Significado do termo: Igreja e a confiabilidade na utilização

Neste artigo farei pequenas introduções e observações quanto ao significado etimológico da palavra “Igreja” e seu emprego. Já que o substantivo [Igreja] é remetido e utilizado com diversas funcionalidades, comumente destaca-se sob forma de proclamar as comunidades eclesiais surgidas posteriormente com a Reforma Protestante no séc. XVI.

Tomarei textos bíblicos cujo é empregado o termo, sem aprofundar-se na sua colaboração com a “nova economia divina” inaugurada com a encarnação de Cristo no Novo Testamento. Desta forma tratarei da validade e legitimidade, posso dizer apostolicidade institucional; que é o principal pressuposto para emprego e utilização do termo “Igreja” como instituição de Deus.

No AT Entre os hebreus, o termo designava a “assembleia santa dos filhos de Israel” depositaria da aliança com Deus e instrumento humano da história da salvação:

“Por que conduziste a assembléia do Senhor a este deserto, para nos deixares morrer aqui com os nossos rebanhos?” Nm 20,4

“os chefes de todo o povo e todas as tribos de Israel apresentaram-se diante da assembléia do povo de Deus: havia quatrocentos mil homens de pé, armados com a espada.” Juízes 20,2

O termo também é usado em outras ocasiões, como por exemplo, cf. I Crôn 29,1: I Sm 20,47: Dt 23, 1-3;

Etimologicamente a palavra grega ekklesia como utilizada nos tempos Apostólicos é composta de dois radicais gregos: ek que significa para fora e klesia que significa chamados.

O catecismo da Igreja vem dizer:

“A palavra «Igreja» («ekklesía», do verbo grego «ek-kalein» = «chamar fora») significa «convocação». Designa as assembleias do povo em geral de carácter religioso. É o termo frequentemente utilizado no Antigo Testamento grego para a assembleia do povo eleito diante de Deus, sobretudo para a assembleia do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído por Deus como seu povo santo. Ao chamar-se «Igreja», a primeira comunidade dos que acreditaram em Cristo reconhece-se herdeira dessa assembleia. Nela, Deus «convoca» o seu povo de todos os confins da terra. O termo « Kyriakê», de onde derivaram «church», «Kirche», significa «aquela que pertence ao Senhor».” (CIC nº 751).

É referida no NT em duas ocasiões ambas no Evangelho de São Mateus:

“E também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” Mt 16,18

“E, se não as ouvir [as testemunhas] dize-o à igreja; e, se também não ouvir a igreja, considera-o como gentio e cobrador de impostos” Mt 18,17

Na primeira delas remete-se a fundação da Igreja que fora entregue por Cristo a Pedro, neste conferido o poder de ligar e desligar, cf. Mt 16,19. A segunda refere-se a importância da Igreja na visão do Senhor como porta voz de autoridade na verdade, São Paulo fala da Igreja como “Coluna e sustentáculo da Verdade” I Tm 3,15:

O Catecismo afirma também sobre a Igreja:

“Na linguagem cristã, a palavra «Igreja» designa a assembleia litúrgica, mas também a comunidade local ou toda a comunidade universal dos crentes. Estes três significados são, de facto, inseparáveis. «A Igreja» é o povo que Deus reúne no mundo inteiro. Ela existe nas comunidades locais e realiza-se como assembleia litúrgica, sobretudo eucarística. Vive da Palavra e do Corpo de Cristo, e é assim que ela própria se torna Corpo de Cristo.” (CIC 752).

As primeiras edificações cristãs dedicadas ao culto litúrgico constituía-se das casas dos primeiros nazarenos¹ que ficaram conhecidas como Domus Eclesiae e após o fim do séc. II e inicio do séc. III virá a se chamar em latim de Domus Dei, edifícios destinados ao culto cristão e atividades catequéticas entre outros.

Já destacava no II século S. Inácio de Antioquia, sobre a presença da Instituição Igreja correlacionando-a aos bispos sucessores dos Apóstolos.

“Onde quer que se apresente o Bispo, ali esteja também a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus nos assegura a presença da Igreja Católica” (Aos Esmirnenses 8,2).

Os primeiros cristãos entendiam que somente nas Igrejas que tinham origem na legítima sucessão dos apóstolos é que se conservava fielmente a Doutrina Apostólica. Atualmente muitos sãos os cristãos que afirmam participar de “Igrejas” que na verdade não tem validade apostólica surgiram da cisão com a Igreja católica, “Então, o que faz o malvado? Inventa nova fraude para enganar os incautos com o próprio título do nome cristão. Introduz as heresias e os cismas para derrubar a fé, para contaminar a verdade e dilacerar a unidade” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. III, nº 3). 

“Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. IV, nº 10). 

“Galhos secos” (os indivíduos, grupos) são inexistentes de comunhão com a verdadeira Igreja de Cristo provinda dos Apóstolos, por isto não sustentam-se, morrem e não dão frutos, “Quando se quebra um ramo da árvore, o ramo quebrado já não pode vicejar. Se separamos um regato da fonte, ele secará.” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. V, nº 4). São ineficientes tratam-se de comunidades, que não coincidem coma tradição e doutrina apostólica “Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar que ainda está na Igreja? Paulo apóstolo inculca o mesmo ensinamento e mostra o sacramento da unidade, dizendo: “Um só corpo e um só espírito, uma é a esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um Batismo, um só Deus” (Ef 4,4-5).” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. IV, nº 6-7). 

“Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a uma adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja de Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano, torna-se inimigo.” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. VI, nº 2). 

S. Irineu de Lião também comenta a importância da transmissão apostólica para a legitimidade da Igreja no início do séc. III:

“E quando, por nossa vez, os levamos [os hereges] à Tradição que vem dos apóstolos e que é conservada nas várias igrejas, pela sucessão dos presbíteros, então se opõe à Tradição, dizendo que, sendo eles mais sábios do que os presbíteros, não somente, mas até dos apóstolos, foram os únicos capazes de encontrar a pura verdade.” (Contra as Heresias, III,2,1, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C)

“Portanto, a tradição dos apóstolos, que foi manifestada no mundo inteiro, pode ser descoberta e toda igreja por todos os que queiram ver a verdade. Poderíamos enumerar aqui os bispos que foram estabelecidos nas igrejas pelos apóstolos e seus sucessores até nós; e eles nunca ensinaram nem conheceram nada que se parecesse com o que essa gente [os hereges] vai delirando. […] Mas visto que seria coisa bastante longa elencar numa obrar como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou vanglória, que por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos.” (Contra as Heresias, III, 3,1-2, Santo Ireneu Bispo de Lião).

Contudo isto podemos afirmar que ninguém por desejo próprio, pode fundar outra Igreja, fora da que já esta constituída, como produziram os reformadores no século XVI as varias ‘comunidades eclesiais’ pela Europa.

No início do Séc. III São Cipriano de Cartago, já alertava aos hereges e cismáticos da época.

“Achas tu que alguém pode afastar-se da Igreja, fundar, a seu arbítrio, outras sedes e moradias diversas e ainda perseverar na vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual era prefigurada a Igreja: “Recolhe teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado da sua perda” (Jos 2,18-19).” (Da Unidade da Igreja Católica. São Cipriano de Cartago. Cap. VIII, nº 4). 

***
Notas:

Nazarenos¹: Expressão utilizada na antiguidade cristã, para designar os primeiros seguidores de Jesus Cristo, anterior ao aparecimento do substantivo “cristão”: Se correlaciona com a localidade onde Jesus cresceu e passou a maior parte da vida, o termo também é empregado nos Evangelhos para expressar a pessoa de Jesus.

Referências:

BÍBLIA SAGRADA. Índice Doutrinal, p.1594. 28º Edição. Ed, Ave Maria, São Paulo. 2000.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.