Santo Atanásio

Santo Atanásio (295 – 373)
Alexandria, Santo Antão (356), Nicéia 325 – arianismo 7 anos no exílio
DA 1ª CARTA A SERAPIÃO
(P.G. 26,529´532, 557, 565s 583, 585; S.C. 15)

Sobre a divindade do Espírito Santo

A carta de tua Caridade me foi entregue no deserto. E embora fosse cruel a perseguição deflagrada contra nós, pelos que nos querem desgraçar, consolou´nos com tua carta ´o Pai das misericórdias de Deus de toda Consolação´ (2Cor 1,3). Trazendo´me à lembrança tua Caridade e meus sinceros amigos, parecia´me que estáveis todos juntos a mim. Alegrei´me, sim, vivamente com a recepção de tua carta. Mas ao ler o conteúdo sentir´me de novo esmorecer pela notícia dos que deliberam dedicar´se a lutar contra a verdade.
Com efeito, prezado amigo, tu me escrevias afligido também por esses que, apesar de separados dos arianos quanto à blasfêmia contra o Filho de Deus, (3…) fomentam pensamentos hostis contra o Espírito Santo, pretendendo´o não apenas criatura mas até um dos espíritos servis (Cf.Hb 1.14 – ´administratorii spiritus…´), distinto dos anjos tão´somente por grau. Ora, isto é simples oposição simulada aos arianos, e na verdade contradiz à santa fé. Da mesma forma que os arianos, negando o Filho, negam o Pai, esses também, desacreditando o Espírito Santo, desacreditam o Filho. São duas facções que se repartem a insurreição contra a verdade para desembocarem na mesma blasfêmia contra a Trindade, atacando uns o Filho, outros o Espírito.
Considerando isto e refletindo muito, senti´me deprimido, pois de novo conseguiu o diabo zombar dos que contrariam sua loucura. Tinha decidido calar´me em tais circunstâncias; entretanto, coagido por tua Reverência e por causa do despreza, da audácia satânica dessa gente, redigi a presente carta, do modo que pude, esperando que a completes no que talvez falte, com tua sabedoria, e se realize assim a refutação da ímpia heresia.
Quanto aos arianos, inicialmente, tem´se que essa opinião não é estranha a eles. Pois uma vez que negaram o Verbo de Deus, é natural que vociferem também contra seu Espírito. Por isto não será preciso dirigir´lhes refutações em acréscimo às feitas precedentemente (5….).
Quanto aos que erram sobre o Espírito, convirá proceder de certo ´modo´ – como diriam eles mesmos (6…) – no propósito de responder´lhes. Poderíamos espantar´nos de seu disparate: não querem que o Filho de Deus seja uma criatura – e nisto pensam corretamente – mas então como suportam ouvir que o Espírito do Filho é uma criatura ? Se, em razão da unidade do Verbo com o Pai, não querem que o Filho seja uma das coisas chegadas à existência, mas pensam, com razão, ser ele o artífice (7…) das obras (divinas), por que então ao Espírito Santo, que possui com o Filho a mesma unidade que este com o Pai, chamam criaturas ? Por que não reconheceram que, se não separando do Pai o Filho, salvaguardam a unidade de Deus, separando do Verbo o Espírito já não salvaguardam mais a única divindade da Trindade, mas a dividem, inserindo´lhe uma natureza estranha, de outra espécie, e acarretando assim igualdade com as coisas criadas? Além disto, tal concepção não apresenta a Trindade como uma realidade única, mas como constituída de duas diversas naturezas, se difere, conforme pensam a substância do Espírito. Que idéia de Deus há de ser esta, formada de Criador e criatura? Ou bem já não há Tríade, mas Díade com uma criatura, ou se há Tríade, como de fato há, por que põem entre as criaturas, que vêm abaixo da Tríade, o Espírito da Tríade? Tal seria, mas uma vez, dividir a Trindade (8….).
Funesta a respeito do Espírito Santo, sua doutrina também não é boa a respeito do Filho, pois se aqui fosse correta, sê´lo´ia igualmente a respeito do Espírito, que procede do pai e que, sendo próprio do Filho, vem dado por este a seus discípulos e a todos os que crêem nele. Dessa forma desgarrados, não poderão enfim Ter uma fé sadia a respeito do Pai, porque os que resistem ao Espírito – como dizia o grande mártir Estevão (9…) – negam o Filho, e negando o Filho já não têm o Pai.
Por que todo esse desvario? Em que lugar das Escrituras acharam a designação de anjo dada ao Espírito ? Não é preciso que repita agora o que já disse alhures. Ele foi chamado Consolador, Espírito de filiação, Espírito de Deus, Espírito de Cristo. Em parte alguma, anjo arcanjo, espírito ministrante – como o são os anjos; ao contrário, é ele ministrado por Gabriel, que disse a Maria : ´o Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra´ (Lc 1,35). Se as Escrituras não chamam o Espírito um anjo, que excusa invocam aqueles tais para dizerem tal temeridade? Mesmo Valentim, que lhes inspirou a nefasta idéia, dava distintamente a um o nome de Paráclito e a outros o de anjos, ainda se atribuindo a todos a mesma ´idade´ (11….)
O sentido das palavras divinas refuta absolutamente a linguagem herética dos que desatinam contra o Espírito. Eles porém, sempre hostilizaram a verdade, tiram – conforme dizes – não mais das Escrituras, onde nada achariam, mas de seu próprio coração, o que eructam dizendo: se o Espírito não é criatura, nem um dentre os anjos, mas procede o Pai, é então filho, e neste caso ele e o Verbo são irmãos. Mas se é irmão, como o Verbo é unigênito? E como não são iguais, pois um é designado após o Pai e outro após o Filho? Se o Espírito provém do Pai, como não é também engendrado, e Filho, mas simplesmente ´Espírito Santo´? Enfim, se é o Espírito do Filho, Ter´se´á que o Pai é avô do Espírito…
São os gracejos que se permitem os infames, presunçosos no perscrutar as profundezas de Deus, a quem ninguém conhece senão o Espírito de Deus, vilipendiado por eles. Seria preciso não responder a eles, mas sim, conforme o preceito do Apóstolo ( Tt 3,10), depois de os Ter admoestado com palavras, como as que já escrevemos, recusá´los simplesmente como hereges; ou dirigir´lhes perguntas dignas das que no põem, exigindo da mesma forma as respostas. Digam´nos se o Pai também provém de outro pai, se um outro foi gerado com ele e se são assim irmãos, qual os eu nome, quem é seu pai, avô, quem seus ancestrais. Alegrarão que a coisa não é esta. Pois bem, informem´nos como o Pai existe sem Ter sido gerado por outro pai; como teve um filho sem ter sido gerado também como filho. Questão ímpia, por certo, mas os que que se permitem tais remoques é justo serem tratados da mesma forma, para que o absurdo e a impiedade da questão os leve a perceber sua própria insensatez. Pois nada disso é verdade, Deus nos livre! E não se admite a colocação de tais questões sobre a Divindade. Deus não é como o homem para ousarmos pesquisar coisas humanas a seu respeito.
Aquele que não é santificado por outro, nem apenas participante da santificação, mas de cuja santidade participam as criaturas e se tornam santificadas, como seria um dentre as criaturas, da mesma forma que os que ele participam? Para firmá´lo seria preciso dizer que também o Filho, por meio de quem todas as coisas foram feitas, é uma dessas coisas feitas.
O Espírito é chamado vivificante, pois a Escritura diz: ´Aquele que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos, vivificará também vossos corpos mortais por meio de seu Espírito, que habita em vós´ (Rm 8,11). O Senhor é a vida em si e ´o autor da vida´, conforme Pedro (At 3,15) ; ora, o mesmo Senhor dizia: ´a água que eu darei ao fiel se tornará nele uma fonte de água, que jorra para a vida eterna´, e ´ele dizia isto do Espírito, que deveriam receber os que crêem nele´ (Jo 7,39). As criatura são vivificadas pelo Espírito; como então se aparentam a Ele, que não tem a vida por participação, mas é fonte de participação e vivifica as criaturas? Como poderia ser do número das criaturas, vivificadas nele pelo Verbo?
É também por meio do Espírito que nós participamos de Deus. Por isto diz s. Paulo: ´Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá; pois o templo de Deus, que sois, é santo´ ( 1Cor 3,16s). Se o Espírito fosse criatura, nós não teríamos, por meio dele, participação de Deus, estaríamos sempre associados à criatura, sempre estranhos à natureza divina, não participando dela em nada. Mas, se somos ditos participantes do Cristo e participantes de Deus, tem´se que a unção, o sigilo, que está em nós, não é de natureza criada, é da natureza do Filho, o qual, por meio do Espírito que nele está, nos une ao pai. Foi o que João ensinou, já o dissemos, ao escrever: ´Sabemos que permanecemos em Deus e ele permanece em nós, pois nos deus de seu Espírito´ (1Jo 4,13). Ora se pela participação do Espírito nós nos tornamos participantes da natureza divina insensato será dizer que o Espírito pertence à natureza criada e não à de Deus.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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