Sexualidade Humana: Verdade e Significado – Parte 3

36. Além
disso, a família verdadeiramente cristã tornar-se-á capaz de fazer compreender
o valor do celibato cristão e da castidade também àqueles filhos não casados ou
que não possam casar por motivos independentes à sua vontade. Se forem bem
formados desde crianças e na juventude, estarão em condições de enfrentar a
própria situação mais facilmente. Antes, poderão rectamente descobrir a vontade
de Deus em tal situação e encontrar um sentido de vocação e de paz na sua
vida.37 A estas pessoas, especialmente se afectadas de alguma deficiência
física, será preciso revelar as grandes possibilidades de realização de si e de
fecundidade espiritual abertas a quem, apoiado pela fé e pelo Amor de Deus, se
empenha em ajudar os irmãos mais pobres e mais necessitados.

IV – PAI E
MÃE COMO EDUCADORES

37. Deus,
concedendo aos cônjuges o privilégio e a grande responsabilidade de se tornarem
pais, dá-lhes a graça para cumprirem adequadamente a sua missão. Além disso, os
pais na tarefa de educar os filhos são iluminados por « duas verdades
fundamentais: a primeira é que o homem é chamado a viver na verdade e no amor;
a segunda é que cada homem se realiza através do dom sincero de si ».1 Como
esposos, pais e ministros da graça sacramental do matrimónio, os pais são
sustentados, dia após dia, com energias especiais de ordem espiritual, por
Jesus Cristo, que ama e nutre a Igreja, Sua Esposa.

Enquanto
cônjuges, tornados « uma só carne » pelo vínculo do matrimónio, partilham o
dever de formar os filhos mediante uma pronta colaboração alimentada por um
diálogo mútuo e vigoroso, que « tem uma nova e específica fonte no sacramento
do matrimónio, que os consagra para a educação propriamente cristã dos filhos,
isto é, que os chama a participar da mesma autoridade e do mesmo amor de Deus
Pai e de Cristo Pastor, como também do amor materno da Igreja, e os enriquece
de sabedoria, conselho, fortaleza e de todos os outros dons do Espírito Santo
para ajudarem os filhos no seu crescimento humano e cristão ».2

38. No
contexto da formação à castidade, a « paternidade-maternidade » inclui
evidentemente o pai que fica só e também os pais adoptivos. A tarefa do pai que
fica só não é certamente fácil, porque lhe falta o apoio do outro cônjuge e,
com ele o papel e o exemplo de uma pessoa do outro sexo. Deus, porém, ajuda os
pais sós com um amor especial, chamando-os a enfrentar esta tarefa com a mesma
generosidade e sensibilidade com que amam e cuidam dos seus filhos nos outros
aspectos da vida familiar.

39. Há
outras pessoas chamadas em certos casos a tomar o lugar dos pais: aqueles que
assumem de modo permanente o papel de pais, por exemplo, em relação às crianças
órfãs ou abandonadas. Sobre elas recai o dever de formar as crianças e os
jovens no sentido global e também na castidade e receberão a graça de estado
para o fazer segundo os mesmos princípios que guiam os pais cristãos.

40. Os pais
nunca se devem sentir sós neste empenho. A Igreja apoia-os e encoraja-os,
confiante de que podem desempenhar esta função melhor do que qualquer outra
pessoa. Ela conforta igualmente aqueles homens ou aquelas mulheres que, muitas
vezes com grande sacrifício, dão às crianças órfãs uma forma de amor paternal e
de vida familiar. Contudo, todos se devem aproximar de tal dever em espírito de
oração, abertos e obedientes às verdades morais de fé e de razão que integram o
ensinamento da Igreja, e considerando sempre as crianças e os jovens como
pessoas, filhos de Deus e herdeiros do Reino dos Céus.

Os direitos
e deveres dos pais

41. Antes
de entrar nos pormenores práticos da formação dos jovens para a castidade, é de
extrema importância que os pais conheçam os seus direitos e deveres, em
particular diante de um Estado e duma escola que tendem a tomar a iniciativa em
matéria de educação sexual.

Na Familiaris
Consortio, o Santo Padre João Paulo II reafirma-o: « O direito dever educativo
dos pais qualifica-se como essencial, ligado como está à transmissão da vida
humana; como original e primário, em relação ao dever de educar dos outros,
pela unicidade da relação de amor que subsiste entre pais e filhos; como insubstituível
e inalienável, e portanto, não delegável totalmente a outros ou por outros
usurpável »;3 excepto no caso, mencionado no início, da impossibilidade física
ou psíquica.

42. Esta
doutrina apoia-se nos ensinamentos do Concílio Vaticano II4 e é também
proclamada na Carta dos Direitos da Família: « Tendo dado a vida aos seus
filhos, os pais têm o direito original, primário e inalienável de os educar;
eles… têm o direito de educar os seus filhos em conformidade com as suas
convicções morais e religiosas, tendo em conta as tradições culturais da
família que favoreçam o bem e a dignidade da criança; devem, além disso,
receber da sociedade o auxílio e a assistência necessários para desempenharem
convenientemente o seu papel educativo ».5

43. O Papa
insiste no facto de que isto vale particularmente a respeito da sexualidade: «
A educação sexual, direito e dever fundamental dos pais, deve actuar-se sempre
sob a sua solícita guia, quer em casa quer nos centros educacionais escolhidos
e controlados por eles. Neste sentido a Igreja reafirma a lei da
subsidiariedade, que a escola deve observar quando coopera na educação sexual,
ao imbuir-se do mesmo espírito que anima os pais ».6

O Santo
Padre acrescenta: « Pelos laços estreitos que ligam a dimensão sexual da pessoa
e os seus valores éticos, o dever educativo deve conduzir os filhos a conhecer
e a estimar as normas morais como necessária e preciosa garantia para um
crescimento pessoal responsável na sexualidade humana ».7 Ninguém está em
condições de realizar melhor a educação moral, neste campo delicado, do que os
pais, devidamente preparados.

O
significado do dever dos pais

44. Este
direito implica também um dever educativo: se de facto não conferem uma
adequada formação à castidade, os pais faltam a um seu dever preciso; e eles
não deixariam de ser culpados se tolerassem que uma formação imoral ou
inadequada fosse dada aos filhos fora de casa.

45. Este
dever encontra hoje uma dificuldade particular até em relação à difusão,
através dos meios de comunicação social, da pornografia, inspirada em critérios
comerciais e que deforma a sensibilidade dos adolescentes. A este respeito, é
necessário, da parte dos pais, um duplo cuidado: uma educação preventiva e
crítica em relação aos filhos e uma acção de corajosa denúncia junto das
autoridades. Os pais, individualmente ou associados entre si, têm o direito e o
dever de promover o bem dos seus filhos e de exigir das autoridades leis que
previnam e reprimam a exploração da sensibilidade das crianças e dos
adolescentes.8

46. O Santo
Padre sublinha este dever dos pais delineando a sua orientação e objectivo: «
Diante do uma cultura que “banaliza” em grande parte a sexualidade
humana, porque a interpreta e a vive de maneira limitada e empobrecida
coligando-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o serviço educativo dos
pais deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual que seja verdadeira e
plenamente pessoal. A sexualidade, de facto, é uma riqueza de toda a pessoa –
corpo, sentimento e alma – e manifesta o seu significado íntimo ao levar a
pessoa ao dom de si no amor ».9

47. Não
podemos esquecer, contudo, que se trata de um direito-dever, o direito-dever de
educar, no qual os pais cristãos no passado repararam e exercitaram pouco,
talvez porque o problema não tinha a mesma gravidade de hoje; ou porque a sua
tarefa era em parte substituída pelos modelos sociais dominantes e, além disso,
pela complementaridade que neste campo exerciam a Igreja e a escola católica.
Não é fácil para os pais assumir este empenho educativo, porque hoje se revela
bastante complexo e maior que as próprias possibilidades da família, e porque
na maioria dos casos não há a possibilidade de fazer referência à acção dos
próprios pais.

Por isso, a
Igreja considera seu dever contribuir, também com este documento, para dar de
novo aos pais confiança nas suas capacidades e para os ajudar a desempenhar a
sua tarefa.

V – ITINERÁRIOS
FORMATIVOS NO SEIO DA FAMÍLIA

48. O
ambiente da família é, portanto, o lugar normal e ordinário da formação das
crianças e dos jovens para a consolidação e o exercício das virtudes da
caridade, da temperança, da fortaleza e, portanto, da castidade. Como igreja
doméstica, a família é, de facto, uma escola de enriquecimento humano.10 Isto
vale particularmente para a educação moral e espiritual, sobretudo sobre um
ponto tão delicado como a castidade: nela, com efeito, se entrelaçam aspectos
físicos, psíquicos e espirituais, acenos de liberdade e influxo dos modelos
sociais, pudor natural e tendências fortes ingénitas no corpo humano; factores
que, todos eles, se encontram juntos com a consciência, mesmo que seja
implícita, da dignidade da pessoa humana, chamada a colaborar com Deus e ao
mesmo tempo marcada pela fragilidade. Numa casa cristã os pais têm força para
orientar os filhos para um verdadeiro amadurecimento cristão da sua
personalidade, segundo a estatura de Cristo, no interior do seu Corpo místico
que é a Igreja.11

A família,
embora rica destas forças, tem necessidade de apoio, mesmo da parte do Estado e
da sociedade, segundo o princípio de subsidiariedade: « Acontece… que quando
a família decide corresponder plenamente à própria vocação, pode-se encontrar
privada do apoio necessário por parte do Estado, e não dispõe de recursos
suficientes. É urgente promover não apenas uma política para a família, mas
também políticas sociais, que tenham como principal objectivo a própria
família, ajudando-a, mediante a atribuição de recursos adequados e de
instrumentos eficazes de apoio, quer na educação dos filhos quer no cuidado dos
anciãos ».12

49.
Conscientes disto, e das dificultades reais que hoje existem em não poucos
países para os jovens, especialmente em presença de factores de degradação
social e moral, os pais são solicitados a ousar pedir e propor mais. Não podem
contentar-se com evitar o pior – que os filhos se droguem, ou não cometam
delitos – mas deverão empenharse em educá-los para os valores da pessoa,
renovados pelas virtudes da fé, da esperança e do amor: a liberdade, a
responsabilidade, a paternidade e a maternidade, o serviço, o trabalho
profissional, a solidariedade, a honestidade, a arte, o desporto, a alegria de
se saberem filhos de Deus e, por isso, irmãos de todos os seres humanos, etc.

O valor
essencial do lar

50. As
ciências psicológicas e pedagógicas, nas suas mais recentes aquisições e
experiência, concordam em sublinhar a importância decisiva, em ordem a uma educação
sexual harmónica e válida, do clima afectivo que reina na família,
especialmente nos primeiros anos da infância e da adolescência e talvez até na
fase pré-natal, períodos em que se instauram os dinamismos emocionais e
profundos das crianças. É posta em evidência a importância do equilíbrio, da
aceitação e da compreensão a nível do casal. Sublinha-se também o valor da
serenidade do relacionamento entre os cônjuges, da sua presença positiva –
tanto a do pai quanto a da mãe – nos anos importantes para os processos de
identificação, e da relação de tranquilizante afecto para com as crianças.

51. Certas
graves carências ou desiquilíbrios que se realizam entre os pais (por exemplo,
a ausência da vida familiar de um deles ou de ambos os pais, o desinteresse
educativo, ou a severidade excessiva) são factores capazes de causar nas
crianças distonias emocionais e afectivas que podem perturbar gravemente a sua
adolescência e por vezes marcá-las para toda a vida. É necessário que os pais
encontrem tempo para estar com os filhos e entreter-se e dialogar com eles. Os
filhos, dom e empenho, são a sua tarefa mais importante, se bem que,
aparentemente, nem sempre muito rendosa: são-no mais do que o trabalho, mais do
que as distracções, mais do que a posição social. Em tais conversações – e cada
vez mais, à medida que os anos passam – é preciso saber escutá-los com atenção,
esforçar-se por compreendê-los, saber reconhecer a parte de verdade que pode
estar presente em algumas formas de rebelião. E, ao mesmo tempo, os pais
poderão ajudá-los a canalizar rectamente ânsias e aspirações, ensinando-os a
reflectir sobre a realidade das coisas e a raciocinar. Não se trata de impor
uma determinada linha de comportamento, mas de mostrar os motivos,
sobrenaturais e humanos, que a recomendam. Serão mais bem sucedidos, se
souberem dedicar tempo aos seus filhos e colocar-se verdadeiramente ao nível
deles, com amor.

Formação na
comunidade de vida e de amor

52. A família cristã é capaz de oferecer
uma atmosfera permeada daquele amor a Deus que torna possível um autêntico dom
recíproco.13 As crianças que fazem esta experiência estão mais dispostas a
viver segundo aquelas verdades morais que vêem praticar na vida dos seus pais.
Terão confiança neles e aprenderão aquele amor – nada induz tanto a amar quanto
o saber-se amados – que vence os medos. Assim, o vínculo de amor recíproco, que
é testemunhado pelos pais para com os filhos, tornar-se-á uma protecção segura
da sua serenidade afectiva. Tal vínculo afinará a inteligência, a vontade e as
emoções, repelindo tudo o que poderia degradar ou aviltar o dom da sexualidade
humana, a qual numa família em que reina o amor, é sempre entendida como parte
do chamamento ao dom de si no amor por Deus e pelos outros: « A família é a
primeira e fundamental escola de sociabilidade: enquanto comunidade de amor,
ela encontra no dom de si a lei que a guia e a faz crescer. O dom de si, que
inspira o amor mútuo dos cônjuges, deve pôr-se como modelo e norma daquele que
deve ser actuado nas relações entre irmãos e irmãs e entre as diversas gerações
que convivem na família. E a comunhão e a participação quotidianamente vividas
na casa, nos momentos de alegria e de dificuldade, representam a mais concreta
e eficaz pedagogia para a inserção activa, responsável e fecunda dos filhos no
mais amplo horizonte da sociedade ».14

53. Em
definitivo, a educação ao amor autêntico, que não pode ser tal se não
tornando-se amor de benevolência, comporta o acolhimento da pessoa amada, o
considerar o seu bem como próprio, e, portanto, implica educar no recto
relacionamento com os outros. É preciso ensinar à criança, ao adolescente e ao
jovem como entrar em relacionamento são com Deus, com os seus pais, com os seus
irmãos e irmãs, com os seus companheiros do mesmo sexo ou de sexo diferente,
com os adultos.

54. Nem se
pode sequer esquecer que a educação para o amor é uma realidade global: não se
pode progredir no estabelecimento de um recto relacionamento com uma pessoa sem
o fazer, ao mesmo tempo, no relacionamento com qualquer outra pessoa. Como já
mencionamos, a educação para a castidade, enquanto educação para o amor, é ao
mesmo tempo educação do espírito, da sensibilidade e dos sentimentos. A atitude
para com as pessoas depende não pouco da maneira como se governam os
sentimentos espontâneos para com elas, fazendo crescer alguns deles,
controlando outros. A castidade, enquanto virtude, nunca se reduz a um simples
raciocínio sobre a capacidade de efectuar actos conformes à norma de
comportamento exterior, mas exige a activação e o desenvolvimento dos
dinamismos da natureza e da graça, que constituem o elemento principal e
imanente da nossa descoberta da lei de Deus como garantia de crescimento e de
liberdade.15

55. É
necessário, por isso, sublinhar que a educação para a castidade é inseparável
do empenho em cultivar todas as outras virtudes e, de modo particular, o amor
cristão que se caracteriza pelo respeito, o altruísmo e o serviço e que, em
definitivo, se chama caridade. A sexualidade é um bem de grande importância,
que é necessário proteger seguindo a ordem da razão iluminada pela fé: « Quanto
maior é um bem, tanto mais nele se deve observar a ordem da razão ».16 Daqui se
conclui que, para educar para a castidade, « é necessário o domínio de si, o
qual pressupõe virtudes como o pudor, a temperança, o respeito de si e dos
outros, a abertura ao próximo ».17

São também
importantes aquelas virtudes que a tradição cristã chamou as irmãs menores da
castidade (modéstia, atitude de sacrifício dos próprios caprichos), alimentadas
pela fé e pela vida de oração.

O pudor e a
modéstia

56. A prática do pudor e da modéstia, no
falar, no agir e no vestir, é muito importante para criar um clima apropriado à
conservação da castidade, mas isto deve ser bem motivado pelo respeito do
próprio corpo e da dignidade dos outros. Como já se mencionou, os pais devem
vigiar a fim de que certas modas e certas atitudes imorais não violem a
integridade da casa, particularmente através do mau uso dos mass media.18 O
Santo Padre sublinhou a necessidade de « que seja posta em prática uma
colaboração mais estreita entre os pais, aos quais compete o primeiro lugar na
tarefa educativa, os responsáveis dos meios de comunicação a vários níveis e as
autoridades públicas, a fim de que as famílias não sejam abandonadas a si
mesmas num sector importante da sua missão educativa… Na realidade, devem-se
reconhecer propostas, conteúdos e programas de divertimento sadio, de
informação e de educação complementares aos da família e da escola. Isto não
impede, infelizmente, que sobretudo nalgumas Nações sejam difundidos
espetáculos e escritos nos quais proliferam todos os tipos de violência e seja
praticada uma espécie de bombardeamento com mensagens que afectam os princípios
morais e tornam impossível uma atmosfera séria, que permita transmitir valores
dignos da pessoa humana ».19

Em
particular, a respeito do uso da televisão o Santo Padre especificou: « O modo
de viver – principalmente nas Nações mais industrializadas – leva bastantes
vezes as famílias a descarregarem-se das suas responsabilidades educativas,
encontrando na facilidade de evasão (representada, em casa, especialmente pela
televisão e por certas publicações) o meio de terem ocupado o tempo e as
actividades das crianças e jovens. Ninguém pode negar que há nisto também certa
justificação, dado que demasiadas vezes faltam estruturas e infraestruturas
suficientes para utilizar e valorizar o tempo livre dos jovens e orientar-lhes
as energias ».20 Outra circunstância facilitadora é representada pelo facto de
ambos os pais estarem ocupados no trabalho, mesmo extradoméstico. « A
sofrer-lhe as consequências são aqueles mesmos que têm mais necessidade de ser
ajudados no desenvolvimento da sua “liberdade responsável”. Daqui
surge o dever – especialmente para os crentes, para as mulheres e os homens que
amam a liberdade – de proteger especialmente as crianças e adolescentes das
“agressões” que sofrem dos mass-media. Ninguém falte a este dever
alegando motivos, demasiado cómodos, de desempenho! »;21 « os pais, enquanto
usuários, devem constituir-se parte activa no seu uso moderado, crítico,
vigilante e prudente ».22

A justa
intimidade

57. Em
estreita conexão com o pudor e a modéstia, que são uma defesa espontânea da
pessoa que recusa ser vista e tratada como objecto de prazer, em vez de ser
respeitada e amada por si mesma, deve-se considerar o respeito da intimidade:
se uma criança ou um jovem vê que se respeita a sua justa intimidade, saberá
então que se espera que ele também mostre a mesma atitude diante dos outros.
Desta maneira, aprende a cultivar o sentido de responsabilidade diante de Deus,
desenvolvendo a sua vida interior e o gosto pela liberdade pessoal, que o
tornam capaz de amar melhor a Deus e aos outros.

O
autodomínio

58. Tudo
isto exige geralmente o autodomínio, condição necessária para se ser capaz do
dom de si. As crianças e os jovens devem ser encorajados a estimar e praticar o
auto-controlo e a renúncia, a viver de modo ordenado, a fazer sacrifícios
pessoais, em espírito de amor a Deus, de auto-respeito e de generosidade para
com os outros, sem sufocar os sentimentos e as tendências, mas canalizando-os
numa vida virtuosa.

Os pais
como modelos para os seus filhos

59. O bom
exemplo e a « liderança » dos pais é essencial para fortalecer a formação dos
jovens para a castidade. A mãe que estima a vocação materna e o seu lugar na
casa ajuda grandemente a desenvolver, nas suas filhas, as qualidades da
feminilidade e da maternidade e põe diante dos filhos varões um exemplo claro,
forte e nobre de mulher.23 O pai que imprime no seu comportamento um estilo de
dignidade viril, sem machismos, será um modelo atraente para os filhos e
inspirará respeito, admiração e segurança nas filhas.24

60. Isto
vale também para educar ao espírito de sacrifício nas famílias sujeitas, hoje
mais que nunca, às pressões do materialismo e do consumismo. Só assim, os
filhos crescerão « numa recta liberdade diante dos bens materiais, adoptando um
estilo de vida simples e austero, bem convencidos de que “o homem vale
mais pelo que é do que pelo que tem”. Numa sociedade agitada e desagregada
por tensões e conflitos, pelo choque violento entre os diversos individualismos
e egoísmos, os filhos devem enriquecer-se não só do sentido da verdadeira
justiça, que por si só conduz ao respeito pela dignidade pessoal de cada um, mas
também e, ainda mais, do sentido do verdadeiro amor, como solicitude sincera e
serviço desinteressado para com os outros, em particular os mais pobres e
necessitados »;25 « a educação coloca-se plenamente no horizonte da
“civilização do amor”; desta depende e, em grande medida, contribui
para a sua construção ».26

Um
santuário da vida e da fé

61. Ninguém
pode ignorar que o primeiro exemplo e a maior ajuda que os pais podem dar em
relação aos próprios filhos é a sua generosidade em acolher a vida, sem esquecer
que assim os ajudam a ter um estilo de vida mais simples e, além disso, « que é
menor mal negar aos próprios filhos certas comodidades e vantagens materiais do
que privá-los da presença de irmãos e irmãs que os poderiam ajudar a
desenvolver a sua humanidade e a realizar a beleza da vida em todas as suas
fases e em toda a sua variedade ».27

62.
Finalmente, recordemos que, para chegar a todas estas metas, a família, antes
de mais, deve ser casa de fé e de oração na qual se está atento à presença de
Deus Pai, se acolhe a Palavra de Jesus, se sente o vínculo de amor, dom do
Espírito, se ama e invoca a Mãe puríssima de Deus.28 Tal vida de fé e de «
oração tem como conteúdo original a própria vida de família, que em todas as
suas diversas fases é interpretada como vocação de Deus e actuada como resposta
filial ao seu apelo: alegrias e dores, esperanças e tristezas, nascimento e
festas de anos, aniversários de núpcias dos pais, partidas, ausências e
regressos, escolhas importantes e decisivas, a morte de pessoas queridas, etc.,
assinalam a intervenção do amor de Deus, na história da família assim como
devem marcar o momento favorável para a acção de graças, para a impetração,
para o abandono confiante da família ao Pai comum que está nos céus ».29

63. Nesta
atmosfera de oração e de consciência da presença e da paternidade de Deus, as
verdades da fé e da moral serão ensinadas, compreendidas e penetradas com
reverência, e a palavra de Deus será lida e vivida com amor. Assim a verdade de
Cristo edificará uma comunidade familiar fundamentada no exemplo e na
orientação dos pais que descem « em profundidade ao coração dos filhos,
deixando marcas que os sucessivos acontecimentos da vida não conseguirão apagar
».30

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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