Renova-te, Renovação, de joelhos!

Carta Aberta aos participantes da Renovação Carismática
Católica

Sorocaba, 16 de setembro de 2004

Aos caríssimos e amados irmãos e irmãs, líderes, amigos, coordenadores, conselheiros, servos, enfim, da Renovação Carismática Católica do Brasil.

“Hoje, uma nova era está se desenvolvendo diante de vós:
aquela da maturidade eclesial. Isto não significa que todos os problemas tenham
sido resolvidos. Na verdade, é um caminho a percorrer. A Igreja espera de vós
os frutos maduros de comunhão e comprometimento”.

(João Paulo II, aos Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades, no Pentecostes de 1998)

Cientes da responsabilidade que toca a cada um de nós –
especialmente enquanto liderança – na busca efetiva dos caminhos que nos podem
conduzir a esta almejada maturidade, prosseguimos com renovado empenho em
escutar e obedecer à palavra do Senhor, que nos exorta: “Levanta-te, Brasil, de
joelhos!”.

Como sabem, o tempo de meu mandato recebido para estar na
Presidência do Conselho Nacional da RCC findar-se-á em dezembro próximo (2004).
Fui eleito inicialmente para um período inicial de 2 anos, terminado o qual eu
poderia -, se o Conselho assim o entendesse -, ser reconduzido ao cargo por um
adicional período de mais 2 anos. Porém, durante o próprio processo de eleição,
por sugestão de Dom Alberto Taveira, o Conselho houve por bem já conceder-me de
imediato um período de 4 anos – tanto para evitar o desgaste de um processo de
reeleição, como por considerar que, dada a então presente situação, seria
necessário mesmo um período maior do que o de 2 anos para se reorganizar tudo
aquilo que almejávamos.

E, por fim, o Conselho Nacional concordou ainda em
conceder-me mais 8 meses, fazendo com que os mandatos expirassem sempre em
dezembro (e não em abril, como vinha acontecendo), coincidindo assim com o
fechamento do ano civil (o que é melhor do ponto de vista contábil e de
planejamento das atividades).

Em 2003, um grupo de Conselheiros sugeriu uma revisão dos
Estatutos, e na reunião foi aprovada a possibilidade (não existente) de se
poder, de novo, submeter o meu nome para concorrer às eleições por mais um
período de 4 anos.

Alguns amigos do Conselho – e outros, de experiência na RCC
do Brasil – tem me sugerido que, talvez fosse interessante eu aceitar concorrer
novamente, pois que com isso – segundo eles – se poderia concluir – ou
organizar mais concretamente – alguns projetos que foram inspirados durante a
minha gestão.

Agradeço imensamente o carinho e a confiança em mim
depositada da parte desses irmãos, mas acredito piamente que, se formos fiéis
ao Senhor – permanecendo em escuta, clamando em oração, e deixando-nos
realmente conduzir pelas inspirações do Espírito no lugar de nossas pretensões
humanas à margem de Sua luz, Deus dará à RCC do Brasil, nestas eleições, a
pessoa que Ele já tem em Seu coração, e que por certo estará capacitado a fazer
o que eu poderia fazer, e – além disso – muito mais! É possível um novo ânimo,
uma nova e atualizada visão, um novo ritmo conforme o compasso que o Senhor tem
reservado prá nos nesses tempos de nossa peregrinação eclesial.

Assim, pois, é que reafirmo: não sou candidato. Muitos não
crêem nisso, mas, é verdade: não sou candidato. Já quando da aprovação dessa
possibilidade, em 2003, eu dizia aos 7 membros do Conselho que tinham votado
contra: “Não se preocupem. Primeiro, porque a decisão será sempre do Conselho
(não se trata de um artifício para se “perpetuar no cargo”);e segundo, porque é
necessário que eu queira ser candidato…”.

Pois bem: não o sou!… Permitamos ao Espírito Santo
trabalhar de fato em nossos corações. Abramos mão de nossas posições
pré-concebidas (em relação a mim, inclusive – ainda que positivamente), e
tenhamos presente esta realidade: a obra é do Senhor; se não atrapalharmos, o
Senhor cuidará dela, e nos dará a pessoa segundo o Seu coração. E se assim o
for, ganharemos todos. Não haverá “perdedores”, derrotados…

Tenho alguns “privilégios”: permanecerei como membro do
Conselho Internacional da RCC (ICCRS) por um período que poderá se estender por
até mais 6 anos (depende daquele Conselho), e por conta disso continuo como
membro do CONCCLAT – nosso Conselho Latino-Americano – por quanto tempo estiver
no ICCRS, onde faço parte do Comitê Executivo.

No Brasil, como ex-presidente, continuarei participando do
Conselho Deliberativo por mais 4 anos, onde pretendo -, como o fui antes de ser
Presidente -, continuar servindo a Renovação Carismática de maneira ativa e
comprometida, tanto nessas instâncias, como também em meu Grupo de Oração ou
onde quer que eu seja chamado ou enviado.

Por conta disso, gostaria de aproveitar a ocasião e
partilhar com todos na Renovação Carismática alguns sentimentos que trago em
meu coração com relação à caminhada do Movimento conforme pude acompanhar nos
últimos anos, e sugerir alguns direcionamentos que talvez possam nos ajudar a
adentrar neste processo de almejada maturidade eclesial.

Compromisso – De vez em quando alguém me pergunta: “Como vai
a Renovação Carismática pelo Brasil?”. Respondo: “Existe de tudo um pouco”. E é
fato. Há realidades que são verdadeiros motivos de alegria para o meu coração
de coordenador, com a liderança comprometida e empenhada em fazer acontecer a
graça de Pentecostes. Líderes e coordenadores que procuram caminhar em plena
sintonia com as diretrizes emanadas tanto do Conselho Nacional com das outras
instâncias de coordenação. Líderes que buscam acolher e repassar para o seu
povo as diretrizes referentes à formação, aos projetos discernidos pelo
Conselho. Não só criam, mas apóiam verdadeiramente seus ministérios,
facilitando-lhes a participação em eventos que lhes dizem respeito e cuidam
para que esses eventos de formação sejam reproduzidos a nível de sua realidade
de coordenação, garantindo assim a concreta vivência da dinâmica carismática,
bem como a comunhão e a unidade de expressão da Renovação Carismática. Também é
verdade, porém, que em todos os níveis, deparamos-nos com muitos que na
realidade praticam uma espécie de “renovação particular”. Entendem o “movimento
não uniforme” – dos Estatutos internacionais -como uma “licença para fazer as
coisas do jeito que eu bem entendo”. Não acolhem os direcionamentos – exceto
naquilo que lhes interessa -, não os repassam para os seus liderados, e agem
como se não estivéssemos ligados eclesialmente por laços de coordenações
colegiadas, representativas. Parecem se considerar apenas “beneficiários” da
graça, e não, também, co-responsáveis de seu estabelecimento e difusão. Não se
empenham nas iniciativas que visam viabilizar e dar sustentação aos projetos da
Renovação (por exemplo, 55% das Dioceses, há anos, não pagam ao Escritório
Nacional a contribuição (estatutária) que lhes é de dever; a Revista Renovação,
orgão oficial do Movimento, com encarte exclusivo para a formação e
enriquecimento dos Grupos de Oração (e cujo custo sai a R$2,00 por mês), não
tem mais que 3.000 assinaturas em todo o Brasil). Coordenadores que foram
eleitos para representar o seu povo junto ao Conselho, e o Conselho junto a seu
povo, e não fazem nem uma coisa e nem outra. Boicotam as informações. Não
demonstram interesse (quando não dificultam) em que seu povo se inteire das
diretrizes do(s) Conselho(s). Não fazem, e não deixam que façam. E quando
fazem, fazem-no com aquela visão de que, “aqui mando eu, e faço como acredito
ser o melhor para a nossa realidade”. Sem falar nos que colocam “na boca” do
Conselho coisas que nunca o Conselho o determinou, ou sequer sugeriu.

E encontramos, assim, realidades ditas carismáticas
totalmente alheias à identidade do Movimento, gerando muitas vezes conflitos
desnecessários com o clero local, com a hierarquia, e induzindo o povo a uma
prática carismática que não tem legitimidade e nem articulação. Pergunto: você
sabe se o coordenador eleito pelo seu Conselho tem participado das reuniões do
Conselho para o qual ele foi eleito? Ele tem se inteirado das diretrizes desse
Conselho e repassado as informações para o Conselho que o elegeu? Tem
acompanhado os direcionamentos de formação e de atividades? Tem atuado em
comunhão com outras instâncias de coordenação?

Do Conselho Nacional, por exemplo, alguns membros – eleitos
pelos diocesanos de seu estado – passam mais de ano sem aparecer nas reuniões
(são só 2 por ano; de 5, faltam 3, por exemplo), havendo mesmo gente que já vai
terminar seu mandato, e até hoje só participou de uma reunião. (Consulte-nos
por e-mail, se quiser saber do seu).

Alguém poderia dizer: talvez essa pessoa não tenha condições
financeiras de viajar, de ausentar-se de sua casa… Acontece que essas pessoas
estão sempre presentes em outros eventos de nível nacional e até regionais (e,
creiam: até internacionais), porque tais eventos dizem respeito ao ministério
pessoal que elas escolheram para si.

Não temos nada contra a participação delas em outros
eventos. Apenas ressaltamos que se elas não iam poder representar seus
Conselhos, que não tivessem assumido. E o nosso Regimento diz, em seu Art. 11º:

A participação nas reuniões, de forma completa, constitui,
para os Conselheiros, dever decorrente da natureza dos seus cargos, e para os
assessores e consultores, constitui compromisso inescusável, salvo motivo de
força maior, sempre que forem convocados.

Critérios – Parece que “a culpa” por esta situação de
lideranças descomprometidas com os objetivos da RCC é um pouco de nós todos.

Que critérios temos observado na escolha de nossas
coordenações? Temos nos colocado à escuta do Senhor para tal? Levamos em conta
o chamado de Deus – a vocação -, ou guiamo-nos apenas por critérios humanos? Os
eleitos são frutos de um acurado discernimento e oração, ou foram eleitos por:
a) articulações? b) por ter melhor condição financeira? c) porque “não havia
outro” que assumisse? d) porque era “a vez” da “minha turma”? Por estar mais
disponível? e) porque era o que tinha mais tempo de caminhada?

E por que me candidatar a cargos de coordenação? a) porque o
Senhor “me falou” (mas não falou para os demais)? b) porque creio que com a
coordenação irei auferir vantagens pessoais? 
c) porque tenho futuras pretensões políticas? d) porque recebi o apoio
do “político de plantão” que quer, no futuro, instrumentalizar o apoio da RCC à
sua própria candidatura (ou inibir a de outras)?

Neste particular, a tentativa de manipulação política da RCC
tem gerado dores e divisão. Transpõem-se para dentro do Movimento os métodos de
articulação (e aliciamento) comuns às disputas políticas, relegando-se a
segundo plano a vontade de Deus.

Queremos, sem dúvida alguma, apoiar e ter representantes
nossos em todas as esferas da lide política. Só não podemos permitir que este
relacionamento interfira negativamente em nossos propósitos, desviando nossos
olhares do rumo para onde o Senhor aponta, para “costurar” caminhos que atendem
à pretensão de quem queira se servir de Renovação para realizar seus projetos
pessoais, instrumentalizando o Movimento e fazendo dele mero trampolim. Não se
pode permitir que interesses e manobras de cunho político determinem o ritmo, a
ação, e – através de coordenações eleitas por articulação – os direcionamentos
da Renovação Carismática. A história aponta para os resultados deploráveis que
resultam de alianças feitas sem discernimento entre poder espiritual e poder
político (haja vistas a resistência de nosso povo em “misturar” fé com
política).

Vejam, irmãos e irmãs, que os critérios humanos, o bom
senso, logicamente também são úteis no processo de discernimento (tempo de
caminhada, experiência anterior em algum tipo de coordenação, afinidade
ministerial, disponibilidade, etc.). Mas eles devem somar-se ao discernimento,
e nunca ser o seu fator determinante. Capacidade organizacional não é o mesmo
que revestimento pela unção; e cultura, de per si, não se identifica com visão
profética. É preciso levar em conta o carisma para a coisa, o chamado divino, a
unção. Fora disso, bem sabemos o que acontece, e, a realidade viva está aí para
quem quiser fazer a devida leitura. “São por demais conhecidos os resultados
desastrosos, quando não calamitosos, do trabalho de pessoas que se engajam em
atividades da Igreja, sem ter recebido de Deus os dons necessários para tal.
Mero ativismo não é o mesmo que a atuação carismática” (Arnold Bittlinger, Dons
e Ministérios, Edições Paulinas).

O Senhor capacita os escolhidos, sim. Desde que Ele tenha
sido “ouvido” nesta escolha.

É exatamente porque “Ele capacita os escolhidos” que os
critérios humanos não devem ser a razão principal de nossa escolha. Quando é
Deus que chama, ainda que o chamado não reúna – aos olhos dos homens –
condições para o trabalho, Ele capacita.

Notem que, a correção da situação de “equívoco carismático”
com que nos deparamos em muitas realidades, só depende de nós… Depende de nós
permitir que a vontade de Deus se sobreponha à dos homens. Depende de nós
devolver ao operar do Espírito a condução das coisas que lhe dizem respeito. Ou
permanecer “fazendo de conta” que somos “guiados por Ele”, e vivendo na
“periferia” da graça carismática…

Purificação – Deus tem nos falado de muitas e diferentes
maneiras a respeito de um eminente reavivamento na Renovação Carismática. Tem
dado sinais de que “a Renovação está grávida de renovação”. Está falando – pelo
papa, pela Igreja, pelo povo, pelos fatos – que estamos envoltos em um processo
privilegiado – de feridas abertas, de dores, de decepções, de desvios, de
barreiras, de crises… mas de maturidade, de redirecionamento, de volta ao
primeiro amor, de um novo despertar… de coragem profética! Sim, coragem
profética de deixarmos que coloquem o dedo em nossas feridas, e desinstalem-nos
de nosso comodismo espiritual, de nossa dependência à carismaticidade meramente
emotiva, de nossas justificativas quanto às divisões dentro da grande graça
carismática, e até mesmo que nos chamem a uma maior consciência a respeito de
nossa responsabilidade quanto a uma crescente banalização da prática de alguns
carismas…

Uma das características de todo reavivamento é a
purificação. Todo despertar espiritual é sempre precedido de uma “via
purgativa”, dolorosa. Daí a necessária coragem profética para se deixar mexer
naquilo que está a “embolorar-se”, a cheirar mal, ou a crescer de forma
aberradora. Pois falar dessas coisas não nos torna populares, não nos torna
“aceitos”, e nem nos granjeia a aprovação das pessoas…

Amar a todos os que estão equivocadamente em serviços nos
quais lhes falta a unção, sim. Sem, porém, compactuar com o erro, permitindo,
por comodismo ou covardia, que o povo de Deus se veja privado das bênçãos
espirituais que Ele nos tem reservado para estes tempos. Ter, cada um de nós,
coragem de romper com os erros – nossos, ou de outros -, e permitir que o
Senhor assuma em todas as nossas atividades o Senhorio que tanto anunciamos ser
dele. Que o Senhor não nos permita de continuar caindo na tentação de
usurpar-lhe o senhorio sobre as coisas que lhe são de direito! Poderemos
enganar a muitos, mas não ao Senhor. E que terrível deverá ser o final de quem
trapaceou com o Senhor em questões de senhorio…

De joelhos – Uma outra característica dos reavivamentos é
que eles são sempre precedidos de um grande movimento de oração. Pessoas
(Charles Parham e Inês Ozman, em 1901) equipes (os dirigentes de Cursilho, em
agosto de 1966), grupos (reunidos em Pittisburgh e South Bend, nos E.U.A.),
e… os próprios apóstolos (quer na descrição de Lucas (At 2) ou de João (Jo
20),) manifestavam na oração sua sede (Jo 7, 37), seu profundo anseio pelas
coisas de Deus, quando foram visitadas de forma especial pelo operar do
Espírito.

A oração abre a porta para o derramamento do Espírito Santo.
Quando há uma fé expectante, um ardente desejo de Sua presença manifestada em
um povo de oração, o Espírito Santo quebra as barreiras, desfaz as
resistências, pois nada é demasiadamente difícil para Ele. E se derrama, se doa
em profusão, se manifesta em abundância.

Nas origens, fomos sempre identificados como um povo que só
sabia rezar. Alguém já disse: e se perceberem que nem rezando direito estamos
mais?

Há pessoas e grupos em fervorosa e carismática vida de
oração, sim. Mas ela deixou de ser a base constante e inconfundível de nossa
espiritualidade – como um todo -, e em muitas e muitas realidades já não se
identifica mais o povo da Renovação como “um povo de oração”. E nem sequer de
louvor! (a menos que identifiquemos louvor apenas com certos momentos de
cânticos e oração em línguas, quando não apenas com cânticos de nosso
vernáculo, mesmo). Não há mais ensino sobre vida pessoal de oração, e sobre
louvor. Supomos que as pessoas já o sabem e praticam, apenas por participar de
algum momento tido por carismático. Esses são temas que se tornaram raros em nossos Grupos de
Oração…

Por diversas vezes e de diferentes maneiras, o Senhor nos
tem chamado à redescoberta do valor da oração, nos últimos tempos. “Os olhos do
Pai procuram adoradores”, proclamava o Senhor através do Congresso Nacional dos
Artistas Carismáticos, no ano passado; e reforçava, na reunião do Conselho:
“Levanta-te, Brasil, de joelhos”.

É certo que muitas atividades vem sendo desenvolvidas por
muitos irmãos em diferentes realidades, nessa área. Alguns livros também estão
sendo escritos sobre o assunto, e outros estão em andamento. Mas, que
tal estabelecermos um MINISTÉRIO DE ADORAÇÃO? Que tal termos alguém (pessoas,
grupos) pensando um direcionamento, uma formação, um caminho inspirado a
respeito da prática da adoração? Alguém que nos motive, exorte, ensine, tudo
aquilo que possa nos levar à prática da adoração como ministério?

Deus tem colocado em minhas mãos diferentes sinais de que
esta também é sua vontade para a Renovação: termos em nossos Grupos,
Ministérios, Conselhos, Eventos, pessoas pensando, praticando e conduzindo o
povo de Deus à adoração.

Vou propor isso na próxima reunião do Conselho, em outubro
próximo. Não sei bem, ainda, como isso tudo vai acontecer, mas convoco aqui a
todos os que já sentem esse chamado e já estão envolvidos “informalmente” com
esse ministério, a que partilhem conosco suas experiências, e ajudem-nos a
coletar material para a reflexão e organização inicial do mesmo. (Escrevam para
o Escritório Nacional, por favor!).

Ministérios na RCC – Os ministérios (antigas “Secretarias”)
na RCC são “criados” (organizados a nível nacional) ou “extintos” (enquanto realidades
ligadas ao direcionamento direto da Presidência e do Conselho Nacional)
conforme as necessidades de se levar adiante os objetivos discernidos para a
Renovação. Os Ministérios ligados organicamente ao Conselho Nacional (pois eles
podem existir independentemente da Renovação Carismática, enquanto organismo,
bem como de estar organizado a nível nacional) devem:

prestar-se a organizar, criar subsídios de formação e
impulsionar os serviços decorrentes do exercício de um determinado carisma, na
Renovação Carismática.

orientar esse serviço segundo as moções do Espírito, em
comunhão (e destaque) para os direcionamentos que o Conselho Nacional venha a
discernir. Ou seja, eles são organizados para dar rosto e visibilidade ao
pensamento do Conselho a respeito de como cada ministério deve encarnar em suas
atividades os direcionamentos do Conselho.

se um grupo organizado à guisa de ministério opta por
institucionalizar aquilo que considera o seu carisma, sem considerar os
direcionamentos específicos do Movimento (que, por sua necessária organização,
já “institucionalizou” aquilo que seria necessário para garantir o diálogo e a
comunhão com a Igreja como um todo), tem legitimidade em sua pretensão, mas não
tem mais porque continuar atrelado ao Conselho Nacional, ao qual deveria
representar. Ou seja, quem assim atua deve assumir-se como uma expressão
carismática independente – no sentido de organização – do Conselho. E pode – aí
sim – ter fundador, estatutos, caixa, objetivos, coordenações, e eventos, à
parte do Conselho Nacional. (E inclusive responder por si mesmo diante da
hierarquia da Igreja).

Neste sentido estarei também colocando na Pauta de
Discussões do Conselho uma avaliação de nossos atuais ministérios. (Sugestões,
observações, considerações sobre os ministérios em realidades locais serão bem
vindas).

EQUILÍBRIO – Alguns pregadores insistem em querer ligar o
arrefecimento da dinâmica carismática à “excessiva racionalidade”, ao acentuado
“intelectualismo”, à “exagerada atenção” dada à formação na RCC.

Pergunto: será que é coerente crer que nosso povo está
demasiadamente envolvido em processos de formação, e por isso já não vive sua
identidade carismática como deveria?

Ora, nem é verdade que nosso povo está excessivamente
voltado à questão de formação (oxalá estivesse), e nem é verdade que uma coisa
seja a causa da outra.

O que ocorre, sim, é o fato de muita gente acomodar-se em
relação à formação, porque dedicar-se a ela não dá tanto “Ibope” como outras
atividades mais estrepitosas. Muitos coordenadores só promovem encontros na
linha do aparente “reavivamento”, da “adrenalina”, da agitação, da cura pela
cura, do espetáculo, da presença de nomes enaltecidos pela mídia (TV,
especialmente), de atividades, enfim, que garantam sucesso de público (e às
vezes, de dinheiro).

Isso tudo, certamente, pode até ser muito bom, mas o
resultado de investir somente neste aspecto, relegando a formação – que garante
a perseverança serena e duradoura do exercício da fé – a segundo plano, tem
trazido resultados desastrosos à RCC em muitas realidades.

Uma das maiores causas de barreiras em relação à RCC nas
dioceses diz respeito às conseqüências do comportamento de líderes mal
formados, que, com uma visão parcial – e medíocre – da verdadeira identidade e
propósito da Renovação, se arvoram em praticar os ministérios segundo “as
revelações que o Espírito lhe faz diretamente”. (Sem falar nos pregadores que
sabem – superficialmente – “de tudo”, e se põem a transmitir o que na realidade
eles mesmo não dominam. Mas como eles sempre põe em seu programa a palavra
“cura” – com os necessários “testemunhos” -, muitos preferem a eles (público
garantido) aos próprios coordenadores de ministérios, a quem compete de fato
desenvolver a formação em suas áreas específicas, e em comunhão com as diretrizes
da RCC.

“Uma das tarefas mais urgentes da Igreja de hoje é a
formação dos fiéis leigos (…) Por conseguinte, ela deve ser uma das vossas
prioridades (…) A fé esmorece quando se limita ao costume, ao hábito, à
experiência meramente emotiva. Ela deve ser cultivada, ajudada a crescer, tanto
a nível pessoal como comunitário”, nos alertava o Papa, em abril de 1998,
falando aos dirigentes da Renovação na Itália. Urgente, pois, que as
coordenações, com coragem profética, abram mão do aparente “sucesso” e assumam
a tarefa que lhes compete como líderes do povo de estabelecer critérios para a
realização de eventos, propiciando o necessário equilíbrio entre iniciativas
com perfil de animação e outros com caráter de formação, para que a correta
visão doutrinária conduza à adequada prática, garantindo-se assim a solidez da
fé sem abrirmos mão de nossa identidade (todos estamos “cansados” de ver gente
muito eufórica e cheia de ativismo que, depois do primeiro “tranco”, abandona a
Renovação… e às vezes, a própria Igreja!).

Consideremos também que, a fé no Espírito Santo (a história
o demonstra!) “precisa de ser incessantemente reavivada e aprofundada na
consciência do povo de Deus” (João Paulo II, DeV, 2) (…) “À Cristologia, e
especialmente à eclesiologia do Concílio, deve seguir-se um estudo renovado e
um culto renovado do Espírito Santo, precisamente como complemento
indispensável do ensino conciliar” (idem, citando Paulo VI).

Estudar de modo renovado. Aprofundar. Estabelecer um culto
renovado do Espírito Santo. Não ter essas coisas, pois, por supostas…

Mais de Ti, Senhor! – Depois de um considerável – e
inevitável – período dos trabalhos organizados sob a noção de “secretarias”, a
Renovação desperta agora para um novo período onde nosso comportamento precisa
se caracterizar pela visão dos ministérios, que considera, na base de todo
serviço, um carisma, e não uma organização!

Dar aos nossos trabalhos o tratamento de ministérios
significa, entre outras coisas:

redifinir – ou ajustar – nossos critérios na escolha de nossos
coordenadores (de qualquer instância, mesmo), considerando sempre a vontade de
Deus mais que quaisquer outras vontades.

procurar relacionar o carisma requerido com a função (ou
trabalho) a ser desenvolvido, lembrando sempre que a presença de um talento não
é necessariamente a garantia da presença de um carisma.

considerar que é fácil prover habilitações necessárias ao
exercício de um cargo a quem tem o carisma para determinada tarefa, e que é impossível
(a nós, homens) conferir carisma a quem tem somente as habilidades.

ter sempre presente na mente que a obra de Deus só se faz
com o poder de Deus, que Ele concede sempre aos que Ele escolhe, e não aos que
nós escolhemos sem levar em
conta Sua vontade, Seu chamado.

enfim, por, em tudo, mais do Senhor do que de nós próprios.

Este é o tempo. Esta é a visão: colocar mais de Deus em
todas as coisas; menos de nós. Renunciar aos nossos planos pessoais,
abrindo-nos com docilidade às modificações que o Espírito queira fazer em
nossos projetos. Morrer, para brotar…

Como líderes, perguntarmo-nos: Estou fazendo realmente o que
Deus quer? Fui escolhido e vocacionado por Ele para aquilo que faço, ou eu
mesmo escolhi o meu ministério, o “meu” carisma, o meu serviço?

Para as coordenações, meu nome foi discernido pela comunidade,
pelo Conselho, pelo meu grupo, pelos que oram comigo… ou foi sugerido por mim
mesmo – direta ou indiretamente -, sutilmente, disfarçadamente articulado?

Tenho pensado como autêntico pastor no povo que Deus me
confiou? Tenho sido fiel na retransmissão daquilo que me compete partilhar e
direcionar? Tenho oferecido “verdes pastagens e águas tranqüilas” para as
ovelhas que o Senhor pôs em meu caminho? Tenho sido fiel na preservação de
nossa identidade, na busca da comunhão, e no empenho pela missão? Ou tenho
“feito” a “minha” própria “renovação”?

Sugiro que, sozinhos e também com nossos núcleos, façamos
uma serena reflexão sobre nossas vidas, tendo em mãos o texto (anexo)
“CONFISSÕES MINISTERIAIS”, de Horatius Bonar, publicado no Boletim “Arauto de
Sua Vinda”, da Revista Impacto. E perguntarmo-nos: o que tem sufocado a chama
do Espírito em nós? Em mim? E pedir ao Senhor fortaleza e determinação em
renunciar ao que quer que esteja nos atrapalhando.

LÍDERES – Os assuntos aqui pontuados requerem o envolvimento
e o empenho das diferentes estâncias de participação na RCC. Ao povo em geral,
de modo concreto, compete avaliar a situação em que se encontra verdadeiramente
a RCC em sua realidade (Grupos de Oração, Ministérios, Núcleos, Coordenações,
atuação dos Conselhos, perfil dos eventos e dos pregadores), a comunhão com as
devidas instâncias de coordenação da RCC por parte dos que o representam, etc,
e colaborar com suas lideranças, ajudando-as – e, às vezes, cobrando-as – a
discernir, com espírito de caridade e paz, sobre os rumos que os novos tempos
da graça de Pentecostes está a reclamar.

Papel especial, porém, tem a liderança da RCC nesse
processo. “Como líderes da Renovação Carismática Católica, uma de suas
primeiras tarefas é a de preservar a identidade das comunidades carismáticas
espalhadas pelo mundo inteiro, incentivando-as sempre a manter uma ligação
estreita e hierárquica com os Bispos e o Papa. Vocês pertencem a um movimento
eclesial; a palavra eclesial implica numa tarefa precisa de formação cristã,
envolvendo uma profunda convergência de fé e vida. A fé entusiástica que dá
vida às suas comunidades deve ser acompanhada por uma formação cristã que seja
abrangente e fiel ao ensinamento da Igreja. De uma formação sólida surgirá uma
espiritualidade profundamente enraizada nas fontes da vida cristã e capaz de
responder às perguntas cruciais colocadas pela cultura de nossos dias. Em minha
recente encíclica ‘Fé e Razão’, faço uma advertência contra o fideísmo que não
reconhece a importância do trabalho da razão não apenas por compreensão de fé,
mas até por um ato de fé em si mesmo.”

É a nós líderes que o Senhor cobrará quanto à condução do
Seu povo. Temos permitido que Ele pastoreie Seu povo através de nós, ou temos
usurpado Seu ministério, conduzindo Seu rebanho segundo nossos caprichos,
nossos interesses, nossa obstinação, como se não estivéssemos a Seu serviço?

O benefício do voto – As eleições que estão por se realizar
em inúmeras realidades da RCC do Brasil, no momento, é uma especial ocasião
para começarmos a corrigir rotas e viabilizarmos as condições para que as
mudanças que o Senhor está a apontar, aconteçam.

Algumas pessoas estão “encalacradas” no cargo; não fazem,
não deixam outros fazer, e ainda arranjam infindáveis subterfúgios para
continuar no cargo (inclusive argumentando que é “a vontade do bispo… ou do
pároco”… ou até mesmo do Espírito Santo!).

Todo Conselho (todo) tem a obrigação de apresentar, em
Estatuto/Regimento, regras claras de sucessão de coordenação, considerando-se
sempre a comunhão com a Igreja Particular local, bem como com o Regimento da
RCC Nacional – sem contudo, “absolutizá-lo” (Alguns Coordenadores, por exemplo,
estão usando o Regimento do Conselho Nacional para dizer que agora “o tempo de
coordenação é de 4 + 4 anos”. Ora, é claro que este período busca contemplar
uma realidade do tamanho do Brasil, com quase 30 estados e mais de 270
dioceses). Ele não é parâmetro para outras realidades, que já receberam
orientação específica sobre a constituição de seus Conselhos, anos atrás.

Usando sempre de bom senso e discernimento – e sem se
esquecer de que toda coordenação, mais do que uma autoridade, é uma instância
de serviço -, disponhamo-nos a aprimorar nossas coordenações, que só se
identificarão com ministérios se realmente estiverem a serviço do bem comum, –
traço distintivo de todo carisma.

Gestos concretos – Convoco a todos os amados irmãos e irmãs
a colaborar com o Conselho Nacional no sentido de colocar em marcha algumas
iniciativas que o Senhor vem apontando para a RCC do Brasil. Não vou
detalhá-las (algumas já são do conhecimento da grande maioria de nosso povo, e,
outras dependem ainda da devida aprovação e adaptação por parte do Conselho
Nacional, em outubro próximo), pois com certeza brevemente as teremos
devidamente enunciadas, com as orientações e sugestões relativas à implantação
das mesmas. São elas:

em ressonância ao convite profético feito à Renovação
Carismática pelo Papa João II para liderar a celebração da Vigília de
Pentecostes neste ano, em Roma, organizar, doravante, em comunhão com os
párocos, a celebração da Novena de Pentecostes em todas as Paróquias (e
capelas) onde for possível. (O Escritório Nacional por certo disponibilizará
subsídios para isso, oportunamente).

promover, a partir dos Grupos de Oração, e em comunhão com o
Projeto Queremos Ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida, Missões nas casas situadas
ao redor do local onde funciona o Grupo – ou das participantes do mesmo –
sempre de modo a não conflituar com o que a Paróquia já realiza (se realiza),
mas em cooperação com a mesma e sem desprezar a identidade carismática que nos
é própria.

retornar à realização de Experiências de Oração, de
Seminários de Vida no Espírito (em seus diversos matizes), facilitando-se
sempre a participação máxima do povo (verificando-se a carga horária, o local,
os dias da semana, etc.).

empenhar-se no Projeto Levanta-te, Brasil, de Joelhos,
acreditando que a promessa de Deus de levantar o Brasil conta com a
participação de cada um de nós nesta grande obra de soerguimento do povo
brasileiro no reconhecimento de Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

 CONCLUINDO: Há muito por se refletir; mas o Senhor dará a
cada um de nós, no momento certo, as condições para realizar Sua vontade e
responder à sua vocação. Basta colocarmo-nos à escuta, e sermos dóceis às
inspirações de Seu Espírito.

Neste momento, peço, no Senhor, que cada um que desta Carta
tiver conhecimento nos ajude a divulgá-la o mais amplamente possível (use sua
lista de e-mail, seu G.O., seu núcleo, seu boletim e tudo o que estiver a seu
alcance).

Peço, de modo muito especial, a todos os que trabalham em
cargos de coordenação, que disponibilizem este material para todo o seu povo, e
não meçam esforços em levar adiante os ajustes que se fizerem necessários em
sua realidade.

Que ninguém tenha medo: na obra do Senhor não há
desempregados. Há lugar para todos… Só não podemos permitir, por conformismo
ou falta de coragem profética, que aquilo que começou como uma possante moção e
intervenção do Espírito de Deus se contente em continuar apenas com a força
humana.

Lembro-me aqui de uma advertência que nos fazia Walter Smet,
teólogo dos primeiros tempos da Renovação Carismática:

“Que a redescoberta de Pentecostes efetuada pelo Movimento
não volte à condição de ‘paraíso perdido’, como ocorreu nos séculos passados.
Cumpre que o cuidado pela ordem, por mais importante que seja, evite a assepsia
excessiva. Já nos prevenia Paulo: ‘Não apagueis o Espírito’ (ITes 5,19)”.

E termino com esta oração de Dom Helder Câmara:

 

 

“Como é importante, Senhor,

Estar a cada instante

– a cada fração de segundo –

no lugar exato

previsto em teus planos divinos,

onde posso render mais

com tua graça,

para ajudar-te a levar a termo

os teus grande mistérios…”

Que Deus nos abençoe e nos sustente na fidelidade à Sua
vontade.

Com um abraço carinhoso e agradecido;

Salve Maria, a Virgem de Pentecostes!

Reinaldo Beserra dos Reis

Presidente do Conselho Nacional da

Renovação Carismática Católica do Brasil

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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