Sínodo dos Bispos: Assembleia especial para a América – Parte 1

Assembleia especial para a América

ENCONTRO COM JESUS CRISTO
VIVO, CAMINHO PARA A CONVERSÃO, A COMUNHÃO E A SOLIDARIEDADE NA AMÉRICA

Apresentação
A iniciativa do Santo Padre
João Paulo II, manifestada explicitamente na Carta Apostólica Tertio millennio
adveniente, de convocar uma Assembleia Especial para a América do Sínodo dos
Bispos, insere-se no contexto de outras assembleias sinodais de caráter continental,
em vista da celebração do Jubileu do ano 2000. A primeira delas,
referida ao Continente africano, já teve lugar em 1994, enquanto as outras,
relativas à Ásia, Oceânia e Europa, serão celebradas nos anos que restam do
segundo milênio. No presente ano de 1997, congrega-se a Assembleia Especial
para a América, após um longo período de preparação, caracterizado por momentos
significativos: a consulta para a definição do tema e a aprovação do mesmo por
parte do Santo Padre, a publicação dos Lineamentacom o questionário para a
reflexão, enviados às partes interessadas (3 de setembro de 1996), a indictio
do sínodo por mandato do Sumo Pontífice, ou seja, a comunicação oficial que
estabelece os dias em que se reunirá a assembléia sinodal (10 de fevereiro de
1997) e, finalmente, a publicação do presente documento de trabalho ou
Instrumentum laboris, que recolhe as respostas ao documento de preparação e se
apresenta como a ordem do dia, proposta para o debate sinodal.

O interesse suscitado entre
as Igrejas particulares na América pelo anúncio da celebração da Assembléia
Especial para este Continente reflete-se na alta percentagem de respostas ao
questionário dos Lineamenta. Com efeito, de 24 Conferências Episcopais
responderam 23, alcançando-se assim os 96 %, que é o percentual mais elevado de
respostas, jamais alcançado nas assembleias sinodais celebradas até o presente.
Além disso, muitas Igrejas locais aproveitaram o documento de preparação para
refletir em comum sobre os diversos aspectos propostos pelo tema sinodal,
oferecendo, em seguida, a própria síntese ao processo de preparação do
Instrumentum laboris. Com as respostas das Conferências Episcopais e de outras
partes, às quais, por direito, competia responder, o Conselho pre-sinodal e a
Secretaria Geral, com a ajuda de peritos, prepararam em seguida a redação do
presente documento de trabalho, que foi objeto da quarta e quinta reuniões do
Conselho pre-sinodal, celebradas em Roma respectivamente de 6 a 8 de maio e de 2 a 4 de julho de 1997. Na
primeira destas reuniões, estudou-se um primeiro projeto do texto, que continha
uma síntese das respostas, divididas segundo os grandes temas sugeridos pelo
questionário. A segunda reunião foi dedicada ao estudo de um segundo projeto,
no qual foram integradas em um único texto as diversas partes do primeiro
projeto e as observações apresentadas oportunamente pelos Membros do Conselho
pre-sinodal.

No processo de síntese das
respostas procurou-se evidenciar três aspectos, que, em seguida, aparecem como
constantes no texto definitivo, a saber:
as convergências, as divergências e os
matizes de ambas, que permitem oferecer uma visão mais objetiva da realidade.
Assim, por exemplo, em várias ocasiões manifestam-se fortes diferenças entre a
América Latina, por um lado, e, por outro lado, os Estados Unidos e o Canadá.
Faz-se necessário esclarecer, no entanto, que, para além de tais diferenças –
muitas vezes formais e fruto de etiquetas dadas no passado – existem aspectos
comuns que são mais fortes e unificadores. Analogamente, quando são
apresentados problemas gerais que afetam todo o Continente, surge a necessidade
de indicar imediatamente certos matizes, que permitem ter uma visão da
realidade, que seja menos simplista e mais objetiva. Além disso, cabe assinalar
que o presente documento apresenta não somente as convergências e divergências
com seus próprios matizes, mas também aqueles pontos que, segundo se sugere nas
respostas, deveriam ser aprofundados. Emtais casos, embora estes aspectos não
são tratados de maneira completa e exaustiva, eles são indicados brevemente, de
maneira que possam aparecer, em seguida, na agenda dos temas a serem tratados
no debate sinodal.

O Instrumentum laboris, apresentado
nos quatro idiomas oficiais definidos para esta Assembleia Especial (espanhol,
inglês, português e francês), mantém em suas grandes linhas o esquema
desenvolvido pelo documento de preparação, o qual, por sua vez, segue os
aspectos propostos pelo tema da assembléia sinodal: Encontro com Jesus vivo –
caminho de conversão – caminho de comunhão – caminho de solidariedade. Deste
modo, o documento de trabalho está composto por uma introdução, quatro partes e
uma breve conclusão.

Na introdução concentra-se a
atenção sobre o tema sinodal e sobre as três características fundamentais que
definem a identidade religiosa da América: a raiz cristã comum, a vitalidade de
uma igreja jovem e o pluralismo cultural. Na primeira parte, com o título
“O Encontro com Jesus Cristo vivo”, desenvolvem-se os grandes
princípios que asseguram o anúncio da verdade completa sobre o mistério de
Cristo, como também o tema da relação Evangelho – cultura (as características
dominantes da cultura contemporânea, as culturas indígenas e afro-americanas,
as culturas dos povos imigrantes, a piedade popular, a educação e os meios de
comunicação social). Na segunda parte, desenvolve-se o tema da conversão a
Jesus Cristo e propõem-se os aspectos positivos e negativos da realidade
eclesial e do mundo, no contexto americano. A terceira parte aborda o tema da
comunhão em Jesus Cristo
como pressuposto e como finalidade da evangelização, introduzindo, além disso,
a temática da eclesiologia da comunhão no Concílio Vaticano II, para, em
seguida, expor as dificuldades para a comunhão eclesial e a situação da Igreja
Católica no contexto religioso do Continente (relações ecumênicas, diálogo
inter-religioso e o problema das seitas e de outros movimentos religiosos).

Na quarta parte enfrenta-se
o tema da solidariedade, chamando a atenção sobre a consciência solidária da
Igreja na América e sobre o uso que ela faz da Doutrina Social para responder
aos grandes desafios da sociedade contemporânea no Continente (a pobreza, a
dívida externa e a cultura da morte, entre outros). O documento encerra-se com
uma breve conclusão, na qual se retomam as coordenadas do tema sinodal com
relação à nova evangelização nos umbrais do terceiro milênio, invocando a
proteção de Nossa Senhora de Guadalupe para anunciar Jesus Cristo vivo, caminho
de conversão, de comunhão e de solidariedade no Continente.

Jan P. Cardeal Schotte,
C.I.C.M.

Secretário Geral

INTRODUÇÃO

 O tema da Assembleia
Especial

1. Enquanto todo o Povo de
Deus se prepara para celebrar com alegria o início do terceiro milênio, e,
portanto, os 2000 anos do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, os Pastores
da Igreja que está na América, respondendo à convocação do Santo Padre,
reúnem-se pela primeira vez em uma

Assembléia Especial para
este Continente do Sínodo dos Bispos, com o objetivo de refletir sobre o tema:
Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a
solidariedade na América.

(1) Este tema oferece a
possibilidade de constatar qual é o estado atual da Igreja neste Continente e
como ela pode preparar-se melhor para enfrentar os novos desafios da
evangelização no futuro, dentro do marco das finalidades propostas pelo Sumo
Pontífice para a assembleia sinodal:

(2) promover uma nova
evangelização em todo o Continente, como expressão de comunhão episcopal
incrementar a solidariedade entre as diversas Igrejas particulares, nos
distintos campos da ação pastoral iluminar os problemas da justiça e as
relações econômicas internacionais entre as nações da América, considerando as
enormes desigualdades entre o Norte, o Centro e o Sul.

2. Os diversos elementos que
compõem a temática da Assembléia Especial articulam-se entre si, de maneira que
as três coordenadas fundamentais – conversão, comunhão e solidariedade – se
ordenam direta e intrinsecamente ao grande tema do encontro com Jesus Cristo,
como a sua fonte e raiz.

Como a Palavra de Deus
demonstra claramente, as três atitudes básicas enunciadas nascem do encontro
pessoal com o Filho de Deus feito homem. É Jesus quem convida os homens e as
mulheres de todos os tempos àquela mudança de vida (metanoia – cf. Mc 1,15),
que é o primeiro passo para entrar em comunhão (koinonia) com o mesmo Senhor e
com os seus discípulos (cf. At 2,42). A comunhão dos que crêem em Cristo
orienta-se, enfim, segundo os passos do Servo de Deus, a viver em solidariedade
e serviço (diakonia) com relação aos mais pequeninos (cf. Mt 25,40).

Dado que o encontro com
Jesus Cristo é a origem da conversão, da comunhão e da solidariedade, cada uma
das respectivas partes do presente texto darão particular importância aos
efeitos desse encontro na vida pessoal e comunitária dos fiéis. Além do mais,
estas três partes estão intimamente relacionadas entre si: só através da
conversão ao Evangelho de Jesus Cristo são possíveis a verdadeira comunhão e a
autêntica solidariedade; a comunhão com Cristo e com a sua Igreja é, ao mesmo
tempo, a base para uma contínua conversão pessoal e o fundamento sobre o qual
se realiza a solidariedade; a solidariedade, enquanto expressão dos valores
essenciais do Reino de Deus, manifesta qual é o fim para o qual convergem a
conversão e a comunhão.

A identidade religiosa da
América

3. Em uma primeira
abordagem, pareceria artificial falar simplesmente de “América”,
englobando

nesse conceito o vasto território
que compreende as várias regiões do Continente (América do

Norte, do Centro, do Sul e o
Caribe), pois nesta denominação, aparentemente, predomina o critério geográfico
sobre outros aspectos nos quais se acentuam as diferenças históricas, étnicas,
culturais e econômicas que caracterizam as diversas nações deste mesmo
território. No entanto, desde o ponto de vista religioso, pode-se falar de uma
identidade cristã da América, que tem sua origem na proclamação do Evangelho no
Novo Mundo, após o descobrimento do Continente há mais de quinhentos anos. O
fato mesmo da cruz que Cristóvão Colombo plantou em terra americana, ao chegar
à ilha de San Salvador,(3) foi um sinal profético que anunciava como os séculos
sucessivos, com suas glórias e seus fracassos, estariam intrinsecamente ligados
ao mistério da redenção deNosso Senhor Jesus Cristo.(4)

Com efeito, após o
descobrimento, chegaram às novas terras colonos e imigrantes provenientes de
vários países da Europa e também um considerável número de africanos, que foram
vítimas do comércio de escravos. Este foi um fato histórico comum a todo o
Continente, mesmo quando tal acontecimento se desenvolveu com características
próprias, segundo as diversas regiões. Este

movimento migratório
encontrou-se com as populações indígenas americanas, dando como resultado, em
muitos casos, novas expressões culturais nas quais cada uma das diversas
civilizações deixou sua marca característica. Posteriormente, no século
passado, chegaram novos imigrantes provenientes da Europa, e, mais tarde,
também da Ásia e da Oceânia, movidos por ideais e esperanças de uma vida
melhor. Em muitas áreas do Continente, a maioria dos imigrantes eram de
religião católica; em outras, no entanto, os católicos eram uma minoria,
enquanto predominavam os membros de outras confissões religiosas cristãs,
nascidas com a Reforma Protestante do século XVI.

4. Como resultado de todos
estes fatores, as diversas nações da América são, hoje, compostas por uma rica
e variada família multi-étnica e pluricultural, na qual podem ser relevadas as
seguintes características fundamentais:

Uma raiz cristã comum, na
qual se reconhecem os diversos povos com suas tradições e expressões culturais,
para além das diversidades humanas e temporais. Este denominador comum
apresenta-se com matizes diversos. Com efeito, na América Latina, esta raiz
comum, além de cristã, é católica, enquanto ao resto do Continente convém
somente o qualificativo de cristã, sem excluir com isso, em menor proporção, a
nota de catolicidade.

Uma história, rica em
civilizações antigas, que, porém, recebeu o anúncio do Evangelho somente há 500
anos. Pode-se dizer, então, que esta raiz cristã comum possui uma história
relativamente jovem. Por conseguinte, a Igreja neste Continente é uma Igreja
jovem, caracterizada por uma grande vitalidade e força renovadora, que é fonte
de esperança e de alegria.

A raiz cristã comum
encarna-se em um pluralismo de expressões culturais que abrangem um amplo
espectro de realidades, tanto no aspeto sóciopolítico e econômico como no
aspeto étnico. Esta heterogeneidade é uma riqueza que se apresenta como um
fértil campo para o cultivo de relações de comunhão e de solidariedade, que
podem ser iluminadas pela Igreja através da nova evangelização.

Estes traços que
caracterizam a identidade americana implicam uma grande responsabilidade para a
Igreja, na medida em que ela é chamada a ser sal da terra e luz do mundo (cf.
Mt 5,13-14) para contribuir, com o seu testemunho, para a construção de uma
sociedade mais justa e preparar, assim, a vinda do Reino dos Céus.

5. A intenção do Instrumentum laboris é apresentar os
primeiros frutos do processo de preparação, sintetizando as respostas às
perguntas formuladas pelos Lineamenta e oferecer, assim, um documento básico
para o debate sinodal na Assembléia Especial para a América do Sínodo dos
Bispos. No presente documento, portanto, são oferecidos à reflexão e à
discussão as principais convergências e divergências nas respostas, os aspectos
que devem ser aprofundados e as observações relacionadas com o tema sinodal, em
vista do diálogo que manterão os Padres Sinodais, convocados pelo Santo Padre.

 PRIMEIRA PARTE

O ENCONTRO COM JESUS CRISTO
VIVO

Capítulo I: o mistério de
Cristo

O mistério de Cristo e a
pessoa humana

6. Seguindo os traços do Apóstolo
São Paulo, para quem a vida foi um anunciar o Cristo morto e ressuscitado,
evangelizare Iesum Christum (cf. Gl 1,16), a Igreja na América deseja, uma vez
mais, centralizar a sua missão evangelizadora no anúncio e na apresentação da
pessoa de Jesus Cristo vivo. As respostas aos Lineamenta, confirmando a
validade do tema sinodal, põem em evidência o consenso acerca da oportunidade
de anunciar Jesus Cristo a partir da categoria de encontro interpessoal, como
uma resposta à sensibilidade do homem contemporâneo em relação à dignidade da
pessoa e ao valor do indivíduo como sujeito.

É o Cristo vivo, morto e
ressuscitado, presente hoje na sua Igreja, que deseja se encontrar com quem
vive neste Continente, para lhes oferecer a sua Palavra de amor e esperança
neste momento histórico crucial, que assinala a passagem do segundo ao terceiro
milênio. Em comunhão com o Santo Padre, os Bispos na América afirmam que a
missão fundamental da Igreja é evangelizar, isto é, orientar a consciência e os
corações de todos os homens e mulheres de boa vontade a um encontro com Cristo,
ajudando-os a experimentar uma familiaridade com a profundidade do mistério da
Redenção, que no Filho de Deus se realizou definitivamente. (5) O anúncio do
mistério de Jesus Cristo está orientado, portanto, a favorecer o encontro
pessoal com Ele. A Igreja na América deseja servir a Deus e ao homem,
realizando a sua finalidade principal, que o Santo Padre definiu ao iniciar o
seu pontificado com as seguintes palavras: «que cada homem possa encontrar
Cristo, a fim de que Cristo possa percorrer juntamente com cada homem o caminho
da vida, com a potência daquela verdade sobre o homem e sobre o mundo, contida
no mistério da Encarnação e da Redenção, e com a potência do amor que de tal
verdade irradia».(6) Por conseguinte, cabe perguntar-se hoje como anunciar
Jesus Cristo no presente contexto geográfico, histórico e cultural da realidade
americana, de

maneira a provocar
eficazmente o encontro entre Deus, encarnado em Jesus Cristo, e o
homem, em cujo interior aninha-se um inextinguível desejo de Deus.(7)

Anunciar a verdade completa
sobre o mistério de Jesus Cristo

7. Neste diálogo de salvação
com o homem, a Igreja oferece a verdade que lhe foi confiada pelo

próprio Jesus Cristo, com
uma «abertura universal»(8) e missionária. Para cumprir esta missão, seguindo a
indicação do Papa João Paulo II na sua Encíclica Redemptor hominis, ela dirige
o olhar «na direção de Cristo, Redentor do homem; na direção de Cristo,
Redentor do mundo … porque só n’Ele, Filho de Deus, está a salvação»,(9)
segundo as palavras do Apóstolo São Pedro: «Senhor, a quem iremos? Só Tu tens
palavras de vida eterna» (Jo 6,68). N’Ele realiza-se plenamente o mistério da
redenção, que possui uma dupla dimensão, divina e humana.(10)

Nesta perspectiva, as
respostas aos Lineamenta mostram um especial interesse em oferecer aos fiéis a
verdade integral sobre o mistério de Cristo, sobre a sua pessoa, a sua obra e a
sua mensagem.

Ele é o Verbo de Deus que se
encarnou no seio da Virgem Maria e nasceu em Belém, que viveu na aldeia de
Nazaré e ali esteve submetido aos seus pais, cresceu em idade, sabedoria e
graça diante de Deus e dos homens (cf. Lc 2,51-52). Ele é a Palavra de Deus
feita carne, que anunciou com palavras e sinais a boa nova do Reino de Deus e
que proclamou a graça da salvação (cf. Lc 4,17-21). Ele é o Messias esperado
que curou os enfermos, que perdoou os pecadores e se sentou à mesa deles (cf.
Lc 7,36-50), que experimentou pessoalmente o valor da amizade com Marta, Maria
e Lázaro (cf. Lc 10,38-42). Ele é o Servo sofredor que sofreu a angústia no
Getsêmani, mas aceitou livremente beber o cálice que o Padre lhe oferecia (cf.
Lc 22,39-44). Ele é o Filho de Deus que morreu na cruz e ao terceiro dia
ressuscitou de entre os mortos para a nossa salvação. Ele é o Esposo que deu a
vida por sua Esposa, a Igreja (cf. Ef 5,25), e desde o primeiro Pentecostes a
acompanha sempre em suas provas e vicissitudes, santificando-a por meio do
Espírito Santo. Ele é o Cristo Ressuscitado, que está sentado à direita de Deus
Pai, vencedor do pecado e da morte, Sumo Sacerdote que intercede em favor de
toda a humanidade (cf. Hb 4,14-5,10). Ele é o Senhor do tempo e da eternidade,
que virá ao final da história para julgar os vivos e os mortos. Ele é,
definitivamente, a imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15) e, ao mesmo tempo, o
homem perfeito «que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada
desde o primeiro pecado».(11)

8. A apresentação do mistério de Cristo, em uma maneira
completa, supõe, portanto, não somente a adequada valorização do fato da
encarnação, através do qual o Filho de Deus assumiu una natureza humana –
fazendo-se verdadeiramente semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb
4,15) – mas também a justa apreciação da natureza divina, segundo a qual o
Verbo de Deus estava no seio de Deus e era Deus (cf. Jo 1,1). Ele existe desde
a eternidade como Deus verdadeiro e n’Ele habita corporalmente toda a plenitude
da divindade (cf. Cl 1,17). Somente através de uma equilibrada compreensão das
duas naturezas e da perfeita unidade das mesmas na segunda Pessoa da Santíssima
Trindade o ser humano pode se aproximar do mistério de Jesus Cristo, presente
no hoje da história como Cabeça da Igreja que é o seu Corpo (cf. Ef 1,22-23).
Somente no Verbo encarnado pode esclarecer-se o mistério do homem, pois o Filho
de Deus feito homem é, ao mesmo tempo, imagem do Deus invisível e homem
perfeito, revelação definitiva de Deus Pai à humanidade e caminho para que esta
possa encontrar o sentido da sua existência.(12)

Muitas respostas aos
Lineamenta manifestam a necessidade de apresentar integralmente o mistério de
Jesus Cristo para poder dar uma resposta clara às confusões nas quais caem, às
vezes, alguns membros do Povo de Deus ao reduzir o mistério de Cristo a um ou outro
aspecto da sua vida, da sua Pessoa ou da sua obra salvífica. A nova
evangelização supõe, neste sentido, um anúncio renovado a todos os homens e
mulheres da América que « há-de conter também sempre – ao mesmo tempo como
base, centro e ápice do seu dinamismo – uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho
de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os
homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus».(13) Quando o Santo
Padre João Paulo II convidava os Bispos da América Latina, em Port-au-Prince a
iniciar uma nova evangelização da América, acrescentava: «nova em seu ardor,
nova em seus métodos, em sua expressão»,(14) ou seja, aludia à novidade nas
atitudes dos evangelizadores, pois o Evangelho e seu conteúdo, que é Jesus
Cristo, não pode envelhecer, dado que é fonte de vida, sempre nova e atual.

 Finalmente, algumas
respostas provenientes da América Latina assinalam que, provavelmente devido à
influência do contexto sociocultural, predomina naqueles povos a imagem
sofredora do Senhor da paixão, permanecendo na sombra a imagem do Cristo
ressuscitado. Para anunciar o mistério de Jesus Cristo de maneira completa,
sugere-se promover um anúncio mais incisivo da ressurreição que, sem cair em
triunfalismos terrenos, possa ser uma verdadeira mensagem de esperança para os
homens e mulheres abatidos pela dor e pela tristeza.

 O mistério de Jesus
Cristo anunciado ao homem e à cultura

9. Evangelizar o homem
significa também evangelizar a sua cultura, a sua ética e os seus valores, os
seus ideais de justiça e de paz. Por isso, um dos objetivos mais importantes da
nova evangelização consiste precisamente em transformar a cultura a partir de
dentro, enriquecendo-a com os valores cristãos que derivam da fé e fazendo que
a mensagem de Cristo penetre nas consciências das pessoas e se projete no etos
dos povos.(15) Seguindo as orientações do Papa Paulo VI na

Exortação Apostólica
Evangelii nuntiandi, as respostas ao questionário dos Lineamenta reafirmam
ruptura entre Evangelho e cultura como «o drama da nossa época».(16) Importa,
pois, evangelizar as pessoas individualmente, mas também evangelizar as
culturas, porque o objetivo é chegar «a modificar pela força do Evangelho os
critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas
de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que
se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da
salvação»,(17) ou seja, «importa evangelizar… a cultura e as culturas do
homem, no sentido pleno e amplo que estes termos têm na Constituição Gaudium et
spes».(18) Desta maneira, por meio da inculturação, «a Igreja encarna o
Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas
culturas na sua própria comunidade, transmitindo-lhes os seus próprios valores,
assumindo o que de bom nelas existe e renovando-as a partir de dentro»

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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