Sínodo dos Bispos: Assembleia especial para a América – Parte 2

continuação:Capítulo II: O Anúncio de
Jesus Cristo no contexto cultural da América
Evangelho e cultura

12. Uma síntese das
respostas relativas à evangelização da cultura põe em evidência que nas
sociedades contemporâneas da América existem algumas tendências gerais que são,
ao mesmo tempo, um reflexo das correntes culturais em nível internacional, a
saber:

O pluralismo apresenta-se na
América sob formas diversas: a afirmação da identidade dos diversos grupos
étnicos, lingüísticos e nacionais; a diversidade de correntes de pensamento
como manifestação da liberdade de expressão; a convivência em um mesmo ambiente
social de diversas tradições culturais e religiosas; a abertura, através do
mundo das comunicações, a um caudal de informações que estende amplamente os
horizontes do conhecimento humano, etc.

O secularismo propõe uma
visão da vida na qual estão ausentes os valores transcendentes, mas que, ao
mesmo tempo, provoca indiretamente no homem de hoje uma busca do sentido último
para a sua existência.

O subjetivismo e o
relativismo moral produzem no homem contemporâneo uma grande crise e confusão
de consciência, com a conseqüente desvalorização da ordem moral objetiva e a
valorização excessiva da subjetividade pessoal. Essas características levam a
uma perda do sentido do pecado.

 A globalização da
cultura supõe aspectos positivos na medida em que oferece a possibilidade de
uma intercomunicação que enriquece, mas, ao mesmo tempo, orienta as culturas a
uma homogeneidade de conteúdos e de valores, com a conseqüente perda das
próprias identidades. Este efeito pode ser particularmente preocupante quando o
que está em jogo é o perfil cristão e católico das culturas locais.

A consciência da importância
de certos valores, alguns dos quais relacionados com a dignidade da pessoa
humana, como a liberdade, a vida e a justiça; outros, relacionados com o desejo
inato ao ser humano de abrir-se às realidades espirituais e transcendentes.

A urbanização apresenta
novos desafios para a evangelização, não somente porque surgem problemas novos,
que derivam da cultura urbana (a pobreza e a indigência das classes
marginalizadas, o desenraizamento, o anonimato, a solidão, a imoralidade e a
violência, etc.), mas também porque a estrutura urbana requer novos métodos
pastorais que incorporem o uso de meios modernos e de técnicas de comunicação.

Pode-se dizer que as
características enumeradas precedentemente são comuns a todo o Continente,
embora se apresentem com diversos matizes regionais e locais. Assim, por
exemplo, o fenômeno da urbanização apresenta o problema da marginalidade
social, tanto nos bairros pobres ou favelas da América Latina, como nas áreas
marginalizadas das grandes cidades da América do Norte. De maneira análoga, a
consciência de certos valores como a justiça, a liberdade e a vida, traduz-se
em diversas expressões culturais segundo o grau de desenvolvimento econômico e
os problemas políticos da respectiva sociedade, porém, na realidade, os ideais
de base são os mesmos.

Evangelho e culturas
indígenas e afro-americanas

13. A preocupação pela relação entre Evangelho e cultura
estende-se, nas respostas aos Lineamenta, ao tema da evangelização das culturas
indígenas e afro-americanas, que, em graus diversos, representam um componente
que não pode ser ignorado em todos os países da América.

Estas culturas são o legado
das civilizações que habitavam no Continente antes da chegada dos primeiros
evangelizadores, ou foram o fruto de imigrações imediatamente sucessivas à
chegada dos colonizadores. Em um e em outro caso, pode-se dizer que ambas as
culturas, desde o início, acolheram com simplicidade de coração a mensagem da
Boa Nova. No entanto, a tarefa de evangelização dessas culturas não terminou
com o anúncio do kerygma. Faz-se necessário ainda hoje – como refletem as
respostas ao questionário do documento de preparação da Assembleia sinodal –
uma maior inserção da Igreja nas culturas indígenas e afro-americanas, para
lograr uma íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a sua
integração no cristianismo e para iluminar com a fé as diversas culturas.

14. Entre os grupos
indígenas e afro-americanos, existe uma crescente conscientização do direito a
conservar a própria identidade cultural. A Igreja na América, em comunhão com o
Magistério do Santo Padre, é consciente da importância de tal direito e se
esforça para levar a estes povos a mensagem do Evangelho e, ao mesmo tempo,
preocupa-se com a promoção de suas legítimas

reivindicações.(25) Entre os
valores destas culturas compatíveis com a fé cristã as respostas ao
questionário dos Lineamenta citam: o grande amor à própria terra, o respeito
aos antepassados e às

tradições comunitárias, o sentido
religioso da vida e da morte, que se exprime em celebrações rituais animadas
com a dança, a música e o canto, como também a crença em uma vida
ultra-terrena. As mesmas respostas põem em realce também aspectos que precisam
ser purificados, pois todas as culturas são produto do homem e, por
conseguinte, são marcadas também pelo pecado. Entre os costumes e
comportamentos que necessitam de purificação são mencionados: o alcoolismo
(freqüentemente ligado à celebração das festas), o fetichismo, a superstição, a
feitiçaria, o sincretismo religioso, o fatalismo, a bruxaria, o curandeirismo e
outras concepções míticas que se concretizam em práticas incompatíveis com a fé
cristã.

Evangelho e culturas de
povos imigrantes

15. Não menos importante do
que a evangelização das culturas indígenas e afro-americanas é a

evangelização das culturas
dos imigrantes, que constitui uma realidade em quase todas as sociedades

da América desde os fins do
século passado. As respostas aos Lineamenta indicam a presença de

dois grandes fenômenos
migratórios: um proveniente, fundamentalmente, da Europa e, em menor

medida, da Ásia, e outro
movimento, interno ao Continente americano. O primeiro movimento migratório
verificou-se com maior intensidade em alguns países do que em outros, mas, em
geral, pode-se dizer que os imigrantes trouxeram autênticos valores humanos,
como o sentido de família e do trabalho, o amor à pátria, a solidariedade com
os mais pobres, o valor da palavra dada, o sentido da justiça, como também
valores religiosos, tanto católicos (em predominância, de rito latino, mas
também de outras igrejas orientais), como de outras religiões cristãs (diversos
ramos protestantes e também igrejas ortodoxas) e, inclusive, de religiões não
cristãs (judaísmo e, em menor medida, islamismo). Enquanto em alguns países,
como o Canadá e sobretudo os Estados Unidos da América,

o fluxo migratório foi
composto por muitas correntes provenientes principalmente de vários países e
culturas da Europa e, em menor medida, da Ásia, no resto do Continente o mesmo
fenômeno mostra a presença de imigrantes principalmente espanhóis e italianos.

16. No segundo movimento
percebem-se migrações maciças do Sul, do Centro e do Caribe, rumo ao Norte do
Continente. Muitas respostas aos Lineamenta concordam ao afirmar que faz falta
uma maior colaboração entre a Igreja «a quo» e a Igreja «ad quem», para
promover um adequado acompanhamento dos imigrantes, de maneira que estes possam
receber assistência pastoral por parte de sacerdotes provenientes de sua mesma região.
Igualmente sugere-se fomentar as formas de religiosidade popular que os
imigrantes levam consigo, como festividades familiares, religiosas e patronais,
celebrações tradicionais associadas ao Natal e à Semana Santa, como também
procissões e devoções relacionadas com específicas invocações de Cristo, da
Santíssima Virgem e dos santos. Nos Estados Unidos da América a presença de
imigrantes latino-americanos, cada vez mais significativa, é motivo de
enriquecimento para a cultura deste país. Muitos imigrantes, em sua maioria
católicos, trazem autênticos valores: o sentido de família, a religiosidade
popular, o folclore e as próprias tradições. Os Bispos deste país reconhecem o
valor deste estilo de vida e dos costumes expressivos da fé católica, embora, ao
mesmo tempo, assinalam a necessidade de evangelizar continuamente as
manifestações populares latino-americanas, para purificá-las e integrá-las de
maneira adequada, de maneira a contribuir para um maior enriquecimento das
culturas cristãs locais.

Evangelho e piedade popular

17. Um outro aspecto que
emerge das respostas aos Lineamenta, em relação ao tema da evangelização da
cultura, é a religiosidade popular. Nas populações da América Latina e nos
grupos latino-americanos que vivem no Norte, esta manifestação da cultura é,
fundamentalmente, expressão da fé católica, enquanto no resto do continente se
pode dizer somente que tal religiosidade assume um matiz genericamente cristão.
De todos os modos, em ambos os casos, constata-se que, nos últimos tempos, a religiosidade
do povo, simples porém não menos profunda, tem sido objeto de especial atenção
na ação pastoral das Igrejas locais de toda a América.

Alguns sinais indicadores da
importância que assume a cultura popular religiosa são: a participação sempre
maior das pessoas nas peregrinações aos santuários (especialmente marianos), a
tradição familiar de batizar os filhos, o culto às almas do purgatório e a
celebração de Missas em sufrágio dos

defuntos, as festas dos
padroeiros com suas características procissões e a celebração da Santa Missa
(em geral com grande participação do povo), o culto aos santos, não somente da
Igreja universal mas também os próprios do Continente americano,(26) etc. Estas
e outras tantas expressões da religiosidade popular oferecem excelentes
ocasiões para que os fiéis se encontrem com Jesus Cristo vivo. Com efeito, a
comunidade eclesial, ao se reunir para celebrar a Palavra e receber os
sacramentos nas memórias dos santos, recorda de modo particular aqueles que
imitaram fielmente com suas vidas o Salvador do mundo e entra em comunhão com
aqueles que fazem parte da Igreja celeste. É por esse motivo que a piedade
popular, purificada e devidamente catequizada, pode chegar a ser um elemento
decisivo para a nova evangelização. Este é um ponto no qual converge a maior
parte das respostas aos Lineamenta.

18. Como confirmam as
respostas ao documento de preparação, dentro da piedade popular e não
exclusivamente a ela circunscrita, ocupa um lugar privilegiado a devoção à
Virgem Maria, que é um claro sinal da identidade católica. O Povo de Deus na
América é um povo mariano. Atestam-no os numerosos títulos com que os fiéis se
dirigem a Ela, como também os inumeráveis santuários marianos, espalhados por
todo o Continente americano. Entre as muitas invocações, sobressai a de Nossa
Senhora de Guadalupe, que tem sua origem na aparição da Virgem em terra
americana ao índio João Diego, na colina de Tepeyac (México), no ano de 1531.
Este acontecimento mariano sempre foi considerado como sinal da proteção da Mãe
de Deus para todos os homens e mulheres do Continente americano, a partir das
celestiais palavras dirigidas a João Diego: «Não estou eu aqui, que sou tua
mãe? Não estás sob a minha sombra e proteção? … Que nada te aflija nem te
perturbe…». Algumas respostas aos Lineamenta indicam como, nestes últimos
tempos, cresceu a devoção a este título mariano que, sem desprezar o culto à
Virgem segundo as invocações locais, une todos os povos católicos da América na
confissão de uma mesma fé na Mãe do Redentor. Isso se verifica não somente nos
países latino-americanos mas também nos Estados Unidos da América, onde a
popularidade crescente desta devoção se explica, entre outras razões, pela
presença de católicos latino-americanos naquele País. O Papa João Paulo II propõe
a devoção mariana à Nossa Senhora de Guadalupe como um grande exemplo de
evangelização perfeitamente inculturada, quando diz: «No rosto mestiço da
Virgem de Tepeyac se resume o grande princípio da inculturação: a íntima
transformação dos autênticos valores culturais, mediante a integração no
cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas».(27) Por
esse motivo, o Santo Padre quis honrar a Mãe de Deus em terra americana com o
título de: «Estrela da primeira e da nova evangelização».(28)

19. Entre as manifestações
da religiosidade popular destacam-se: a reza do santo rosário, as peregrinações
e visitas a santuários que são, com freqüência, momentos oportunos para a
recepção dos sacramentos, os títulos e invocações marianos que deram nome a
santuários, capelas e cidades, a arte religiosa que oferece imagens devocionais
e testemunha a fé mariana do povo, as festas da padroeira, o mês dedicado
principalmente à devoção a Maria, as promessas e os votos que exprimem a
dimensão mariana da fé dos que crêem, etc. Nas Igrejas locais, na América,
procura-se cultivar e encaminhar constantemente esta devoção a um encontro
pessoal com Cristo, que integre as aspectos afetivos e doutrinais, orientando
os fiéis à prática sacramental e ao crescimento na fé, na esperança e na
caridade. Em várias respostas assinala-se que a devoção mariana é autêntica na
medida em que leva ao compromisso de vida cristã mais coerente, através do qual
a fé se manifesta na caridade para com os irmãos mais necessitados e em um maior
empenho de evangelização, tanto a nível pessoal como no contexto das estruturas
eclesiais.

Evangelho e educação

20. Com relação ao tema da
evangelização da cultura, várias respostas aos Lineamenta indicam a

presença pastoral da Igreja
na América no campo educacional, em todos os níveis. Os motivos que levam a
Igreja a se fazer presente neste âmbito são, fundamentalmente, dois: 1) o
interesse pela pessoa, cuja educação estimula as capacidades especificamente
humanas e, desse modo, prepara o terreno para a recepção da Boa Notícia e 2) o
interesse pela sociedade, pois através da educação são criados modos de
comportamento e valores que definem o perfil de uma cultura, na qual podem
crescer os valores evangélicos.

Para evangelizar a cultura no
âmbito da educação, do pensamento e da pesquisa, a Igreja na América conta com
uma considerável rede de escolas, colégios, universidades e faculdades, que
desempenham uma eficiente obra evangelizadora e uma importante tarefa de
promoção humana.

Para aproveitar melhor este
potencial, as respostas aos Lineamenta sugerem os seguintes aspectos a serem
considerados:

a conservação de uma clara e
nítida identidade católica dos centros educacionais da Igreja nos diversos
níveis, sobretudo no que se refere à orientação cristã de fundo dos programas e
das linhas pastorais. Um centro de educação da Igreja deve ser, antes de tudo,
uma escola de crescimento na fé.

a elaboração de programas
educacionais orientados não somente para proporcionar uma instrução profissional
eficiente, mas também e sobretudo, para oferecer uma visão e uma cultura
inspiradas nos valores do Evangelho, que possam ser assimiladas em termos da
atitudes de comportamento humano e cristão. Neste sentido é importante
oferecer, através dos programas educativos, uma cosmovisão cristã que integre
as diversas disciplinas do saber.

a coordenação da pastoral da
educação em nível nacional e local, através de organismos eclesiais, sobretudo
em vista da elaboração de programas e textos de formação religiosa. Um precioso
instrumento para isso pode ser o novo Catecismo da Igreja Católica.

a formação de docentes
profissionalmente capazes e cristãmente comprometidos é outro aspecto
fundamental da evangelização da cultura no campo educacional.

a intensificação do trabalho
educativo da Igreja nos setores desfavorecidos, com escolas gratuitas, tanto na
cidade como no campo, e com escolas profissionais, é um excelente testemunho
que a Igreja pode oferecer com relação à promoção da pessoa e ao
desenvolvimento cultural de uma sociedade.

a presença da Igreja nas
universidades e outras entidades educacionais, sejam elas estatais ou privadas
não confessionais, por meio de capelães e de professores católicos, é também um
âmbito privilegiado para a evangelização da cultura.

Uma vez que a tarefa
evangelizadora, no campo educacional, está orientada principalmente para os
jovens, nas respostas indica-se a conveniência de se considerar também as
categorias da cultura juvenil, com suas expressões características (a canção, o
esporte, o tempo livre, a amizade, a convivência comunitária, etc.), mas também
com os seus desafios específicos (a droga, a violência, a sexualidade, a
marginalidade, a ruptura entre as gerações, a solidão, etc.).

Evangelho e meios de
comunicação social

21. Todas as respostas aos
Lineamenta coincidem amplamente em que um dos «areópagos modernos»(29) que requer uma
evangelização urgente é o dos meios de Comunicação Social. O motivo fundamental
desta urgência é a influência que estes meios exercem sobre a quase totalidade
dos indivíduos. Fala-se, com razão, de uma «cultura de massa», que incide sobre
as pessoas mudando os modos de pensar,
os valores e os estilos de comportamento. Em contraste, muitas respostas
confirmam a presença escassa – e em alguns casos a ausência completa – da
Igreja no âmbito dos meios de comunicação social. Um ponto de convergência é a
necessidade de promover o tema em dois níveis:

1) O uso dos meios de
comunicação para transmitir a mensagem do Evangelho e o Magistério da Igreja.
Neste nível, mesmo quando a Igreja na América dispõe de uma série de meios para
transmitir suas notícias (jornais, publicações várias, emissoras de rádio e de
televisão, redes de comunicação informática, etc.), percebe-se que o uso que se
faz destes meios nem sempre é o mais adequado, por falta de atualização
técnica, de recursos econômicos e de pessoal suficientemente capacitado.

2) A integração da mensagem
do Evangelho nesta “nova cultura” criada pela comunicação moderna,
porque a evangelização mesma da cultura atual depende, em grande parte, da
influência dos meios de comunicação.(30) Neste nível, percebe-se a necessidade
de iluminar com os valores do Evangelho os princípios éticos com que se maneja
a informação, o conteúdo da comunicação que se transmite às massas, os
objetivos com os quais se trabalha no mundo das comunicações. Várias respostas
indicam que, freqüentemente, a finalidade dos agentes de comunicação é obter
vantagens econômicas e não a promoção da pessoa.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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