Ser de Deus

A dicotomia entre fé e prática com suas conseqüências corta o fio condutor da realização humana. Não podemos separar a alma do corpo. A construção da convivência adequada à promoção da vida e da dignidade humana exige de nós coerência na prática da justiça, da misericórdia, da concatenação dos passos corpóreos com os da ética e dos valores transcendentes.

A religiosidade focada na pura confiança de que o ser superior dá ao humano tudo e é um solucionador dos seus problemas, sem a contrapartida do nosso esforço para agirmos conforme a realidade de nossa filiação divina, não dá  consistência à construção de nossa felicidade. A convicção de que somos de Deus e nos entregamos à realização de seu projeto de amor,  torna-nos  corresponsáveis por construirmos a vida terrena como verdadeira missão. Mesmo se quisermos ser de Deus mas deixarmos para Ele fazer tudo sem colocarmos nossos dons a serviço do bem comum, não conseguiremos nortear nossa vida para a consecução de um ideal mais elevado. Em nosso íntimo não nos contentamos com pouco na vida. Temos sede de infinito. Para conquistá-lo precisamos ser de Deus, mas com o compromisso de cuidar da vida e promovê-la com os meios e critérios do próprio Criador.

Dar o que é de César a César e a Deus o que é dele é de suma importância (Cf. Mateus 22,21). Nosso contributo para o desenvolvimento na cidade terrestre é efeito de nossa vocação de busca da cidade celeste. Mas precisamos fazê-lo pela mandato de Deus. Ele nos dá a terra para dela cuidarmos com todo o carinho e amor. A natureza e a convivência social e humana  fazem-nos reais imagens e semelhanças com o Criador. Ele cuida de tudo, mas nos dá também a incumbência de desenvolvermos o que Ele fez na terra. O ser humano muitas vezes não cuida e arruina tudo com o egoísmo, a autossuficiência e o pecado. Deus mandou seu Filho para nos dar meios de rearrumar a casa terrena. Mas, com Ele! Ao contrário, a autossuficiência humana vai nos continuar arruinando. Precisamos  colocar os critérios do Jesus humano-divino na nossa convivência. Teremos mais justiça, promoção da vida, da boa política, do respeito e promoção dos mais deixados de lado…

Se realmente formos de Deus, respeitaremos mais o semelhante. Cooperaremos melhor com o desenvolvimento sustentável da terra e do ser humano. Superaremos a degradação ambiental, a concentração de riquezas, a gritante, exagerada e injusta desigualdade. Teremos mais respeito ao outro, valorizando suas potencialidades. Teremos carinho especial com a família e os mais fragilizados!

Quem é de Deus supera o materialismo e a religiosidade puramente alienante. Consagra-se diuturnamente à vida de doação de si pelo bem da comunidade. Preocupa-se em ser fiel ao amor a Deus na prática do amor ao semelhante. Torna-se pessoa ética. Não sucumbe à tentação de querer o que é bom somente para si. Sabe partilhar com o outro o bem em todas as dimensões. Seu amor, fundamentado no de Deus, não tem limites! Fizéssemos todos assim, teríamos um mundo mais humano e cheio de paz!

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por Dom José Alberto Moura, CSS
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros – MG

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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