
Conferências Episcopais: organização de cursos, debates, conferências e semanas
sociais; publicação de artigos e ensaios em jornais locais, revistas e boletins
eclesiais; ensinamento em seminários, universidades e escolas católicas; etc.
São indicadas, ademais, as numerosas instituições eclesiais que se interessam
pela Doutrina Social da Igreja, tanto no que se refere ao estudo e
aprofundamento da mesma, como no que diz respeito à aplicação prática dos seus
princípios. Em muitas Conferências Episcopais existe uma
Comissão destinada a promover a Pastoral Social, cuja intervenção nos problemas
sociais do país, normalmente, é muito positiva, na medida em que contribui a
iluminar, com os princípios da Doutrina Social da Igreja, o diálogo entre
sindicatos e empresários, entre governo e operários. A ação de mediação da
Igreja, nestes casos, é, em geral, bem aceita por ambas as partes.

Não obstante esta ampla tarefa de divulgação, as mesmas respostas
reconhecem que ainda há muito a fazer, na Igreja na América, para a promoção do
conhecimento e da aplicação da Doutrina Social da Igreja. Esta situação é
vista, pelas respostas aos Lineamaenta, como a expressão de uma escassa
sensibilidade pela dimensão social da fé, que, por sua vez, reflete, de algum
modo, uma formação incompleta, tanto dos leigos como do clero. O tema da
unidade essencial entre a fé e as obras (cf. Tg 2,14), entre o culto e a vida
cristã (cf. Mt 5,23-24), entre a vida espiritual e a prática do princípio
evangélico do amor ao próximo, ainda deve se incarnar mais profundamente na
consciência de muitos membros do Povo de Deus.

Capítulo III: Áreas de solidariedade na América

O desafio do Evangelho

59.
O destinatário do desígnio de comunhão e de salvação em Cristo é o homem, “a
primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo e via que
imutavelmente conduz através do mistério da Encarnação e da Redenção”.(79) Não
pode haver anúncio do Evangelho separado dos problemas da condição humana, na
ordem espiritual e temporal.(80) A comunidade dos discípulos de Jesus Cristo
continua sendo a Igreja do bom samaritano, que procura sempre socorrer os
aflitos em suas necessidades (cf. Lc 10,29-37). A promoção humana, portanto,
está intimamente ligada à evangelização, pois o homem a quem se deve levar os
valores do Evangelho não é um conceito abstrato, mas um sujeito atingido por
problemas econômicos e sociais concretos.(81)

60.
As respostas provenientes dos países da América Latina assinalam diversas
situações angustiantes que tantos povos atravessam naquela área geográfica e
cultural: as diferenças cada vez maiores entre ricos e pobres; a complexa
situação criada pela dívida internacional;(82) a falta de trabalho e o salário
insuficiente, que não será possível superar se um estremecimento da consciência
humana não provocar um movimento geral de solidariedade;(83) a recessão
econômica e a inflação; a especulação financeira e a fuga de capitais; o
comércio de armamentos e as tensões bélicas; o problema do tráfico de drogas; a
corrupção na administração pública e o desinteresse pelo bem comum;(84) as
condições de indigência em que vivem muitas famílias (fome e doença, carências
no plano da assistência sanitária e social, falta de moradia digna e de uma
educação). Todas estas realidades são percebidas como graves desordens éticas
que pedem uma mudança de mentalidade e convidam a um empenho de toda a Igreja,
que, em sua missão evangelizadora, tem como horizonte o homem em sua realidade
concreta e integral.

61.
Em outros países do Continente, principalmente no Canadá e nos Estados Unidos
da América, existem situações sociais que, de alguma maneira, são análogas às
descritas precedentemente, e que provocam preocupação por parte da Igreja,
principalmente em dois âmbitos culturais: o dos imigrantes e o das áreas
marginalizadas das grandes cidades. Também nestes ambientes fazem-se presentes
complexos problemas sociais como: desocupação, indigentes condições de vida
(fome, carência de moradia e falta de higiene), dependência de drogas e
violência, incapacidade de adaptação social por parte de muitos imigrantes,
delinqüência juvenil, etc. Em casos como estes, as comunidades cristãs vivem os
mencionados problemas como exigências evangélicas de serviço ao próximo e
tentam dar uma resposta adequada, desde o ponto de vista da assistência
material, que é, ao mesmo tempo, mensagem e testemunho de caridade cristã.
Nestas atividades sociais percebe-se um bom espírito de colaboração entre a
Igreja Católica e outras confissões cristãs e, inclusive, outras religiões. Não
sucede o mesmo com as seitas e outros movimentos religiosos semelhantes.

Solidariedade e amor aos Pobres

62.
Mantém sempre a sua validez, sobretudo para a América, a palavra do Papa João
XXIII, que declarava que a Igreja, sendo Igreja de todos, quer ser
especialmente a Igreja dos pobres.(85) Significativo foi o debate conciliar
sobre a Igreja e os pobres: a Igreja contempla nos pobres, como em um espelho
moral, a imagem do seu divino Fundador, pobre e humilde, procurando com
solicitude aliviar os seus sofrimentos, como serviço a Cristo.(86) Com
insistência, se continuou a chamar a atenção sobre o drama da pobreza: Paulo
VI, dirigindo-se aos camponeses, na Colômbia, falou do pobre como “sacramento
de Cristo”;(87) e na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi confirmou a
vinculação entre o Evangelho de Cristo e a questão da libertação da miséria,
como exigência da justiça e da caridade cristã.(88)

63.
Os Pastores das Igrejas particulares no Continente americano, confirmados pelas
orientações do

Magistério Pontifício, exortam ao melhor cumprimento dos deveres
cristãos para vencer o flagelo humilhante da miséria, quando estruturas de
pecado produzem ricos sempre mais ricos e pobres sempre mais pobres. João Paulo
II, falando no Continente americano, convidou ao compromisso social em favor da
justiça e de uma justa distribuição dos bens.(89) As Igrejas particulares na
América, acolhendo este convite do Sucessor de Pedro, desenvolvem uma intensa
pastoral da solidariedade cristã em favor da infância e da mulher, dos
camponeses e dos operários, dos enfermos e dos prisioneiros, dos emigrantes e
dos imigrantes, dos indigentes e dos abandonados. Em várias ocasiões os Bispos
da América Latina têm convidado todo o Povo de Deus a se ocupar, de maneira
particular, do problema da pobreza: proclamando que a autenticidade da
evangelização se manifesta no amor pelos necessitados, chamando a um
compromisso no serviço aos irmãos que sofrem e assumindo uma clara opção
preferencial e solidária pelos pobres.(90)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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