Santa Teresinha e o dom da Fortaleza

santateresinhadasrosasA graça de adoção, que faz de nós verdadeiros filhos de Deus, torna-nos fiéis, se necessário, até a morte. Longe de ser incompatível com o caminho da infância espiritual, a fortaleza de alma foi um dos traços mais característicos da fisionomia moral de Santa Teresinha do Menino Jesus. No entusiasmo pela “Santinha” de Lisieux, o mundo moderno enganou-se redondamente quanto à significação de seu sorriso, e a multidão de devotos superficiais não percebeu que a Santa de perpétuo sorriso e de crucifixo coberto de rosas estabelecera por “base de sua doutrina de amor da cruz”. “Tornaram-lhe insípida a espiritualidade: é uma alma varonil, é um grande homem”, afirmava o Papa Pio XI.

As testemunhas do processo de canonização insistem também no vigor heroico da Serva de Deus, reconstituindo assim o verdadeiro semblante da Santa, sob a luz da cruz. A Irmã Teresa do Menino Jesus deixara, em sua irmã, Celina, tal impressão de fortaleza d’alma que, “antes de ter aprendido a classificar as virtudes pela leitura dos artigos do vice postulador, teria reunido todas na fortaleza”. ‘Desde a noite do Natal de 1886, em que Deus a “revestiu com sua divina força”, Teresa não foi vencida em combate algum. Eis-nos, portanto, bem estabelecidos na verdade: o retrato de conjunto da fisionomia moral de Santa Teresinha do Menino Jesus acusa um extraordinário vigor. O espirito de fortaleza lhe anima toda a espiritualidade.

A fim de analisar melhor as manifestações desse espírito de força na alma de Teresa, importa apreender bem a irredutível diferença entre o regime das virtudes e o dos dons. No exercício ordinário da virtude e o dos dons. No exercício ordinário da virtude de fortaleza, o ser humano ainda treme diante do perigo, permanecendo em luta com as paixões. Experimenta os pobres limites da resistência humana em face do sofrimento e da morte. Há, todavia, uma maneira superior, toda divina, de triunfar do medo paralisante ou de uma audácia demasiado impetuosa e irrefletida: passar por entre as dificuldades, como que a desprezá-las, apoiando-se na própria força de Deus. Os Santos avançam entre as agitações deste mundo e as mais temíveis oposições que lhes vem da parte dos homens, estabelecidos na Força Imutável e dominadora de Deus. A fragilidade caduca de tais oposições, aparentemente formidáveis, deixa-os numa paz inalterável. Sabem que não há obstáculo par aqueles que querem viver de amor e são protegidos pela Força invencível de Deus. Viram-se mártires exultando no meio das piores torturas e grandes servos de Deus entregando-se a incrível alegria, à notícia de novos revezes que pareciam ameaçar-lhes a obra de uma vida inteira. Iam jubilosos, como os Apóstolos, felizes porque os haviam achado dignos de sofrer por Cristo, como S. Domingos, cantando com maior ardor à proporção que encontrava seixos mais agudos ao longo do caminho.

O dom de Fortaleza tem por medida, não os limites da resistência humana, mas a Onipotência de Deus. Por este dom, a alma utiliza como sua a própria Fortaleza de Deus, por uma espécie de participação na Imutabilidade divina. Amparada em Deus que nela vive, triunfa de qualquer dificuldade, livrando-se de todos os perigos. Pode repetir o desafio de S. Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo? Nem a tribulação, nem a angústia, nem a fome, nem perigo algum, nem a perseguição, nem a espada”. Está certa de que “nem a vida, nem a morte, nem criatura alguma visível ou invisível, nem as coisas presentes, nem as futuras, nada poderá jamais separá-la do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor”.

O dom de fortaleza não se estende só aos perigos de morte, como a virtude correspondente, mas a todos os atos das virtudes anexas: magnificência, magnanimidade, perseverança, paciência; estende-se a todas as dificuldades que se podem encontrar numa existência humana. Por conseguinte, é fácil compreender que suas manifestações assumem cambiantes tão variadas quanto cada uma de nossas vidas. O espírito de fortaleza que impele os homens de ação aos projetos de grande envergadura, a serviço da Igreja e da sociedade humana, anima também a prece dos grandes contemplativos, ciosos de redenção para o conjunto do corpo místico de Cristo. O mesmo espírito que acompanha os homens de ação no seu ardor militante e os conserva pacientes nos revezes de seu apostolado, ampara os solitários e as enclausuradas no dédalo da purificação passivas e corredentoras que os consomem no puro amor, para o maior bem da Igreja.

O heroísmo de pequenez

Na Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus encarna o tipo do heroísmo de pequenez. Com fidelidade sem desfalecimento, aplica-se à pratica das virtudes ocultas. As grandes mortificações dos outros Santos não exercem atrativo algum sobre a sua alma, embora magnânima. Sua graça pessoal afasta-a do extraordinário; teria receio de que a multidão das “alminhas” perdesse o desejo da santidade, se lhes fora necessário seguir o caminho, para muito inacessível, das “grandes austeridades”. Escolhe, de preferência, a obscura vereda da fidelidade absoluta aos mais humildes deveres de estado. Deixando às grandes almas e aos gigantes da santidade os brilhantes feitos, esforça-se modestamente por “agradar a Jesus”, com pequeninos sacrifícios, só d’Ele conhecidos. Em tal caminho, porém, que modelo incomparável! Teresa não deixa passar nenhum sacrifício, nenhuma ocasião de praticar a virtude e, desta forma, elevar-se-á ao mais crucificante heroísmo, fazendo de sua vida religiosa um verdadeiro martírio. Desenvolve uma força sobre-humana nesses atos “microscópicos”, sem espírito de minúcia, numa distância imensa do formalismo sem alma, rivalizando com os maiores Santos de outrora ao fazer de sua vida uma obra-prima da graça, um modelo de puro amor. Esgotada de fadiga, prossegue no caminho, devorada por um incrível ardor de redenção: “Caminho por um missionário. Ainda posso caminhar: devo estar onde me indica o dever”. De seus lábios, recolheram as noviças palavras de ordem tão austeras quanto às de S. João da Cruz: “Ir até o extremo das forças, antes de queixar-se”. “Jamais pedir permissão que atenue o martírio da vida religiosa”.

O processo de canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus acha-se repleto de passagens onde brilha esse heroísmo obscuro. “Aproveitava habitualmente, sem que o deixasse transparecer, todas as ocasiões de sofrer”. – “Nos trabalhos comuns, tomava ativamente a parte mais penosa possível, escolhendo o lugar menos cômodo, a fim de evitar que coubesse às outras. Assim, durante o verão, ocupava na lavanderia o lugar onde havia menos ar. Tantas recordações deixaram esse fato que ainda hoje se chama “o lugar da Irmã Teresa” e as jovens irmãs o ocupam a fim de lhe imitar a mortificação e caridade”. “Certo dia, durante a sua doença, vi que bebia, gota a gota, um detestável remédio. Disse-lhe: “Ande, beba isso de um trago”. – Oh! Respondeu-me, faço absoluta questão de saboreá-lo. Não devo aproveitar-me de todas as pequenas mortificações que se apresentam, já que as grandes me são proibidas?”.

Seria suficiente haurir no processo de canonização para acumular, ao infinito, esses detalhes. – “A Serva de Deus prestava grande atenção para não usar de comodidades. Achando-se sentada, jamais apoiava as costas; não cruzava os pés, quando fazia calor, evitava enxugar ostensivamente o rosto; no inverno, não esfregava as mãos nem se escolhia para caminhar. Repreendeu severamente uma noviça que n inverno, a fim de sentir menos frio, fechara as mangas com um alfinete”.

– “Com paciência heroica, suportava a Irmã Teresa que a perturbassem… Oh! Considerem dizia ela, ter pensamentos sublimes, fazer livros, escrever vidas de Santos, nada disto vale a ação de responder quando se é chamado. Eu a pratiquei, experimentado, em consequência, a paz que produz”. – “Desde que deixei que procurar-me, tenho a vida mais feliz que se possa imaginar”. – “Teresa suporta com paciência os sofrimentos que se lhe impunham, sem procurar libertar-se deles”. – “Contou-me que, achando-se encarregado do refeitório uma irmã, ao prender-lhe o escapulário, atravessou-lhe o ombro com um grande alfinete. Perguntei por quanto tempo sofrera isso: “Várias horas, respondeu-me; fui à adega encher as garrafas, levando-as nos cestos. Sentia-me tão contente! Mas por fim, tive receio de faltar com a obediência, pois que a nossa Madre de nada sabia”. – “Por nada neste mundo, a jovem carmelita se aproveitaria da presença de sua irmã Paulina à frente da comunidade, para obter algum favor. “De todas as religiosas, foi Teresa a que mais raramente viu a sua Madre Priora”. Tinha por principio não deixar passar nenhum sacrifício, por mínimo que fosse. – Desde a infância, sempre a vi aplicada em obedecer. Não me lembro de que haja desobedecido uma só vez, nem mesmo nas menores coisas”. Temos ainda a notável declaração: “DESDE OS TRÊS ANOS DE IDADE, NADA RECUSEI JAMAIS AO BOM DEUS”. “Verdadeiramente, nunca se viu coisa semelhantes”, diziam as irmãs veteranas. Não lhe faltaram ocasiões para essa fidelidade sorridente e absoluta.

Eis, traçado por uma de suas noviças, o retrato do seu heroísmo de pequenez: “A Irmã Teresa do Menino Jesus era muito mortificada, mas de uma mortificação amável que absolutamente não se fazia notar. Os conselhos de mortificação que me dava fizeram-me observar, com maior facilidade, a sua, pois nunca me dava um conselho sem que ela própria o realizasse perfeitamente. Assim, recomendava-me não misturasse os alimentos, a fim de tornar mais agradável o conjunto, não apoiasse as costas na parede (o que exige grande atenção, pois os bancos, muito estreitos, não contíguos à parede), terminasse a refeição com algo não agradável ao paladar, com um bocado de pão, por exemplo. Explicava-me que todos esses pequenos nadas não prejudicam a saúde, não chamam a atenção sobre nós e nos conservam a alma num estado de sobrenatural favor”.

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Tal foi o método simples e constate da Irmã Teresa do Menino Jesus: “Amar, sofrer e sorrir sempre”. Essa fidelidade nas mínimas coisas desenvolvia lhe na alma uma continua atividade das virtudes. O dom de fortaleza, em particular, por um triunfo de todos os instantes, dava-lhe perfeito império sobre todas as ações. Quando chegaram os grandes sofrimentos, Deus a encontrou preparada: o heroísmo de pequenez formara uma alma de mártir.

O heroísmo de grandeza

O heroísmo de pequenez conduz ao de grande. A fidelidade silenciosa e perseverante tempera as almas para a hora dos grandes combates. Proclame-se a pátria em perigo e ver-se-á que o operário e o camponês, habituados aos rudes labores, erguem-se imediata e espontaneamente até o heroísmo do soldado que morre por seu país. Quantos sacerdotes e simples cristãos preparou Deus para o martírio pelas humildes tarefas da vida comum! Chega o dia, em que a alma, fiel em cumprir todo o seu dever, acha-se diante de alguma das ações heroicas que fazem a grandeza de uma vida.

Em Santa Teresinha do Menino Jesus, encontra-se o heroísmo de grandeza sob ambas as formas clássicas: a audácia das grandes empresas e a paciência invencível entre as mais duras crucifixões da vida.

Sua grande de alma tê-la-ia transformado, em outras circunstâncias, numa S. Catarina de Sena ou numa Joana d’Arc. – “Lendo as ações patrióticas das heroínas francesas, particularmente de Joana d’Arc, sentia grande desejo de imitá-las… Achando então que nascera para a glória e procurando o meio de alcança-la, revelou-me interiormente que a minha glória consistiria em torna-me santa. Tal desejo poderia parecer temerário, ao seu considerar quando era imperfeita e quanto o sou ainda após tantos anos passados em religião. Todavia, sinto a mesma audaciosa confiança de torna-me uma grande santa”. E, depois de haver lembrado o conhecido episódio de sua infância: “eu escolho tudo”, acrescenta: “Essa passagem de minha infância é como que o resumo de minha vida inteira. Mas tarde, quando me apareceu a perfeição, compreendi que, para tornar-me santa, precisaria de sofrer muito, buscar o que há de mais perfeito e esquecer-me a mim mesma. Compreendi que, na santidade, há numerosos graus e que cada alma tem liberdade para corresponder aos convites de Nosso Senhor, para fazer pouco ou muito por seu amor, em uma palavra, para “escolher” entre os sacrifícios que Ele pede. Então, como nos dias de minha infância, exclamei: “Meu Deus, escolho tudo! Não quero ser santa pela metade. Não tenho medo de sofrer por Vós”.

De fato, apenas entrara no convento, aplicou-se à procura da perfeição religiosa com indomável energia. Não foi sem luta. – “Quando postulante, experimentava por vezes tentações tão violentas de satisfazer-me e achar algumas gotas de alegria, que me via obrigada a passar rapidamente diante da cela da Rev. Madre Priora e agarrar-me ao corrimão da escada para não voltar atrás. Ocorria-me ao pensamento grande quantidade de permissões a pedir, mil pretextos para dar razão à natureza e satisfazê-la. Como sou feliz agora por me ter recusado tudo desde o início de minha vida religiosa!”.

Mais tarde, tendo já alcançado uma vida espiritual muito elevada, atravessará ainda horas difíceis e, para triunfar, ser-lhe-á necessária toda a energia sobrenatural, assistida pela própria força de Deus. Certa ocasião em que lhe pediram preparasse uma lamparina, a Irmã Teresa do Menino Jesus teve de sustentar uma luta intima bem violenta. “O demônio tentava-me violentamente à revolta, não só contra a lâmpada que me fazia perder um tempo tão precioso, mas também contra a autoridade. Vi perfeitamente que iria ofender o bom Deus e pedi-Lhe a graça de apaziguar a tempestade que em mim se erguera. Fiz um grande esforço sobre mim mesma, e comecei a preparar a lamparina como se fora destinada a iluminar a Virgem Santa e o Menino Jesus. Empreguei incrível cuidado, não deixando o mínimo vestígio de pó. Meu coração acalmou-se e achei-me na disposição de prestar qualquer serviço que me pedissem”.

Esse incidente mostra-nos com evidencia os combates espirituais em que se empenham até os maiores servos de Deus, em luta com as paixões e as resistências da natureza. Deus assim o quer, para conservá-los na humildade e na consciência do seu nada. E quando Lhe apraz, na hora determinada por Sua misericórdia, Seu Espírito os leva de maneira irresistível para o termo de sua predestinação, transformando-os cada vez mais na imagem de Cristo. Por isso, a santidade é sempre, antes de tudo, o triunfo da graça de Deus.

Teresa possuía uma alma magnânima. “Uma estampa de Joana d’Arc inspirava-lhe a ardente invocação: “Senhor, Deus dos exércitos, que nos dissestes no Evangelho: “Não vim trazer a paz mas o gládio”, armai-me para a luta. Desejo ardentemente combater por vossa glória… ó meu Jesus, por vosso amor, batalharei até o anoitecer de minha vida”.

Eis o entusiasmo com que utilizava seus instrumentos de penitência. “Dizia-lhe, conta-nos Celina, que um sentimento natural nos leva a evitar os movimentos sob um cilicio ou a nos retesarmos sob a disciplina, a fim de sofrer menos. A Irmã Teresa olhou-me surpreendida e replicou: “Quanto a mim, acho que não vale a pena fazer as coisas pela metade. Tomo a disciplina para maltratar-me e quero que seja o mais possível. Assim, inclino-me de maneira a ter o corpo bem flexível, para melhor sentir os golpes”, “A Serva de Deus agia tão depressa que chegava a trezentos golpes por Miserere. Disse-me que, quanto mais viva a dor experimentada, mais sorria, para que o bom Deus visse perfeitamente, até por seu semblante, que se achava feliz em sofrer por Ele”. “Certo dia, falávamos sobre a felicidade dos mártires e a nossa esperança de o ser, por causa das perseguições religiosas. Disse-me então: “Quando penso que vivemos a era dos mártires! Que alegria! O bom Deus vai realizar o mais belo sonho da minha vida. Ah! deixemos de fazer caso das pequeninas misérias quotidianas. Procuremos suportá-las generosamente, a fim de merecer tão grande graça”.

Resta-nos segui-la na fase mais sublime de seu heroísmo de grandeza: a última doença e a morte.

O ponto culminante da fortaleza não é a audácia nas grandes empresas, mas uma paciência invencível na hora dolorosa da crucifixão. É preciso ter mais energia para permanecer pregado na cruz, no mesmo lugar, no puro amor, do q eu para marchar avante, à conquista das almas. “Resistir até o fim”, eis a palavra suprema do espírito de fortaleza.viveroevangelho

A Irmã Teresa aceitou sem alívio o martírio de sua vida religiosa. A Providência a conduzia sempre pela vereda do sofrimento e da pura fé. Grandes penas a visitaram: as delongas para a sua profissão religiosa, a humilhação da doença de seu pai; e, após as hemoptises da Quinta e Sexta-feira santas, o esgotamento de um corpo doente que arrastou a todas as austeridades do Carmelo. “Dirigia-se, ardente em febre, à barrela; ia ao estendedouro com as costas ou o peito rasgados por vesicatórios não curados. Ainda a vejo, após uma visita do médico que acabara de lhe fazer mais de cento e cinquenta pontas de fogo no lado (era eu que as contava), subir à cela e deitar-se na dura enxerga”. – A todas essas provas particulares, acrescentava-se um estado habitual de aridez e de abandono interior. Ora, o que sempre me pareceu extremamente notável, foi a sua fortaleza de alma para suportar todas essas penas. “Sua alegria, bom humor e amabilidade para com todos eram tão constantes que, na comunidade, ninguém suspeitava tudo quanto devia sofrer”. – “Não obstante a doença, a Irmã Teresa do Menino Jesus nunca se dispensava dos exercícios comuns e dos trabalhos penosos. Ia, sem queixar-se, até o extremo das forças”. – “De noite, a pobre menina tinha de subir sozinha a escada ao dormitório; detendo-se em cada degrau para recuperar alento, alcançava penosamente a cela, onde chegava tão exausta que, às vezes – conforme declarou mais tarde – precisava de uma hora para despir-se. E, depois de tantas fadigas, tinha de passar na dura enxerga o tempo do repouso”. – “Durante o Ofício divino, muitas vezes lhe faltava a respiração pela violência que fazia para salmodiar e conservar-se de pé, mas afastava o cansaço com as seguintes palavras: “Se morrer, logo se verá”.

A todos esses sofrimentos, vieram acrescentar-se as espantosas purificações divinas pelas quais Deus faz passar a alma de seus santos, ao anoitecer da vida, para acabar de imprimir-lhes a imagem perfeita do Crucificado. Os que desejarem compreender esses supremos requintes do sofrimento – os mais terríveis de uma existência humana – releiam, sobre tal ponto, as páginas clássicas do Castelo da alma ou da Noite escura. Teresa conheceu simultaneamente o duplo martírio do corpo e da alma. Ela, que desejava com ardor a morte, sem consolação, de Cristo na cruz, foi plenamente atendida. Um sofrimento implacável abateu-se-lhe sobre o corpo, levando-o lentamente à destruição, enquanto, ao olhar da alma, velava-se o céu como por trás de um muro de bronze. Mas apesar disto, Teresinha murmurava, com os lábios, o cântico da fortaleza heroica e do puro amor: “Não quisera sofrer menos”. – “É só o amor que vale”. – “Não me arrependo de me haver entregado ao Amor”.

Teresinha quisera “morrer em um campo de batalha, de armas na mão”. Deus preferiu para ela a morte silenciosa e redentora do Crucificado, morte de amor, sinal da mais elevada caridade, ato supremo do dom de fortaleza. O seu especial martírio foi o martírio de amor. Na Igreja, ela encarna o tipo da alma contemplativa que tudo foi por amor.

Retirado de: “Santa Teresinha de Lisieux, um caminho todo novo”, M.M. Philipon, Ed. Cultor de Livros

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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