“Religiosos mundanos não servem”, Papa Francisco

QuaresmaOraçãoSem uma vida espiritual neste sentido mostrado acima, o religioso, e também o leigo, não tem um apostolado forte e frutuoso

No dia 06 de junho de 2015, o Papa reuniu-se com padres, religiosos e seminaristas na catedral de Sarajevo; tocado por testemunhos de mártires que sofreram com a guerra, frisou: “religiosos mundanos não servem”.

O Papa ressaltou que “os religiosos devem levar uma vida digna da Cruz de Cristo, pois religiosos mundanos são uma caricatura, não servem”. O Papa ouviu o relato da vida de um padre, de um frade e de uma irmã, de Sarajevo, marcados pelo sofrimento da guerra.

O Papa disse que: “Irmãs, sacerdotes, bispos, seminaristas mundanos são uma caricatura, não servem, não têm a memória dos mártires, perderam a memória de Jesus Cristo crucificado”.

Vivemos tempos muito difíceis, onde a Igreja tem sido ameaçada, perseguida e difamada de muitos modos. Temos assistido cenas bárbaras contra a fé e os bons costumes. Isso exige mais do que nunca leigos, religiosos, e sacerdotes santos e fiéis a Cristo e à Sua doutrina, entregando-se totalmente a Deus, sem reservar nada para si mesmos, como Jesus fez.

O sacerdote, especialmente, é outro Cristo; “alter Christus”, sobe ao altar a cada dia, como o Cristo subiu ao Calvário para se imolar. Seus paramentos simbolizam as vestes de Cristo a ser imolado. A sua vidaapostolado deve ser uma imitação da Santa Missa que celebra.

Cada sacerdote, quando jovem, teve a coragem e a graça de ouvir e atender ao chamado do Senhor, de abrir mão de tudo, para ser só de Deus. O mais difícil foi feito; agora, então, coragem, é preciso a graça de Deus, a oração, a meditação diária, para ser fiel ao Senhor neste chamado. A Igreja precisa de padres santos, espirituais, movidos pelo Coração de Jesus.

O já falecido abade francês, Jean Baptiste Chautard, em seu livro “A Alma de Todo Apostolado” (Ed. Cultor de Livros, Ed. Cléofas), mostra com clareza porque muitos padres são, como o Papa disse, “mundanos”: falta-lhes uma viva “vida interior”, uma comunhão profunda com o seu Senhor, a vida do próprio Jesus na sua alma, onde Cristo lhe comunica o Seu Espírito. A santa Missa é mal celebrada, a Liturgia das Horas é mal rezada, a oração é desprezada, os pecados são esquecidos…

Chautard diz que o sacerdote não pode “abandonar o Senhor das obras, por causa das obras do Senhor”. De nada vale uma agitação frenética para tocar uma obra que o Senhor não pediu ao sacerdote na oração, na intimidade com ele. O abade diz que se a obra não é da vontade de Deus, o padre não tem a graça divina para realizá-la; se cansa no meio da obra e desiste. Se o sacerdote não se alimenta da força e da sabedoria do Senhor, na Eucaristia, na Ação de Graças, diante do Santíssimo Sacramento, não terá o que levar ao povo, a não ser a sua miséria humana. Ele fala da falta da “ação de graças” após a Comunhão. Citando o Pe. Faber, diz com tristeza, que “para alguns, o quarto de hora que se segue à Comunhão é o quarto de hora mais enfadonho do dia”. E é neste tempo que a alma se transforma em seu Senhor.

Chautard fala das “heresias das obras”, “onde a ação de Deus muitas vezes é substituída pela atividade humana, orgulhosa e febril; o poder da oração, a economia da Redenção desprezadas ou esquecidas”. Ele diz: “se a minha sede de viver de Jesus deixar de aumentar, é porque não possuo o grau de vida interior que Ele exige de mim. Sem vida interior e recolhimento, os pecados veniais hão de multiplicar-se na minha vida, e chegarei a não fazer caso deles. Para os ocultar e enganar-me a mim mesmo, servirão as aparências de piedade, o zelo pelas obras, etc. A minha vida interior, será o que for a minha “guarda do coração”. “Aplica-te com todo cuidado possível à guarda do teu coração, porque é dele que procede a vida” (Prov. 4,23)”.vidainterior

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Eles pertencem ao “mundo”

A lei de nosso combate

Quando uma alma procura imitar Jesus, em tudo e com todo afeto, Ele reina nela, afirma o antigo abade. Então, a alma não cessará de possuir a alegria, mesmo no seio das provações, porque o Senhor lhe dará as Suas consolações na mesma medida das tribulações (cf.2 Cor 3,5).

Dom Chatard diz: “Deus quer que eu me santifique e me dedique às obras de apostolado. Devo, pois gravar na minha alma esta convicção: Jesus quer ser a vida dessas obras. Os meus esforços, por si sós, nada são: “Sem Mim nada podeis fazer” (João 15,5). Somente serão úteis e abençoados por Deus, quando, por meio da verdadeira vida interior, estiverem unidos à ação vivificadora de Jesus”.

“Deus enviou Seu Filho unigênito ao mundo, para que vivamos por Ele” (1João 4,9).

São Tomas de Aquino diz que “o fim da criatura humana é unir-se a Deus: toda a sua felicidade consiste nisso” (Suma Teológica 2ª 2ªe, q.180, a. 4). De modo especial isso vale para o religioso. Sem esta meta sua vocação corre sério risco.

Santo Efrém, doutor da Igreja, recomendava: “Sempre te hás de lembrar-se de Deus. Assim a tua mente chega ao Céu”. Para Hugo de São Vitor, “a mente é o paraíso da alma. Enquanto medita as coisas celestes, deleita-se num paraíso de felicidade”.

O Cura d´Ars dizia: “Devemos lamentar os pobres mundanos, pesa-lhes sobre os ombros um manto forrado de espinhos; não podem fazer um movimento sem se picarem; ao passo que os verdadeiros cristãos tem um manto forrado de aminho”. Os cristãos mundanos “veem a Cruz, mas não veem a unção”, dizia S. Bernardo.

São Gregório Magno, Papa e doutor da Igreja, discípulo de São Bento, recomendava aos monges: “viva consigo mesmo!”; isto é, não se deixe governar pelas coisas exteriores; reduza a imaginação, a sensibilidade, a inteligência e a memória ao papel de servas da vontade”. O mundo nos fascina e nos impede de vivermos em nós mesmos.

“A vida de oração – ensina Chautard – é sempre, em si mesma, uma incomparável fonte de atividade”.

São Tomás de Aquino ensina que: “O homem está colocado entre as coisas deste mundo e os bens espirituais, nos quais reside a felicidade eterna. Quanto mais adere a uns, tanto mais se afasta dos outros, e vice-versa” (Sh. Th. 1a 2ae, q. 108, a.4.).sedesantos

Sem uma vida espiritual neste sentido mostrado acima, o religioso, e também o leigo, não tem um apostolado forte e frutuoso. Diz, enfim, dom Chautard, que “quem quiser obter a vida interior deve esforçar-se por adquirir domínio completo sobre si mesmo, para que todas as suas ações redundem para a glória de Deus”. É o que São Paulo ensina: “Tudo o que fizerdes, por palavras ou obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando, por Ele, glória a Deus Pai”. (Col 3,17).

Assim, o religioso não será, como disse o Papa, mundano, e estéril no serviço de Deus.

Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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